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Mostrando postagens de abril, 2023

Hoje estou com saudade

Clarice era bruxa. Evidentemente, no sentido empregado por Otto Lara Resende. Quando a autora, sua amiga, faleceu ele disse que ela era bruxa pelo modo peculiar como a obra se conectava com as “coisas do espírito”. Eu que sempre resisti a ela – já disse isso várias vezes aqui – fui dar uma olhadinha em um dos seus livros e deles nunca mais saí. É terreno aparentemente sólido, você acha que pode caminhar sobre, e até caminha, mas vai afundando e nem nota. É como entrar no mar: pode ficar parado e logo perde a direção das coisas. Fui só dar uma espiada em seu mundo vasto e vi outros tantos mundos que já nem sei qual deles habito. Quem sabe, habito todos ao mesmo tempo porque Clarice é quântica. No sentido mais profundo do termo. Falo das inúmeras possibilidades. Como no filme Interestelar que somos aquele que empurra o livro e aquele que o ver cair. A obra de Lispector é aquela intricada estrutura do universo onde o tempo e o espaço possuem referências diversas. Então, bruxa sim. Mas não...

Filhos e Amantes - D. H. Lawrence (meus livros - resenhas)

Quando muito jovem li D. H. Lawrence não sabia ainda que ele era, durante um tempo, pelo menos, um dos prediletos de Henry Miller – outro escritor que logo se tornaria de cabeceira – e um dos escritores mais admirados por Clarice Lispector. – Talvez, só depois de Herman Hesse - Henry Miller chegou a esboçar um livro sobre Lawrence, mas acabou abandonando-o por achar que não conhecia mesmo o autor inglês. O que Miller quis dizer é que apesar de ter lido Lawrence a exaustão, este era imenso, tanto na obra quanto na vida. E ele era mesmo. Quem o lê pode perceber isso. Clarice também reconheceu essa imensidão e a registrou em um dos seus textos na antiga revista Senhor. Essa semana, reli Lawrence. E não me refiro ao seu clássico, O amante de Lady Chatterley – atualmente, há um filme baseado no livro. Um filme horrível por sinal. Quer dizer, onde há ironia, paixão, ira, leveza, onde há ondas e mais ondas de sentimentos a ponto de sentirmos vontade, vez ou outra, de bater em Lawrence e logo ...

Tenho mesmo de crescer?

Um dia, meu pai entrou em casa e num jeito cerimonioso, disse-me: “ande, tome um banho, se arrume, se perfume, vamos dar uma volta”. Na hora eu não gostei nada daquilo, mas, calado, fiz o que ele me pediu. Entrei na Kombi. Eu estava mais cheiroso que o filho do barbeiro. Foi o que a minha mãe me disse. Meu pai deu uns dois espirros, algumas tossidas e completou: “Você deve ter acabado o perfume da sua mãe, não?”. Não respondi nada, porque não entendi nada. Só muito depois fui saber que a adolescência é um tempo que paira entre a economia e o excesso. O laconismo pela insegurança, e a prolixidade pelo...pela insegurança também. Meu pai me apresentou a uma senhorinha, a dona Lilica. Depois disse a ela que voltaria em duas horas. Saiu de lá como se fosse o pai de outro filho. Nem olhou pra mim. Por um momento pensei que estava sendo abandonado. A senhorinha, sempre sorrindo, ajeitou o meu cabelo, e pediu-me que ficasse sentadinho que logo ela estaria de volta. Os homens, ali, chegavam apr...

Um tempo particular - São Tomé das Letras

Já fui dez vezes a São Tomé das Letras. Nunca vi um disco voador, nunca conversei com duendes, fadas, e gnomos, mas sempre voltei. Espantei-me com a ladeira do amendoim, sim, mas ninguém se espanta duas vezes com o mesmo fantasma, né? Já entrei na grande gruta; aquela, dizem, que liga Machu Picchu a São Tomé, e que foi por onde alguns incas, é o que dizem também, escaparam dos ataques atrozes e gananciosos de Francisco Pizarro. Sim, entrei nessa gruta gigantesca, em fama e tamanho, mas não cheguei a andar dez metros porque a coisa foi afunilando, foi ficando escura e cada vez mais e mais úmida. Não deu pra mim. Mesmo assim, sempre voltei. Já visitei todas as cachoeiras, mas como tenho fobia de grandes quantidades de água, fiquei, de longe, apenas banhando os meus olhos com a beleza e a generosidade da Mãe Natureza. Apesar da fobia, volto e volto e volto a São Tomé. Não há jeito. As trilhas? Sim, já fiz e refiz todas. E sempre me vejo refazendo-as. O que penso que há mesmo na cidade, e ...

O passado de pequenas janelas e flores artificiais

Poucos meses antes de morrer, a última vez que veio a São Paulo, meu pai cismou, enfim, de rever o lugarzinho onde havia morado em sua juventude. Estávamos no Bar Brahma tomando um chope atrás do outro. Eu, ele, minha irmã mais velha, e um amigo. Era um domingo azul. Entramos no carro e tocamos pra lá. Aos oitenta e quatro anos, meu pai sabia muito bem o que estava procurando. Estávamos atentos a nomes de ruas, números, referências (que não existiam mais), e ele passivo como um gato bem alimentado. Num dado momento, disse: “É aqui”. A alguns passos do local, pude ver aquele homenzarrão revolver seus vesúvios adormecidos. Lentamente pôs as mãos nos bolsos e mordeu os lábios pálidos. Depois fez um silêncio enorme e só seu. O silêncio era tão impenetrável e tão dele que, sutilmente recuei alguns passos com receio de profanar aquela missa interna. Enfim eu veria lágrimas naquele rosto sugado e triste? Mas ele ficou ali, imóvel com as mãos nos bolsos como se pressentisse que se desse mais u...

Hominídeos & chatGPT

Há milhões de anos, os hominídeos ficaram de pé. Fizeram isso porque perceberam um imenso campo cercado de desafios. De lá para cá, o mundo mudou muito e continua mudando. Por isso, a necessidade constante de superar os obstáculos como consequência da inquietação humana e da necessidade natural de preservação da espécie. Afinal de contas, a grande preocupação, no atual século, não se reduz apenas a quebrar coquinhos e manter os olhos nos tigres-dentes-de-sabre. Os hominídeos, agora de ternos bem cortados ou de cabelos desgrenhados e de língua para fora continuam buscando um jeito melhor de habitar um mundo cada vez mais veloz e desafiador. Sobre as novas descobertas, não é uma questão de ser contra ou a favor, é natural, afinal de contas, não foi essa inquietação que nos trouxe até aqui e que nos mantém até então? É certo que cometemos algumas atrocidades no curso da história, mas, não é o ser humano, segundo o conto de Voltaire, uma mescla de metais nobres e vulgares? Construímos bomb...

Braga & os passarinhos

Sonhei que Rubem Braga me dizia que não estava gostando nada das minhas crônicas porque eu nunca falava de passarinhos. Reforçou que um grande cronista tem de falar de passarinhos. Disse-me ainda que eu parasse de falar com literatos, que estes não sabem de nada. E outra, passarinhos não têm ego, são como crianças com asas. Eu o ouvia. Permanecia em silêncio. Como contestar o capixaba que amo desde os meus tempos de cursinho? Quando entrei na faculdade, o primeiro amigo que agradeci foi o Braga. Mas como me lembrei que era um sonho, e sonhos possuem tempos geniosos, nós sabemos, então tentei argumentar que... mas ele juntou os lábios num biquinho engraçado e logo soltou um assobio que ecoou longe. Posso ter me enganado, mas penso ter ouvido um canto como resposta vindo lá de dentro da mata. Sim, no sonho havia uma mata. Ele me disse ainda que todos os temas de suas crônicas foram cantados pelos passarinhos. Quando ele não tinha sobre o que escrever, bastava colocar algumas sementes, um...

A partida

Toda a sua vida, lutou tanto que ao morrer fez a morte sofrer. Durante um tempo considerável, ficou quietinha em cima de uma cama. No começo, dizia que dormir é muito bom, mas que dormir demais não é mais dormir. E sobre a cama ficou. Indo lentamente, como quem se despede aos poucos. Víamos, ela ali, de cara emburrada por não poder nos pegar na escola, checar nossos boletins, fazer compras, varrer a casa, lavar a calçada, passar roupa, limpar os móveis, fazer o almoço, o jantar, a sobremesa, o café, retirar a mesa, lavar a louça, e sei lá mais...António Lobo Antunes, um escritor que amo, disse uma vez que quando era um jovem médico tratou de uma senhora que pouco antes de morrer pediu uma taça de vinho do Porto. Chorei ao ler isso, lembrando-me de outra senhora. Esta que resolveu estar ainda mais na minha vida depois que partiu. Quando o dia podia deixá-la respirar um pouco, costumava tirar uma garrafa de Bénédictine – ela adorava - de um lugar secreto e tomava duas, três tacinhas com...

Triângulo da Tristeza - resenha crítica

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness), começando pelo título, é uma referência à nossa “glabela”. Tá, ficou ainda mais complicado, mas essa é a ideia, não vou dar de bandeja, estragar a coisa, então, pesquisem. O diretor e roteirista, Ruben Östlund tem dessas: buscar a atenção do coelhinho com uma simples cenoura de plástico. O que ele quer mesmo e sabe que vai conseguir é fazer você mexer muito a glabela durante à exibição do filme. Pelo menos é isso que nos faz pensar um dos personagens logo no início da película. Eu tenho lá as minhas teorias. Resolvido isso, posso também dizer que apesar de não tirarmos os olhos da tela, o já premiado filme de Östlund, pretende, mas não realiza. Então, por que mantemos os olhos na tela? Primeiro, acredito, pelos personagens. Alguns bem interessantes. O personagem Dimitry (Zilatko Buric) foi o que mais me cativou. Ele aparece em dois dos três atos nos quais o filme é dividido. Ele é um contrapeso na sisuda e chata importância que a elite tent...

Bilhões e bilhões? Definitivamente, não.

Eu renunciaria à música e à escrita se pudesse ser um cientista. Se eu encontrasse uma lâmpada de Aladim, pediria, com certeza: “quero ser um cientista, mais precisamente, um astrofísico”. Mas como não há mesmo lâmpada de Aladim e como sei também que não há mais tempo nem disposição física e intelectual para tamanha dedicação, vou levando minha vida de astrofísico nas horas vagas. Assisti uma porção de vezes à série Cosmos (1980), um marco divisor na programação televisiva com temática científica, apresentada pelo cientista Carl Sagan, e ainda mais vezes, assisti à série “Cosmos: A Spacetime Odyssey”, um remake high tech da série do Sagan, esta apresentada pelo físico popstar Neil deGrasse Tyson. Na Spacetime a simulação de uma aventurosa inventiva no interior de um buraco negro é o meu episódio preferido. Mas isso é apenas o que os cientistas acham que vamos encontrar ali dentro, só que como nunca entraram, né? não podem afirmar. São apenas suposições. Apesar de que, baseando-se em ou...

A grande calçada

A rede social é a grande calçada onde muitos falam e poucos escutam. Não escutam porque são surdos, não, mas porque estão longe demais uns dos outros. Ou porque não querem, não ligam, não sentem. E nessa calçada não há lua nem vaga-lumes, menos ainda o ranger de cadeiras nem um "oi" vez em quando para um ou outro passante. Não há vó cochilando na velha cadeira de balanço, nem vira-lata dormindo encolhido, com um olho fechado e o outro na expectativa de algum naco de carne ali. Há tantos nessa calçada longa e fria. Quando não nos escutam, precisamos gritar em caixa alta, quando, na verdade, gostaríamos de sussurrar em minúsculas e doces vogais e consoantes íntimas de aconchegos, como quando a gente come com um prato na mão e o garfo na outra, sentado no espaldar do sofá, enquanto assiste à televisão. Gosto da pequena calçada, aquela sob o velho ipê que se derramava sobre nós feito um bebê chorão. Às vezes, até podíamos ouvir a lua, presa nos galhos da velha árvore, tentando se...

Numa entrevista

Uma vez, numa entrevista, me perguntaram como eu me sentia quando estava escrevendo. A palavra escrever já me angustia. Adiantei. A angústia de burilar aquilo que parece maior que você. Uma sensação de fardo e leveza. Como quem precisa tirar algo de cima do corpo para continuar a caminhada. Quando me perguntam isso, eu sempre paro e olho as paredes. Sempre alguma imagem me aparece feito uma imensa folha caindo de algum lugar. Então, me veio a cena das lavadeiras que eu tanto gostava de olhar lá no rio. O suor na testa e um canto lamentoso ou uma oração esperançosa nos lábios contraídos. As mãos como a vasculhar os seus destinos lavavam aquelas roupas com energia e sofreguidão. Esse era o peso. Já a leveza vinha quando elas abriam aqueles lençóis grávidos de ventos e os arremessavam sobre os varais que eu já não sabia se eram os lençóis ou elas, as lavadeiras, que voavam. E era tão lindo, tão lindo. Escrever é isso, eu disse, naquele momento: era a dureza da labuta daquelas lavadeiras, ...

Fora de série

Sempre gostei dos significados das palavras. Quando pronunciava uma delas divagava num mundo fabuloso. Uma palavra é uma andorinha que fez muitos verões. Se ela pudesse se espanar, assim como faz um cachorro travesso, espalharia o pó de muitas histórias. Uma palavra, mesmo pequenina, não cabe num dicionário. Está ali apenas o seu cartão de visita, a pontinha do iceberg. Ela viaja com os navegadores, conquista terras com os conquistadores, sobrevive aos perdedores. Sigamos. Eu sou de Mossoró, a segunda cidade do Rio Grande do Norte (tem tudo pra ser a primeira, mas é mesmo a segunda. Se Câmara Cascudo tivesse nascido em Mossoró, pronto, seria a primeira) Mas vamos deixar essas intrigas antigas e divertidas pra lá. Vamos ao que interessa. Veja! ninguém sabe ao certo o que significa a palavra Mossoró. - você sabe, leitor? - Dizem alguns que vem dos primeiros indígenas, os Monxorós, já outros afirmam que o significado provém mesmo de uma árvore muito resistente e flexível, chamada Mororó,...

Navegar

  E navegar sempre foi um perigo. Em águas turbulentas ou como agora, em águas paradas que de paradas não têm nada. E eu a vejo. Está mais velha, mais triste, mas ainda linda. Oh. É como visitar cidades onde fui feliz. Ela cortou o cabelo, amou, desamou, talvez tenha pensado em nós, em mim. E eu não sei o que sinto. É como ler um jornal antigo no qual as notícias antigas ainda dão alfinetadas. Como se a bolsa acabasse de quebrar novamente. Como se a bolsa acabasse de romper novamente. Não. Ela não lembra mais de mim. Muita coisa deve ter acontecido e eu sou importante apenas para mim. Ela já deve desejar outro. É por outro que ela se debruça na janela e briga com o dia. Deve ser por outro que ela começa e não termina um e-mail porque escolhe demais as palavras. É por outro que ela acha que se desgasta e perde tempo. Penso: beijei esta boca que fala e sorri, sabe? Mas será ainda a boca que beijei? Há algo ali que me é familiar e que desconheço. Ela não tem o mesmo vigor, talvez ten...

Argentina 1985 - resenhas críticas

"Argentina 1985" (2022 - indicação Oscar melhor filme estrangeiro) de Santiago Mitre, com os atores Ricardo Darín e Juan Pedro Lanzani, entre outros e outras, é uma verdadeira lição ao Brasil da importância da justiça de transição. Dale. O histórico julgamento que resgatou a democracia cerceada pelo golpe de Estado de 1976 tem como precedentes apenas o julgamento de Nuremberg (1945 e 1946 - sobre os crimes nazistas) e o julgamento de 1975 contra os coronéis gregos que lideraram o golpe de estado no país em 1967. Nesse julgamento de 1985, nove líderes das três primeiras juntas militares que governaram a Argentina após o golpe de 1976 que, estabeleceu a ditadura no país, foram julgados e condenados por crimes de homicídio, tortura e até privação ilegítima da liberdade. Os lideres militares já tinham sido julgados por uma junta militar, mas a coisa terminou mesmo em pizza. Tempos depois, alguns inquietos juízes resolveram abrir o processo e julgá-los novamente, dessa feita, por ...

Ler & escrever

Me contentaria apenas em ler. Ser um leitor amador, no sentido de amar a leitura, e não a ter como ofício. Apenas ler como quem toma banho de cachoeira, banho de chuva, de bica, sem querer saber o sentido da água. Apenas banhar-me numa cascata de letras, palavras, sentenças, parágrafos, capítulos, livros. Ser esse ser sozinho e tão povoado, longe e tão perto, tão seguro de mim até o fim da leitura, e depois o mundo, este onde o chão é chão, o céu é céu, mar é mar, e as pessoas são apenas as pessoas. Ler, apenas ler e estar nos mundos. Mas, e escrever? Ah, escrever. Talvez isso seja o avesso da roupa. Aquilo que toca a pele, que arrepia os poros, que incomoda, pinica, desassossega. Escrever talvez seja essa necessidade de mostrar o avesso das coisas. Escrever é angústia. É uma via de sofrimento com pequenos vislumbres, como dizia Woolf. Sim, é isso, penso. Não há como abrir histórias com um abridor de latas, um saca-rolhas, uma adaga, ou sei lá. Escrevemos histórias como um condenado or...

Desenhar deus

Quando eu era bem pequeno e já podia segurar um lápis entre os dedos e rabiscar alguma coisa com algum sentido no papel, eu gostava de desenhar fantasmas. Desenhava-os para deixar de acreditar neles. Depois, ali, prontos, no papel, eu passava o dia inteiro mostrando-lhes a língua. Com Deus funcionava de outra forma. Eu queria desenhá-lo para acreditar nele. Depois que estivesse finalizado, eu olharia nos olhos dele e lhe faria um monte de perguntas. Essa era a ideia. Naquela época eu pensava mesmo resolver tudo no desenho, assim como um incendiário acha que resolve tudo com fogo, ou um matemático, com equações. Desenhar fantasmas não era tão difícil, vai: era só rabiscar um lençol branco flutuando, depois dois círculos no que seria um rosto – seria porque fantasma não tem rosto – e escrever ao lado: “uuuuuuhhh”. Pronto, eis um fantasma. Pelo menos, o meu fantasma é assim. Mas, desenhar Deus, como seria isso? Por onde começaria? Pela cabeça, pelas pernas, pelos braços? Pera, e Deus tem ...