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Mostrando postagens de fevereiro, 2022

O inferno da criação II

No início, faço algo parecido com um quase esboço. Nada mais que isso; um traço de um personagem, talvez um nome, um provável começo, oxalá um fim, trechos de um desenvolvimento. Uma parte é o que tenho, a outra será aquilo que vou descobrir escrevendo. Sei o que quero dizer, mas ainda não sei como o fazer. E é bom assim. É isso, sigo com o que tenho em mente. Depois o texto converte-se em uma entidade autônoma. Talvez nessa coisa resida o prazer que pode atenuar toda a angústia do processo. Porque entre o que temos em mente e o papel, tudo é movediço. Há a incerteza de que realmente vou traduzir em palavras precisas a imagem que paira na cabeça feito uma miragem. Não é como pegar passarinhos - o que já é difícil - mas sim, como tentar guardar os seus belos voos.

O inferno da criação

       Só decido mesmo escrever um livro quando sou fisgado por ele. Na verdade, nos primeiros momentos, rejeito-o com todas as forças. É o inferno da criação. Mas se o livro me toma, não há mais jeito, pois boa parte dele já está formada em minha mente. Estou no que gosto de chamar de "o horizonte de eventos da escrita". É um termo que tomei emprestado do campo da astrofísica. Nesta, o horizonte de eventos é o espaço limítrofe de um buraco negro. Uma vez nele, não há mais retorno. Então, é sentar e escrever. Por mais que eu não queira.

Espera

Na hora do almoço - quando cada um pegava o seu prato e se recolhia a um canto feito monges procurando suas celas para orações - poderia ser a qualquer momento. Ora ficávamos ouriçados feito pássaros na iminência de chuva, ora circunspectos feito velhos em igrejas. A mesa vazia de gente remetia-nos a um espaço de carteado num cassino abandonado. Parecia também envergonhada por não ser útil naquele momento. Sobre ela, emborcado, apenas um prato com a faca e o garfo em volta: três esfinges no deserto. Muito provavelmente, horas depois, minha mãe viria recolhê-los num suspiro de desânimo, espanto e cansaço. Em dias assim, a tarde tornava-se maior. Havia mais gente, mais carros, mais ônibus, mais pessoas. Era como se todos soubessem de algo que nós só iríamos saber muito depois. E por isso, todos nos pareciam suspeitos. Quando algum grito distraído vazava pelo nosso portão, adentrava as nossas fibras e era como alguém dedilhando as cordas frias de um instrumento desafinado. Inv...

Retalhos I

  A falta de sentido. A rotina feito um trilhar sem fim numa estrada interditada. O levantar-se e o voltar a dormir frente ao tempo que se derrama sem pena. A contagem regressiva como uma cantilena insana. O entusiasmo do início dos relacionamentos e a tristeza em seus términos. Os livros e os pedaços de si mesmo que vão ficando em histórias inacabadas. As retomadas com ares de fim, sempre. A teimosia. Como um pugilista que, de tantos socos, já pressente a queda, mas que permanece de pé por não mais suportar o cheiro da lona.

Retalhos II

  Como esses medos que, vez em quando, nos assolam na madrugada, e nos quais nos pegamos em matemáticas espirituais macabras, complexas, impossíveis feito equações que nunca fecham. Medos que nos paralisam. Vácuos que involuntariamente caímos e que nos parecem mesmo sem saídas, mas que no dia seguinte, soam distantes e ridículos.