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Mostrando postagens de outubro, 2023

Casa velha

Casa velha De entrar meninos [e de sair] Pequenos, irrequietos, chorões Meninos de tias, irmãs, comadres [de sei lá quem] Meninos e meninas Casa velha de histórias Tantas, Mais que da matriarca velha de fala mansa sonolenta no rilhar da cadeira inquieta Balançando-se no precipício do tempo Histórias e histórias Casa velha dos rumores das folhas das damas da noite excitadas de odor do morcego velho entrando pontualmente [no piscar do amanhecer] e esbaforido, para seu costumeiro sono de bunda-cabeça vinha como se fugisse da cruz fugia era mesmo da luz velha casa de frinchas e goteiras por onde minha alma passava apertada para tocar a lua, as estrelas, os planetas... quando a noite não cabia em mim a maioria delas cabia direitinho dobradinhas em meu coração-envelope mas ...

Saudades de mim

Um poeta disse uma vez: “quando eu morrer sentirei saudade de mim”. Entendo, mas sinto essa saudade em vida. Quando se tem vinte anos o mundo é sempre possível. Ouvir, às alturas, os discos do Bob Dylan num domingo de sol. Fumar um cigarro na varanda, numa noite de frio, enquanto sente no rosto, o calor dos lábios dela. E sorrir, sorrir porque o mundo é possível. Encantar-se com os cantos dos pássaros, com a chuva nos cabelos. Às vezes penso mesmo em mim. Não é um pensamento egoísta, não, - sei das urgências do mundo - é uma necessidade de mim mesmo. De dizer aquilo que nunca me disse. Claro que não gostaria de voltar aos vinte anos. E para quê? Seria como morar definitivamente num país do qual gosto muito. Não, nesse país quero ir de vez em quando, assim, quando tenho saudade de mim. O que sinto? Não sei exatamente, comovo-me, fico triste, mas às vezes vem algo além de qualquer descrição. É como um abraço comigo, talvez uma dança definitiva. Faz tempo que não sinto o mundo possível. Q...

O médico, o hospital, essas coisas

Pode observar, numa recepção de hospital, posto de saúde não há Homem-Aranha, Batman, nem Homem de ferro. Pode olhar para a direita, para a esquerda, para onde quiser. Não há mesmo Aquaman, Hulk, muito menos, super-homem. O que vejo são pessoas de olhar desesperado. Algo como um bicho envolto num saco de veludo debatendo-se numa ira silenciosa. Todos eles ali, em seus movimentos contidos e suas sacolas de mazelas a tiracolo. Todos eles e suas taquicardias, bradicardias, noites mal dormidas, aflições, incertezas e sei lá mais. E todos com medo. Muito medo. Mas medo de que exatamente? De serem privados da vida em vida. Do estar e não estar no mundo. O medo dos movimentos lentos e sádicos do médico ao burilar um envelope grande e branco. Não há homem forte em momentos assim, já disse. Ali está Batman, veja, na cadeira, diante do médico. Não traz mais a força nos punhos, por isso não há mais as famosas onomatopeias: tuim, poin, toc, trunc, pah, nada disso. Ele está curvado, mira o chão, en...

Mudo

Nós dissertamos sobre os assuntos, mas é o tempo que nos dá o cardápio. Quando era pequeno dormia no mesmo quarto do meu irmão mais velho. E sobre o que falávamos? Sobre gaiolas, passarinhos, planetas, jogadores prediletos. Então, viajei. Fiquei um tempo fora, como uma roupa lavada que é posta para secar. E quando voltei, não sabia mais falar de gaiolas, passarinhos... enfim, essas coisas. Falei de um vazio no peito, um peso na alma, as diatribes do amor. Confiava no meu irmão porque saber é também dizer que não sabe. E quando o assunto pesava, ele simplesmente dizia que não sabia. “O que é o amor? olha, sobre isso eu não sei dizer muita coisa". Quando fazia isso era como se me respondesse tintim por tintim tudo sobre o que eu havia mencionado. Então, ele olhava para as paredes do quarto como se procurasse uma saída. Depois de um tempo, quero dizer, alguns anos, ficamos mudos, longe um do outro. Então, voltamos a nos falar. O tempo com sua gravata borboleta, seu passo elegante e b...