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Mostrando postagens de junho, 2022

Estrelas

Caxambu, Cruzília Lambari, Aiuruoca Baependi As conheci primeiramente pela voz Como uma geografia sonora Ela com sua boca grande lábios muito vermelhos falava dessas cidades como se, por aí, Deus tivesse iniciado o mundo - e por que não? – De uma delas, ainda ouço o som das charretes o borbulhar incansável das águas O longe verde O grande tambor A solidão dos que dormem cedo De outra, o sussurro do vento nas árvores Asas de um inseto gigantesco O frio de mármore A grande ladeira A solidão dos que morrem cedo Outra ainda Um tipo de ruína nobre Um projeto de cidade para um rei que nunca veio Em todas elas - como um cordão que une as contas - uma imensa mesa de madeira maciça rodeada de viúvas de gargalhadas tristes e desdentadas - as mulheres nunca morrem – o cheiro de café perfumando o tédio da tarde lenta com o Cristo sofrendo na parede O velho hotel desbotando a onipotência feito um homem pobre usando o tern...

Oh, domingos

          Oh, domingos tão azuis e cheios de gente. Gente minha. Meu pai provava uma cachaça e logo fechava os olhos para não enxergar o tamanho do seu prazer, que era imenso. Meu irmão tinha passado em primeiro lugar na faculdade, e naqueles domingos isso era como ir à lua. Minha mãe com o pano de prato no ombro, e sempre que algum de nós dizia algo mais picante, ela rindo, tacava ele em nós nos enchendo de cheiro de alho e amor. Na vitrola, tocava Um Novo Tempo, do Ivan Lins, e isso nos dava uma vontade danada de pular nesse tempo. Ir embora dançando e cantando. Ah, domingos , pássaros coloridos que vinham comer na nossa mão feito os vira-latas. Minha irmã nos mostrava a única nota azul no boletim, escondendo, com o dedão, todas as notas vermelhas, dizendo: tão vendo? tão vendo? E o vizinho gritando do portão, José , deu galo na cabeça, vim trazer o dinheiro. E meu pai dizendo, "entre, entre, tome uma e deixe o dinheiro. Vai ser para a festa de quinze...

As fogueiras

De onde vem o cheiro dessas fogueiras tão antigas? fenda no tempo que o tempo não colou Estou aqui – e o que seria isso/isto? – Longe, muito longe quase além de mim mesmo e esse cheiro a me levar pela mão. A idade é um colar de contas. Quebrado, despenca Volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Rugas desvanecem lago acalmando suas águas E o cansaço some como a noite afugentada pelo carro de Apolo Desnudo-me do que me tornei - não há medo, nem vergonha - Aspiro esse cheiro bom que vem das ruas onde morei Ouço o crepitar da madeira, vejo as fagulhas - insetos de fogo - riscando a noite louca São as fogueiras Defronte a minha velha casa de guerra, demolida, assim como eu Esfrego as mãos Sinto mesmo o calor Dess...

Pra ontem (letra)

PRA ONTEM (Reynaldo Bessa) Me pega pela alça Me põe logo na balsa Me salva Me acolhe Me acarinha Me escolhe Me apadrinha Me dá de me amar Me põe logo na bolsa Me toca uma salsa Me valsa Me assanha Me domina Me arranha Me alucina Me dá de me amar Me tira dessa fossa Me canta uma bossa Me dança Me cata Me aconchega Me caça Me chamega Me dá de me amar Que é pra ontem Que é pra já, pra hoje que o amanhã Tá longe