Clarice era bruxa. Evidentemente, no sentido empregado por Otto Lara Resende. Quando a autora, sua amiga, faleceu ele disse que ela era bruxa pelo modo peculiar como a obra se conectava com as “coisas do espírito”. Eu que sempre resisti a ela – já disse isso várias vezes aqui – fui dar uma olhadinha em um dos seus livros e deles nunca mais saí. É terreno aparentemente sólido, você acha que pode caminhar sobre, e até caminha, mas vai afundando e nem nota. É como entrar no mar: pode ficar parado e logo perde a direção das coisas. Fui só dar uma espiada em seu mundo vasto e vi outros tantos mundos que já nem sei qual deles habito. Quem sabe, habito todos ao mesmo tempo porque Clarice é quântica. No sentido mais profundo do termo. Falo das inúmeras possibilidades. Como no filme Interestelar que somos aquele que empurra o livro e aquele que o ver cair. A obra de Lispector é aquela intricada estrutura do universo onde o tempo e o espaço possuem referências diversas. Então, bruxa sim. Mas não...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa