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o carneio nosso de cada dia

de repente, percebeu que ia morrer e pôs-se a correr   os homens logo o trouxeram de volta    fungava, trêmulo, indefeso         parecia um condenado no corredor da morte - e não era? - seus olhos,         ah, seus olhos... uma vez, Rosa disse algo assim: "olhe nos olhos de um cavalo e verá todo o sofrimento do mundo."    vi esse sofrimento nos olhos de um boi esperava que aquilo terminasse como nos meus filmes de matinê      mas aquilo não era um filme menos ainda com final feliz      era o carneio nosso de cada dia... lembro que chorei e logo ouvi um dos homens dizer:     "tira esse moleque daqui." minha mãe numa obediência silenciosa e enérgica de madre me puxou pelo braço, mas logo me desvencilhei dela         permaneci como ali permaneciam as árvores eu não conseguia tirar os olhos daqueles olhos perdidos               ...
Postagens recentes

teus braços

sempre houve o desespero desde o primeiro homem mas, naquele tempo, eu tinha 16 anos e morria em teus braços que era onde também morriam as tardes não há desespero que suporte isto:                 morrer como quem vive

as macieiras

quando íamos deitar meu pai não lia para mim — tinha mais o que fazer — minha mãe até que tentava mas era sempre vencida por uma frase longa                                       ou uma palavra difícil somado a isso o cansaço da lida lá de fora, entre um latido ou outro de algum vira-lata, vinha o gemido dos armadores, o baque do pé do velho na parede num impulso para a rede como se num salto                                         para a vida meu pai não leu um livro sequer sabia lá quem era Jim Hawkins ou Sexta-feira — tinha mais o que fazer — Mas lá em casa nunca faltaram livros                                       caíam das árvores - era o que parecia - e as árvores, desconfio, meu pai quem a...

por sua conta e risco

não vou mais permitir que você fale por mim [serei eu ainda?] que se esconda sob a minha efígie enquanto destila a sua bílis em meu nome não acha que já há sofrimento demais na poesia? não acha que os leitores, se é que eles existem, não estão saturados de tantos eus líricos fragilizados? e o que os leitores têm a ver com isso? não vou mais deixar que você use o meu crédito [terei eu ainda?] que passe o dia sob a minha sombra enquanto experimenta isto ou aquilo em meu nome não acha que já há lamento demais na poesia? não acha que os leitores, se é que eles existem, não estão cansados de todos esses eus líricos afetados? e o que os leitores têm a ver com isso? se quiser fazer poesia saia detrás de mim, dê um passo à frente, mostre a cara e assuma, de vez, o que diz   todos nós, eus líricos, não estaremos mais              sob os seus ditames e caprichos               ...

a feira de domingo

quando eu era pequeno sei disso porque minha mãe segurava-me pela mão as mães fazem isso com receio de que seus filhos se percam é a tendência dos filhos? apesar de que um dia, quando eu já estava grande, minha mãe segurou-me pela mão quando eu queria ir embora de vez - e eu fui - mas eu dizia que, quando eu era pequeno e a minha mãe segurava-me pela mão, sim, e foi quando ela abriu a porta do quintal e eu vi, pela primeira vez, a feira de domingo com seus ruídos e cheiros peculiares a vida, pra mim, abriu-se como num circo hoje, toda vez que abro uma porta de algum quintal há sempre uma feira de domingo mesmo que seja segunda-feira, terça-feira, quarta-....

almoço de domingo

aqueles que, com dificuldade, largaram os seus afazeres, mais com o intuito de afugentar os roedores invisíveis de sempre, procuravam um lugar à grande mesa do almoço de domingo                              falavam, falavam                                             gritavam até outros apenas olhavam mas havia tantas retóricas                            no acender dos cigarros,                      ...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...

crônica nômade

Há momentos aparentemente simples que nos marcam profundamente. Em minhas viagens pelo mundo tive vários momentos assim. Muitas emoções que brotaram feito partículas incandescentes de uma fogueira interna. De repente, somos tomados por uma sensação de completude. Não por alguém ou coisa qualquer, mas por algo especial e que encontra eco em nós. Todas as nossas culpas, remorsos e frustrações parecem ser levados para a margem de nós, restando apenas a placidez do oceano que somos. Como disse, foram vários momentos, mas, agora, gostaria de falar de um deles. Eu estava deixando Milão e indo para uma cidadezinha charmosa no norte da Terra da Bota. Uma amiga iria me receber. Estava cansado. Eram sempre muito exaustivas as mudanças de uma cidade para outra. No trem, para que eu pudesse apreciar a paisagem, lutava contra o sono. E quem vence esta luta? De vez em quando, o vagão sacolejava e me trazia à realidade e, ali da janela, eu percebia a planície industrial do rio Pó, os campos ag...

antes que o mundo acabe

Não, você não sabe Apenas acha que sabe Fica num diz-que-me-diz Tenta um cabe-não-cabe Acha que turco é árabe Pensa que faca é sabre Não, você não sabe Deixa de insanidade Não, você não cabe Apenas acha que arde Arrisca um chove-não-molha Fica num tatibitate Pisa na liberdade Posa de bacamarte Não, você não sabe Vá que já é muito tarde Não, você não sabe Apenas acha que é parte Fica num entra-e-sai Largue esse seu disparate Acha que gengibre é wasabi Que cascalho é pedra jade Não, você não sabe Saia antes que o mundo acabe

realidade de mármore

faz tempo que não vou lá é tão silencioso; a tarde ajoelha-se como em oração e não sei mais rezar perco sempre as palavras apesar do tanto para dizer faz tempo que não te visito é tão triste; as árvores encolhem-se feito mães que choram e não sei mais chorar perco sempre os sentidos apesar do muito que sinto eu, ali parado, ao teu lado, e tão longe de ti você, ali parado, ao meu lado, e tão longe de mim faz tempo que não te levo flores que não limpo o pó do teu nome que não recolho as folhas que murcham sobre a tua ausência prefiro o frio da distância ao gelo da realidade de mármore

silêncios

quando dobro um verso em meus punhos similar à minha mãe, ao percorrer um terço como se procurasse uma das portas da Noite não quero nada além das linhas - e como são fugidias - prenhes de silêncios

greve vencida

não consigo apartar-me de mim mesmo ou do que me segura uma mesa de bar é apenas um móvel triste exposto ao sol - ontem era um dialeto - não consigo pisar o chão ou tocar o céu uma batida de bumbo de batera é apenas  uma pancada longe do coração - ontem era um conclame - o tempo costura por dentro com a linha silenciosa das sementes envelheço meu corpo é uma greve vencida

sorrow

passou por mim exalando um forte cheiro de guardado as rodinhas da sua mala de viagem faziam um som de riscado de faca cega para onde ia? olhava longe, como se, através dos prédios decrépitos, conseguisse divisar o horizonte talvez, buscasse ali, alguma resposta e qual seria? tão solitário aquele andar ia visitar os pais, um amigo doente, uma amiga, o ex-marido? pode ser, mas, não um amante, não um amante eu via a mulher linda que fora sob aquela camada silenciosa - talvez irreversível – de sofrimento não me senti atraído por ela me remeteu mais ao quadro Sorrow, de Van Gogh ou a Gymnopédie No. 1 , de Satie:  belezas que preferimos admirar a distância. segui o meu caminho. por breve, muito breve - os breves são os que ficam - fui a moldura daquele instante

na estrada

criar raízes pode ser bom; noutras, nem tanto. o mundo para quem fica pode ser pequeno, infinito para quem parte apegar-se pode ser o fim; desprender-se, o início não há lembranças no futuro no passado, a fonte de todas elas é o ontem que nos mantém na estrada, pois tudo que é lembrado,  vive e caminha junto

Rosário do impossível

“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol”. Me deparei com essa frase quando eu tinha uns dez, onze anos. Na minha visão de menino, penso que eu entendia o sentido que a frase encerrava. Naquele tempo, eu era um torcedor de carteirinha e me doía ver, tanto na cara do goleiro do time pelo qual eu torcia, quanto na do adversário, a dolorosa angústia da qual fala Belchior na sua canção Divina Comédia Humana.  Me inquietou, numa música, alguém chamar a atenção para a dor do outro. Não era uma coisa muito comum à época. Era inusitado. No entanto, o que mais me desconsertou foi perceber que eu poderia pegar essa mesma dor como se fosse minha e descrever textualmente o que sentia. Por aqueles tempos, perguntava-me: “O Belchior, na frase doída, utiliza-se de uma comparação, uma analogia, símile, hipérbole, o quê? Ora, eu era um meninote. De lá para cá, começou a minha lida com a escrita. Quer dizer, as constantes e desenfreadas tentativas de captar algo que flutua no campo das ...

mais um poeta se foi

O poeta não saberá qual seleção venceu a copa Nem quem será o próximo presidente O poeta não caminhará pelas ruas a tramar poemas Nem a sofrer com o recente divórcio O poeta não tomará café em sua caneca preferida Nem terá de se aborrecer com erros do seu novo livro O poeta não irá mais à feira comer pastel paulista, de carne Nem poderá mais apalpar as frutas e pensar em seios O poeta não precisará mais se preocupar com aquele dente mole Nem com o passaporte vencido O poeta não saberá quem venceu o Nobel Nem quais poetas ficaram inconformados (indignados?) O poeta gostava de roupas largas, de carteira no bolso de trás, de relógio de pulso, de ficar em casa, de olhar pela janela O poeta gostava dos domingos de chuva, de playlists dos anos 70 De mascar chicletes já sem açúcar e mesmo que sua namorada fizesse cara feia, gostava de um palito, após as refeições, para cavoucar os dentes numa sonolência de operário no intervalo do almoço O poeta gostava mesmo de ser poeta, apesar da dureza Po...

O voo do poeta ou o poema contínuo

Por Gustavo da Cruz Que pássaro era esse a alçar o voo ao revés? Um pássaro preto? Um pavão misterioso? Espécie ameaçada de extinção? Talvez. De fato, não um avião, nem um super-herói. Mas uma possível impressão do mundo aos olhos de um poeta. E se a poesia, dentre suas muitas definições, inaugura o impossível, a poesia de Reynaldo é uma fotografia do evento de inauguração. Ou quiçá o rastro da rememoração difícil daquele tempo ido – ao contrário. Quem acompanha a trajetória do autor, com o privilégio de quem acompanha uma estrela (ou seja, que aos nossos olhos nasce e morre brilhando), percebe que, assim como o escritor Patrick Modiano diz sempre escrever o mesmo livro, Reynaldo está sempre escrevendo o mesmo poema: o verdadeiro poema contínuo – não menos nem mais que o de Helder, contudo. O que não resulta em repetições ou redundâncias. Pelo contrário. O poema contínuo renova o espanto: do existir, do amar, do morrer, enfim, o espanto que nos torna quem somos. Disse Szymborska: “Pode...