Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de março, 2025

nunca

a palavra morte antes da morte ainda não é a morte veja quando perdemos aqueles que amamos, e continuamos a perder, quando os anos armam seus impérios na indefesa geografia do nosso corpo,            então, a morte deixa de ser uma palavra e torna-se morte  em si:  comum, íntima, porém, incômoda o tempo passa e vão morrendo tantos que ela torna-se uma segunda sombra a nos acompanhar na caminhada involuntária no curso, deixamos de falar nela, talvez, pelo cansaço do seu joguete depois, já não sabemos mais o que é a palavra morte nem o que é a morte converteu-se em algo entre? de repente, então, estamos diante da coisa que É coisa sobre a qual tanto falamos e que achávamos que mataria apenas e somente os outros, só os outros. ali, ela é nossa, só nossa ali, somos dela, só dela e por mais familiarizados à danada - que seja - não a aceitamos, não e é certo que nunca a aceitaremos me...

quase

hoje, conheço mais as fotos que as pessoas reais a mala está cheia de experiência, mas ficou muito pesada não consigo                      a       r        r       a      s      t      á       -      la                   tenho muitos outros sonhos, mas ficam para outra                                                              ...

marco zero

São Paulo tem o som da colher de pau batendo na borda da panela do arroz - tem cheiro de arroz - Tem o arrastar manco e quase cego dentro de um apartamento de 40 metros quadrados cheirando a cigarro com vista para uma rua sem saída Nenhuma estrela neste teto encardido que costumamos chamar de céu Numa cama improvisada  - dessas que desmontamos logo nas primeiras luzes do dia e  dobramos tudo com bons modos e boas intenções - eu deitava a cabeça era um ritual manso numa mescla de coragem e luto coragem juvenil luto geográfico Aos domingos, havia algumas cervejas e tremoços em algum boteco  com homens tristes e meninos correndo atrás do nada - a tarde fria como uma piscadela do futuro - Meu medo aumentava na proporção que o cheiro do sabão de casa ia  sumindo das minhas roupas, da minha mala, da minha vida - A saudade tem cheiro peculiar - Mesmo depois de muitos anos, ainda ouço as pancadas da colher de pau e  ainda procuro estrelas onde não há - é o mesmo céu - M...

tiro

  quando um amigo se mata não é o tiro que conta nem o susto a manhã perplexa o rito quando um amigo se vai não é o vazio que rói nem a náusea a avalanche de porquês o grito o que conta, rói mata - mais do que matou o amigo - é não ter chegado antes do TIRO

tudo, menos poema

o poema precisa deixar de ser poema - qualquer coisa, menos poema - precisa tirar esta casaca puída e e andar nu feito um hominídeo o poema precisa deitar a pena e escrever na pedra - ser fóssil, não poema – precisa afrouxar a gravata e deixar tudo para trás o poema precisa vir ao papel como o seu criador veio ao mundo depois sentar-se num banco de praça e, perplexo, contemplar a vida

baile de máscaras

não é que eu seja antissocial sou apenas esta hera presa no muro a lágrima que não cai nem volta para os olhos esta silhueta alugada sou um velho há pouco tempo um adolescente desde que nasci e quando isso aconteceu, não chorei fiz o som de uma guitarra distorcida não é que eu seja antissocial sou só este sol a volta dos que não foram esta sombra emprestada sou um adolescente há muito tempo um velho desde que morri e quando isso aconteceu, não sorri plagiei na minha lápide as palavras do epitáfio do Bukowski: “don't try” não é que eu seja antissocial é que o mundo não anda nada sociável e por isso, prefiro esta cabana que fiz no quintal, e que há muito não me cabe, a este baile de máscaras entende?

o salto

nosso amor não é o mesmo há algo no lugar como um calço na perna de uma mesa a mesa que já não é mais mesa como você não é a mesma nem eu - mas, afinal, quem somos? - ainda quero aquela da foto com o sorriso que eu desconhecia e sei que você quer aquele da foto com a timidez que você gostava queremos outros nós beijo a boca que não me beija assim como os relógios não marcam o tempo mas apenas fazem tique-taque toco a mão que não me toca como a sombra das nuvens sobre o lago danço a tua dança que não dança feito um espantalho jogado pelo vento te olho como quem espreita uma fuga e você me olha assim do bunker-você tua companhia me acompanha de forma protocolar assim como um guia ao seu cego - mas, afinal, quem leva quem? - ah, minhas palavras nada mais te dizem não mais, não mais talvez, sim, talvez seja hora do nosso grande salto o difícil e definitivo aquele no qual a solidão dói como um corte profundo de navalha aquele que sozinhos ...

marco zero

São Paulo tem o som da colher de pau batendo na borda da panela do arroz - tem cheiro de arroz - Tem o arrastar manco e quase cego dentro de um apartamento de 40 metros quadrados cheirando a cigarro com vista para uma rua sem saída Nenhuma estrela neste teto encardido que costumamos chamar de céu Numa cama improvisada - dessas que desmontamos logo nas primeiras luzes do dia e dobramos tudo com bons modos e boas intenções - eu deitava a cabeça era um ritual manso numa mescla de coragem e luto coragem juvenil luto geográfico Aos domingos, havia algumas cervejas e tremoços em algum boteco com homens tristes e meninos correndo atrás do nada - a tarde fria como uma piscadela do futuro - Meu medo aumentava na proporção que o cheiro do sabão de casa ia sumindo das minhas roupas, da minha mala, da minha vida - A saudade tem cheiro peculiar - Mesmo depois de muitos anos, ainda ouço as pancadas da colher de pau e ainda procuro estrelas onde não há - é o mesmo cé...

nenhum verso

feito um noia de pés titubeantes, com mãos imprecisas, percorro versos & versos vou num zigue-zague de incertezas             sob o efeito que já finda de um provável poema penso numa nova dose na veia da página em branco como um noia, falo alto, e tenho lá os meus fantasmas também vejo coisas, pessoas ora, uma réstia de sol pode ser uma fuga, um salto, um grito o começo ou o fim do mundo de tanto buscar, procurar o meio, a língua, o jeito, a mão, assim, como um noia busca o voo sobre as copas das árvores, a sarça ardente e as tabuletas da felicidade levanto-me e me percebo em frangalhos, cabelos arrepiados chinelos trocados, olhos fundos, pernas bambas,             ainda por cima, as hienas das horas, sem pena, abocanhando o meu ventre, enquanto, é o que acho, pois,             meus ouvidos ainda sondam mares longínquos,             balbucio:      “...

até onde tudo É

quero mesmo é desaniversariar os dias, os meses e os anos feito folhas ao vento descalendarizando eu desconvidaria, desbrindaria, descomemoraria descantaria um desparabéns pra você deschoraria meu choro primevo & voltaria para a nave mãe-filho e assim, desnasceria numa contracontagem - descontagem é melhor - -00 -001-002..... até onde tudo É

livro de amigo

Recebi o livro de um amigo e disse o que tinha de dizer. Num pediu? Não, não tem essa coisa de bola na quarta, cerveja na sexta, padrinho de batismo, casamento, o caraca. Literatura é uma coisa, amizade é outra. Disse que disse. Falei que escrever não é imprimir diatribes, baboseiras, delirios. Isso qualquer um faz. Nao, escrever não é isso. Como diz Drummond em um de seus poemas: "não, ainda não é isso". Descubra o que é escrever, vá. Falei que o condimento estragou o feijão. Folha de louro demais, entende? Gelo no vinho. Orra! Mais vaidade que verdade. Verdade nenhuma, vaidade demais, uma fogueira imensa. Falei mesmo. Falei, falo, e falarei, meu caro. Já num disse que não recebo livros de amigos? ainda mais desse tipo. Não, num tem essa coisa de pancadinha no ombro, papeado na calçada, churrasco, nada disso. Literatura é coisa séria. Por aí tá cheio de nepotismo que eu abomino. Orelhas melífluas, prefácios suspeitos, quarta capa pingando loas & boas, nada com nada. Já p...