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Mostrando postagens de dezembro, 2025

a natureza das coisas

Quem sabe quando é o fim? Quando percebemos a linha divisória entre o ficar e o partir? Será que é quando o beijo se torna apenas toque e o som do estalo dos lábios não mais contém o nosso nome? Será que é quando as mãos não sentem a necessidade das mãos ou quando ficar torna-se mais penoso do que partir? Quem sabe quando é o fim? Quando notamos o céu a fechar-se e os pés a inquietarem-se no lugar onde antes encontravam firmeza? Será que é quando o silêncio deixa de ser uma conversa sem palavras e pesa feito as asas de um pássaro sob a chuva? Será? Será que é quando os olhos não mais sentem a necessidade dos olhos ou quando ficar revela-se mais incerto do que partir? Quem sabe? Vamos, diga-me. Isso vem como um sinal vermelho, o final de uma estrada, a morosidade dos calendários, ou o pó sobre os móveis? Vem quando os corpos já não querem arriscar uma dança, as línguas mofam nas bocas ou quando murcha a última flor no jardim? Quando? Quando? Tentamos ainda cantar as nossas músicas e err...

sem reservas

Tenho fascínio pelo mundo da culinária. Quando vejo alguém preparando uma iguaria, um chef começa a brotar em mim. Mas, infelizmente, nunca viceja. Fica apenas apreciando, ou quando muito, arriscando pratos mais simples. É uma balela achar que podemos ser tudo que queremos. Há vezes em que até somos o que não queremos. A vida é como um navio: na tripulação, cada pessoa precisa assumir uma função específica. Se todos fossem o capitão, o navio não sairia do cais. É o que penso. Impossibilidades à parte, delicio-me com o bife dourando na frigideira, com o cheiro das verduras, dos legumes e frutas, com o coentro grudando nos meus dedos quando o corto. Gosto de usar as especiarias e os temperos, de dosar cada coisa para não ofuscar o gosto original do alimento. “Culinária é uma questão de equilíbrio”, disse um amigo, também apaixonado pela arte de cozinhar. “Se usamos muito limão num peixe, comemos limão, não, pescado”. Minha mãe também cozinhava. Aprendi algumas coisas com ela. Na arte da ...

não me faz falta

Até pouco tempo, não tinha telefone, digo, celular, e tudo bem. Nasci com ele? Nasci com pernas, braços, mãos, cabeça. Disso sim, preciso. As pernas para seguir, mesmo sem saber para onde, como sempre, os braços para encostar-me em algo, numa tarde modorrenta, e contemplar o nada, as mãos para guardar teus beijos em concha, a cabeça para perdê-la, vez ou outra: isto a que chamo o sentido da vida. O que se mostra sem que estejamos à procura. Necessito disso, sim. Telefone para quê? Porém, recentemente, comprei um. Não porque acho que preciso dele – aliás, não gosto de telefone. Já explico – mas porque minha companheira, a toda hora, dizia-me: compra um, compra um, compra um. E para que ela parasse de me dizer: compra um, compra um, eu o comprei. Pronto. Simples assim. Ele não faz ruído algum – eu não deixo - nem mesmo vibra. Fica sobre a escrivaninha, mudo, a me contemplar impassivo. Meus compromissos estão na minha cabeça – ainda uso relógio de pulso – e não tomo remédio para nada. De...

escrito num sopro

Viver é isto, estar aqui, aqui, sem vontade de mudar nada, apenas estar. E sentir os pés no chão, sentir o toque das mãos, a mão de um amigo que está aqui, e toca a tua mão não como a pedir apoio, não como a pedir algo, mas apenas para dizer que está aqui. Aqui, estou, digo para mim mesmo. E tudo está como deve ser. Sigo a avenida que não me pede nada, apenas está e é. Os ônibus passam por mim feito os dias nos calendários. Vão e vêm como ponteiros nos relógios. Viver é ver tudo isto. Seguir com as mãos nos bolsos não como uma resignação, não como ceder o pescoço ao algoz, mas sim, como uma sabedoria, uma certeza de não ter uma missão, apenas uma vida a ser vivida. Sem fracassos e sem vitórias, só a vida só. Hoje estive com amigos, pude sentir o coração deles batendo no meu. E eles me disseram tantas coisas, foram tantos encontros, foram tantos desencontros, mas estamos aqui, resistimos, sobrevivemos. Sim, alguns estão mais velhos, alguns perderam coisas, pessoas importantes, mas perma...

não gosto do Natal

Não gosto do Natal. Lamento se faço chover no piquenique dos contentes. Gostaria de dizer o contrário, mas não seria justo comigo. Respeito àqueles, àquelas que gostam. E tudo bem. Afinal de contas, é mesmo como dizia o meu pai: “cada santo com o seu milagre”. Não compartilho também com o que se costuma chamar de o espírito natalino. Santo Deus. Compra-se isso em alguma loja? A coisa é, penso, como uma película que durante os dias supostamente, alegres do final de ano, revestimos o nosso caráter para atenuar a aspereza. E, depois que passam as festas, com um sorriso ferino, tiramos a película, e voltamos ao ponto primordial, ou seja: nós mesmos. E pra piorar, não gosto também do Papai-Noel. Posso confiar em alguém que já nasceu velho? Alguém aí tem uma foto dele ainda em fraldas? Não tem, posso apostar. Ora, colocamos travas nas portas, fechaduras eletrônicas, senhas e tudo mais, e de repente, este velhinho com cara de bebum, com carta-branca sei lá de quem, invade a nossa casa a arras...

a boneca massacrada pelas mãos da vida que não sabe brincar

A primeira vez que a vi, estava ao balcão, tomando sua cervejinha de guerra. Tão franzina, tão miúda que, sentada no banco alto, suas pernas ficavam balançando como as de um enforcado. Sessenta? sessenta e cinco? Talvez mais. Uma senhorinha. Remetia-me a uma boneca massacrada pelas mãos da vida que não sabe brincar. Carregava, era o que parecia, uma tristeza profunda que me partia o coração. Até dava vontade de lhe oferecer uma mão para ajudar a suportar aquela tristeza, assim como auxiliamos alguém a carregar um pacote muito pesado até que chegue a casa. Sempre que me via, num sorriso que mais parecia uma fisgada, perguntava-me: “e aí, professor, já começaram as aulas? Ou “e aí, professor, já terminaram as aulas?” Só isso. Depois, falava com um, com outro, ia ao banheiro, voltava, acomodava-se novamente, ao balcão e bicava a sua cerveja de guerra. Olhando-a assim, ela de costas, fazia-me também pensar numa criança velha, longe dos pais, perdida entre os adultos. Todos os dias, quando ...

ai, meu santinho!

Eu tenho fé, mas se assim posso dizer, ela vibra numa corda muito particular. Acredito na beleza oculta das coisas simples. Mais ou menos como o delicado e imperceptível fio que alinhava as contas num colar. O trabalho silencioso e necessário das sementes, por exemplo. A sua relação com a terra. Como também a ordem obstinada das células, os milhões de espécies no mundo, cada uma com perfil e função específicos, objetivos únicos. No entanto, é o que parece, todas convergindo para um único ponto, um só centro, feito os cavalinhos no carrossel. Mas quando falo da fé na beleza oculta das coisas simples, refiro-me mesmo às coisas ainda mais simples. Por exemplo, não acredito em santos, mas consigo acreditar na imagem de um santo. Sobretudo se ela foi feita por um senhorzinho que quando se sentava para trabalhar uma dessas imagens, convertia-se, ele mesmo, num santo. Observava-o ali, em sua roupa rota, sob a luz trêmula de uma lamparina improvisada. Via seus movimentos precisos. Ele ali, usa...

ad infinitum

São várias as angústias. A primeira é se vou escrever o texto exatamente como eu o concebo. A mente é sempre mais ardilosa do que as mãos. E acredito, até que me provem o contrário, na independência desses dois mecanismos. Então, depois de escrito aquilo que pretendia, ou acho que pretendia, por fim, digo: ainda não é, não é. Então, vem a segunda angústia: trabalhar aquilo na página – digo aquilo porque ainda não estou certo de que o que escrevi é mesmo um texto – trabalhar para tirar o Davi da peça de mármore. Usar o martelo e o cinzel, devagar, bem devagar como quem lida com uma bomba. Michelangelo dizia: o Davi tá ali, é só aparar as arestas. Coisa difícil, muito difícil, dado que corre-se o risco de furar o olho do menino, já que Michelangelo só tem um. Mas a coisa vai. E ainda, não é, não é. Mas vai. É preciso se contentar com o que se apresenta, não há muita saída. De uma certa forma, aquilo – ainda aquilo? – sou eu. E a coisa vai, e vamos. Depois de um grande esforço, um sol, m...

lista de saudades

Por esses dias, senti vontade de catalogar as minhas saudades. Não sei para quê, mas senti. Apenas escrevê-las, umas sobre as outras, como fazemos com as listas de compras. No primeiro momento, apenas uma página em branco. Olhei para um lado, para o outro, fechei os olhos, abri-os e ainda a página em branco. Lidar com saudades é coisa delicada. Precisamos respirar fundo e esperar, então, elas pousam, como assim fazem os passarinhos. Pousam nos fios da nossa tênue lembrança. Do que tenho saudade? Diga lá, túnel do meu tempo. Ah, café com leite, bem quente, eu diante da Colorado RQ, numa ociosidade livre, sem culpas, esparramado no sofá a assistir a Chaparral, Bonanza, Tarzan, Daktari: o leão vesgo, Lassie, Daniel Boone, e tantos, tantos outros. Subir na goiabeira para fugir do mundo. Ah, comer alfenim feitos pelas minhas tias, as bolachas de rapadura preparadas pela minha vó. Bom mesmo nem eram as bolachas, mas sim o beijo na nossa cabeça, o cheiro das mãos dela, de alfazema. Medo de qu...

e que assim seja!

Estive pensando. Sei que não nos ensinam, mas quando mesmo aprendemos a namorar? O fato é que na adolescência passamos um tempão a olhar para as meninas que não nos olham. Parecemos pedintes, com a cuia dos nossos olhos, a mendigar belezas. Elas ali, lindas, em movimentos de trapezistas, de bailarinas, de ginastas, sei lá, rodando no bambolê a nos deixar tontos. Elas ali, deus, dando pulinhos nas amarelinhas riscadas com giz roubado dos professores. Danadas. Olhando-as em seus saltinhos penso que se pegarem ar voltam é para o lugar de onde vieram: a morada dos anjos. Nas festas ficamos pra lá e pra cá a mostrar o que não temos: não temos história, não temos emprego, não temos futuro, não temos nada, a não ser um rosto repleto de espinhas e que procuramos escondê-lo como um larápio esconde seus saques. Quando nos cansamos dessa semeadura sem frutos, desse ir e vir a mostrar o que não temos, encostamo-nos à parede a observá-las, ali, soberbas, conscientes de suas belezas, a nos rejeitar...

e não de outra maneira

Quando encontro um grande autor – são raros. É o mesmo que encontrar rastro de Pégasus. E eles existem – leio-o com olhos de ourives. Piso leve como se num campo minado, como se numa igreja escura com receio de despertar os santos e suas súplicas milenares. Quando me deparo com um autor imenso – são únicos. É o mesmo que se deparar com a sarça ardente. E ela queima – escuto-o com ouvidos de um deficiente visual. Apuro-os como um indígena a ouvir o coração lamentoso da terra, como um gato a captar passinhos ligeiros por entre os móveis no escuro da casa. Sei que há algo ali, logo nas primeiras páginas. Um livro que começa bem, dificilmente, terminará ruim. Acredito nisso, e vou. O estilo? Não ligo. Quero a voz, a voz de um enterrado vivo, a voz de alguém perdido numa noite fria. As frases bem construídas? As palavras bem escolhidas? Não dou a mínima. As livrarias estão cheias disso. Experimente, vamos, abra um livro qualquer por ali, logo nas primeirs gôndolas e verá o autor tentando ar...