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Mostrando postagens de fevereiro, 2023

Num dia assim

Num dia assim, voltam a pulular teus dedos em minhas costelas mínimas, frágeis - é bom - Teu perfume barato mistura-se ao cheiro dúbio do vento dessa tarde viciada no leite de Celan Posso vê-la sumindo na malemolência de uma ruína Na garganta, feito o ódio nos tambores, esconde-se a tua foz - Perpétua – Uma maleta – sozinha – re(volta) O fim do mundo Na boca do palhaço Num dia assim Chega-me essa lembrança sem pele, sem osso, tátil - é nada - Teus cabelos envelhecidos, penteados para o paladar dos seres mínimos, abanquetam-se famigerados na carcaça de uma estrela Posso ouvi-la pisoteando o anseio dos quebrantos Da vigília, feito o resvalar de uma peça num tabuleiro, escapa a tua voz - Perfeita – Uma bengala - sozinha – me(dita) O riso do medo Nos olhos do suicida Num dia assim, disse-m...

O sonho de Rimbaud

    O cheiro do incenso me levou para outros caminhos : o pequeno apartamento, o cheiro de creolina na garagem, os corredores turvos, os gritos e gargalhadas cruzando as paredes e nos chegando quase em perdigotos. O elevador puxando seus ferros como um fantasma arrastando grilhões, penas e mágoas. Mas nada, nada invadia aquela cápsula que nos protegia das lâminas afiadas de um futuro já tão perto. Era uma cápsula lânguida onde duas pessoas até conseguem ouvir os insultos do mundo, mas não veem nada além dos dois, ali, envolvidos pelos turbilhões de células. Vivendo aquele momento que nos dá a impressão de que o mundo pode ter lá boas intenções. Um refletido no outro como Narcisos ensandecidos, como Vênus enlouquecida com o seu próprio desejo. Às vezes, um grito zanzava pelos corredores, fugia por alguma fresta e perdia-se na madrugada. O que teria sido aquilo? Quem teria gritado? Mas o que isso importa?      Entrelaçados, viajávamos nos nossos próprios imp...

Será que deus era escafandrista?

Às vezes, me pergunto o que deus quis ser antes de criar o mundo. Porque na maioria das vezes decidimos as coisas por mera contingência. Também, na maioria das vezes, acabamos nos arrependendo das nossas conquistas. Conquistas que parecem mais alheias que nossa. Antes de ser escritor, eu queria ser escafandrista. É. Estaria hoje, é certo, contra a vontade do avanço, em posição contrária à linha do tempo, caminhando com dificuldade, em meus passos de pato, dentro de uma roupa que nem se usa mais, ainda por cima, assustando os peixes.      O progresso tem esse poder antipoético de caminhar à frente dos nossos sonhos. E os sonhos mais ridículos – se é que estes existem – são os melhores. Meu pai me disse, que saiu de casa porque não queria passar a vida toda fazendo serviço pesado e ainda ter a orelha puxada toda a vez que ele pegava o caminho que dava para o seu mundo imaginário. Ele queria entender os passarinhos, queria catalogá-los, estudá-los, mas nunca prendê-los, não....

Nunca gostei de carros

Não gosto de carros. Nunca gostei. Dirigi uma ou duas vezes, na adolescência, quando roubava o carro do meu pai, enquanto ele dormia. Dava umas voltas no quarteirão e pronto. Depois, todo orgulhoso, colocava novamente a chave no porta-chaves. Foi difícil, à época, porque gostar de carros era uma coisa sagrada entre os homens – quer dizer, ainda é, né? – Alguns amigos viviam embevecidos com as máquinas que nunca iriam comprar. Compravam sempre aquele carro que já tinha passado por muitas mãos e que eles tratavam como se fossem novinhos em folha.      No final de semana, o grande programa era ir ao lava-jato. Enquanto os homens mandavam ver no bichinho, podíamos tomar uma cerveja enquanto olhávamos o domingo ainda se espreguiçando. Só falavam em comprar aqueles para-lamas, aqueles para-choques, sei lá. Ah, o tão sonhado farol de milha, o vidro fumê, as calotas diferenciadas, esportivas, o rebaixamento, os bancos, e um detalhe muito importante, o som do carro. Tum, tum, tum....

Lis no peito

Como leitor voraz, por muito tempo, resisti à Clarice. Sei lá por que, apenas resisti. Talvez porque falassem muito dela. Todas as mulheres pareciam ser Clarice. E algumas eram, não a Lispector, mas Clarice. Muitos leitores proferiam frases que não eram da autora. Não que eu a lesse, já disse, não a lia, mas via, em outros livros, teóricos negando a origem das máximas. E outra, sem saber se eram ou não de Clarice, eu não gostava das frases. Clarice disse uma vez, quando lhe emprestaram As Reinações de Narizinho - um livro que idolatrava - que ela procurou imaginar, vez em quando, que não o tinha à sua cabeceira, só para ter de novo e de novo a prazerosa certeza de que o tinha, sim, bem ali. Então penso que eu resistia a ela para ter a certeza de que estava ali, bem na minha frente, desafiando-me sempre e sempre. Clarice me pegou por um dos seus contos: "Os desastres de Sofia" - autobiográfico - . Um conto perfeito. O li de uma assentada e logo em seguida o reli feito um famin...

Crônicas não mais.

Decidi escrever ao editor do jornal dizendo que não iria mais lhe enviar crônicas. Disse-lhe que sei, sim, é apenas uma por semana, mas também argumentei que nela permaneço preso os sete dias. Na minha cabeça fica ribombando a pergunta: “sobre o que escrevo? Sobre o que escrevo? Sobre o que escrevo? Até que caia uma ficha sobre o que eu realmente vou abordar, meu deus, a pergunta não descansa. E outra, não consigo dormir. E se ouço o vizinho discutindo com a mulher, lá estou eu, feito uma fofoqueira, querendo arrancar coisinhas as quais eu possa usar depois na minha crônica da semana. Sacana! Procuro pegar algumas palavras, as mais impactantes, evidentemente: “faz tempo", “onde estava?”, “isso é hora?”. Paro um pouco, tento juntar tudo, mas não rola. Vivo de banalidades, sei, mas isso é banal demais. Ligo a tv e logo tento fisgar algo: o cabelo do apresentador, a voz de fumante da âncora, a dentadura do entrevistado, qualquer coisa. Não dá. Esse negócio de buscar o que escrever é ...

A palavrinha mágica

É comum em entrevistas o jornalista perguntar por que escrevo. Não fico procurando respostas geniais para alimentar o sorrisinho do jornalista nem para manter a pecha de genial. Muito menos, pra me livrar do engodo, faço como Faulkner que costumava responder que escrevia por dinheiro. Um pouco sim, claro, é um ofício, mas quem só escreve por dinheiro já perdeu há muito a noção da coisa. E o Faulkner não perdeu. Então, apenas olho para um lado, para o outro e respondo que essa coisa de escrever começou como diversão, sei lá, depois virou patológico. Estou sempre atrás de algo para escrever. É insano. Sou viciado na coisa, sou fissurado na tinta de impressão ou no movimento elétrico dos dedos. Gosto de encarar a dúvida se vou ser mesmo capaz de imprimir aquilo que estou pensando e que já está se perdendo enquanto estou pensando. Muita coisa acontece no ato da criação. É um desafio constante. Às vezes, me dá vontade de mandar tudo para o espaço, mas seria o mesmo que tirar a banqueta que ...

O tempo que passa do tempo

Com o tempo, penso que vou perdendo cada vez mais a minha desenvoltura com as horas comigo mesmo. Não me refiro ao estado de isolamento voluntário e positivo, aquilo a que chamamos de solitude. Esta é tão necessária, quanto, vez em quando, é preciso sair para bater papo com alguns amigos. Falo do tempo que transborda o estar só. Antigamente, quando ficava sozinho, embriagava-me com a minha companhia, com a ausência de mundo. Na verdade, criava o meu próprio mundo e o habitava como se eu fosse a própria humanidade. Adorava quando minha família ia viajar, e eu, já grandinho, ficava tomando conta da casa. Não era a ausência deles que me empolgava, mas sim, o estar comigo mesmo, o desafio de me olhar no espelho e ver-me a mim mesmo e somente. De ouvir os meus próprios barulhos. De dormir e acordar comigo. Quando eles voltavam, mostrava-lhes, então, com orgulho, a minha cara de sobrevivente da vida de um ser só.      Mas penso que isso já faz muito tempo. Hoje, a coisa não é b...

Carnaval, Pavlov e rejeição

Sempre que é carnaval logo me lembro do Pavlov. É, aquele que criou a Teoria dos Reflexos Condicionados, que fez experimentos com o cachorrinho que saliva toda vez que ele toca a sinetinha. Ah, pois é, sempre que é carnaval, escuto essa sinetinha. Carnaval, Pavlov, cachorro, sineta, reflexos condicionados, sim, tudo isso parece uma amálgama bizarra, e é mesmo, mas é assim que entendo a coisa toda vez que é carnaval. Há tanta alegria lá fora, (apesar de que sempre chove), os foliões são tão sorridentes, os confetes e as serpentinas caem sobre nossa cabeça como se anjos risonhos soltassem as coisinhas lá do céu nublado. Ah, as caixas, os bumbos, os surdos, os enfeitiçados tamborins, e os gritos das pessoas, tudo nos convida a sair e a cair na gandaia e morrer sem pena na mesma noite. Ora, é carnaval, a apoteose da alegria, a divinização do deus-carne, os quatro dias de desforra dos martírios diários dos escritórios bolorentos, dos salários minguados, das comidas de rabo e puxadas de orel...

Reconhecimento, apenas isso.

Eu nunca lutei pelo sucesso, pois sempre tive muito medo dele. Não saberia lidar com isso. Virgínia Woolf, uma escritora inglesa ,disse uma vez: "não quero ser célebre nem grande. Quero avançar, mudar, abrir meu espírito e meus olhos, recusar ser rotulada e estereotipada. O que conta é liberar-se por si mesma, descobrir suas próprias dimensões, recusar os entraves". Penso da mesma forma. Lutei mesmo, minha vida toda, pelo reconhecimento do meu trabalho, tanto da parte dos meus pares - principalmente - quanto do público. Reconhecimento é a chancela de qualidade do trabalho. Perdura. Quando refiro-me a sucesso, falo também da fama. Fama é barulho, badalação, festa, fumaça. Gabriel Garcia Márquez disse que a pior coisa que pode acontecer a um ser humano é ficar famoso. Daí em diante, ele nunca mais saberá se está sendo ele mesmo ou o que o povo pensa dele. Venho de uma família simples. Meu pai, num dia quente, gostava de comprar picolés pra todo mundo e ficar chupando-os sob uma...

As crônicas do Gullar

Eu era ainda casado quando comecei a colecionar as crônicas do Ferreira Gullar assim que ele foi contratado por um grande jornal de São Paulo. Logo pela manhã, pegava o jornal e ia direto para o texto dele. Eram geniais. Para mim, ele foi o último grande cronista de uma geração extraordinária. As crônicas não calçam mais chinelões, não vestem bermudas, não são mais escritas no Pé pra Fora, não têm clima de sexta-feira e muito menos traz gosto de chope. Ficaram sisudas, deixaram de ser crônicas. Tornaram-se agudas? Onde estão as Clarice, os Vinicius, os Paulinho, os Carlinhos de Oliveira, os Braga, os Sabino, as Telles, os maria, os Porto, os Drummond. Onde estão? Onde estão? Alô! Tem alguém aí?      O fato é que eu não me contentava apenas em ler as crônicas do Gullar. Eu queria mais. Lia e relia, lia e relia. Então, logo depois passei a cortar toda elas e colá-las numa pasta que ficava na minha estante de livros. Mesmo aquelas nas quais o autor maranhense batia sem pena ...

O jogo

Vez em quando, ainda penso em negar a realidade. Aprendi quando era ainda muito pequeno. Quando, ao anoitecer, meu pai me mandava para o quarto e desligava a luz, eu dizia para mim mesmo que o escuro não existia, que era uma grande ilusão, e sendo este uma ilusão, consequentemente, os fantasmas não iriam aparecer, pois, era o que também diziam, eles só surgiam no escuro. Dizia para mim que o quarto não existia, que eu nem havia ainda nascido, e por isso, não poderia estar ali e com medo. Nessa cantilena, eu adormecia.      Depois de alguns anos, ainda busquei mexer nesse jogo de refutar como um homem que resolve abrir uma caixa de um brinquedo que há muito ganhara num dos tantos natais já esquecidos. Foi quando Ella ficou doente. Eu dizia para mim mesmo - com os lábios do homem, mas com a força do menino - que aquela doença não existia e por isso Ella não podia trazê-la em seu corpo delicado. Dizia que pessoas como Ella nunca morrem, e que, na verdade, a morte era apenas ...

Riso amarelo

Tenho dificuldade de desligar de mim mesmo. Não tenho também facilidade de falar banalidades. Dizem que por isso, talvez eu morra cedo. O fato é que já passo dos 50 e indo. Quando saio com alguns amigos - amigos mesmo - e nos sentamos à uma mesa de um boteco qualquer para algumas rodadas de chope, ao aboletar-me, logo espero aquela questão existencialista, daquelas que põem todo mundo a pensar. Mas eles só falam de bolas na trave, placares extraordinários. Logo depois estão falando de pernas, rebolados e tudo mais. Aventuras muito provavelmente saídas das Mil e Uma Noites. Bom, não gosto de bolas na trave. Ou entra ou vai pra fora. Ponto. Bola na trave é como aquele sentimento dúbio do qual não conseguimos nos livrar, pois não somos derrotados pela incompetência, mas sim, pela Física. Sobre as pernas, rebolados e acessórios, penso que as relações andam complicadas. Pensando nisso, olho o meu chope que me olha. Invejo os meus amigos. Poxa como eles são desenvoltos com as trivialidades. ...

Grito.

Quando nasci, gritei. Foi o que minha mãe me disse. Foi um grito seco e curto como se quisesse já impressionar o mundo, mas não tivesse muito tempo para isso. Nascer é sempre uma urgência. Gritei porque senti de cara a afronta que é a realidade. Porque já sabia do que as pessoas são capazes. Sabia que gente havia enriquecido negociando gente. Toda a riqueza, de uma forma ou de outra tem um pouco dessa nódoa, não? Sabia que poucos lutariam com unhas e dentes para defender o muito que possuem. E ai daqueles que tentassem impedir isso. Ai daqueles. Não continuei a gritar, apesar de saber que há mais que motivos suficientes para gritar e gritar e ainda mais alto. Não grito porque sei dos poetas, da poesia, da música, da arte, sei dos santos, dos bons Sei daqueles poucos que lutaram muito para que alguns escapassem dos chicotes dos algozes abastados e ensandecidos pelo vil metal. Parei de gritar porque acredito no empenho dos malabaristas e que os malabares, apesar de toda a força contrária...

Um tempo.

Chega um tempo, que um homem, mesmo que namorador, passa a gostar de viver sozinho. É quando ele se apaixona por si mesmo, por seus limites, suas manias, seus fracassos, e oxalá, algum sucesso. É quando, sem ainda se dar conta, com a camisa pelo avesso vai à padaria e depois que nota, apenas ri. Essas coisas, sabe? Há na volta sozinho para casa uma solidão consoladora. O bom de não dar e nem pedir explicações. Pode jogar-se na cama e, sem culpa, deixar a louça para o dia seguinte. Há dias nos quais quer apenas ser um burrinho descansando à sombra e não o garanhão sempre a postos. Gosta de pensar que a noite foi feita também para uma bela noite de sono. Ah, dormir sozinho como o deus Pã em sua pacata floresta. Acordar sozinho como assim desperta o sol há milênios. E isso, sem reclamar um único dia.      Chega o momento em que um homem, mesmo que namorador, gosta de estar consigo, com sua poltrona, com sua janela, seu canto, seu silêncio. É quando ele se olha e se vê. Um po...

Canto ao velho livro novo.

em minhas mãos um livro que comprei num sebo um livro nunca é apenas um livro é um conversa encadernada um pensamento com o qual podemos pensar juntos abro-o como se libertasse alguém de um calabouço ou como se tirasse a mordaça de um velho sábio vou lendo-o. curvo-me diante de algumas palavras que vão além das palavras frases que desvendam mistérios e criam outros é um tipo de elevação uma contemplação um renascimento é deparar-se com um velho novo mundo e, com os cílios, tirar o pó sobre a trama é como visitar a outra margem do rio pessoas vêm me receber me dão a mão, enquanto desço do barco que construí com a madeira da suspensão da crença e piso, então, a terra tantas vezes pisadas, mas ainda virgem para mim. é a festa de um conviva apenas dançando ensandecido entre vírgulas, pontos, acentos, traços, letras e mais há uma música - sempre há - que só é audível para quem se convida a esse baile de liberdade sinto por outros sentidos, vejo por outros olhos penso por outras mentes abraç...

Dói

Dói em mim essa tua veia delicada pulsando em teu pescoço de mármore Dor silenciosa, órfã lutando como essa vida astuta e mínima Há infinitos nestes centímetros que me separam de ti Roubo-te, então, com meus olhos Chacais diante de um desatento gnu Então, a espera doída e incerta do salto que não será salto Dor que dilacera, chama vivendo como tua veia delicada e cínica no teu mármore de carne Será meu ou será teu este sangue sobre minha língua?