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Mostrando postagens de maio, 2023

Dia do Trabalho

Cá estou em meu merecido descanso no Dia do Trabalho. Tenho receio que inventem o Dia do Descanso e eu tenha de trabalhar. Estou pensando nas profissões que já exerci. Porque é isso que essas datas fazem com a gente, seja o Natal, o Dia das Mães, dos Pais...: nos põem a fazer cálculos. Nisso, vi que trabalho desde os meus quatorze anos. Tanto tempo já se passou e ainda sinto o cheiro daquela fábrica fria. Se eu fechar os olhos agora, acho que ainda ouço o matraqueado daquelas máquinas assustadoras. Todas elas engolindo as nossas forças e os nossos sonhos e devolvendo um produto qualquer. Sêneca disse que quem ganha dinheiro fazendo aquilo que gosta não trabalha. São boas as intenções do filósofo de Córdoba, sim, mas me pergunto quantos podem se dar a esse luxo? A maioria, sabemos, é arrebatada da cama, todos os dias e muito cedo, para se prender a uma tábua de salvação para não ir para o fundo de vez. Penso num mundo utópico, o dia em que todos farão apenas o que gostam. Mas, esqueça i...

Strip-tease literário

Escrever crônicas é de alguma forma se expor. Quando escrevemos contos ou romances nos revelamos em parte. Neles há um narrador, que não necessariamente, é o autor. Tá, mas tem essa coisa de madame Bovary c’est moi, não? Sim, mas é verdade também que Flaubert não era pueril, nem gostava de romances água-com-açúcar, muito menos morreu muito jovem e de boca aberta, numa cama velha, sob os cuidados de um marido traído. Talvez o autor francês tenha dito isso para desconversar, assim, como Faulkner afirmou que fazia apenas por dinheiro quando foi questionado sobre o que o motivava a escrever. É evidente que o cronista também inventa. Afinal, ele não é de todo besta. Não acredito piamente em tudo que disse Rubem Braga, mas não posso afirmar que ele não gostava de passarinhos. Ora, ele diz isso em pelo menos metade de suas crônicas. Seria desnecessário dizer e dizer e dizer, não? Alguém disse uma vez que se uma narrativa começa com alguém pendurando uma arma na parede, uma hora ele vai ter de...

Bem devagar, num divagar

Devagar, isso, bem devagar leia um bom livro, num divagar devagar, no seu tempo. Essa coisa de curso para ler mais rápido é balela, onda, falta do que fazer, do que dizer, vazio. Não lemos quantidade, lemos qualidade. Quando vejo esses cursos não sei se rio, se choro ou se esmurro o carinha. Leia um bom livro como um carro velho subindo ou descendo a ladeira. E aprecie quando estiver subindo, quando estiver descendo. Veja, observe, vivencie, guarde, sinta. Leve o livro pra passear, pra tomar um café, conviva com ele, risque nele, torne-o seu, exagere na marginalia, envelheça com o livro. Leia as histórias ali, em seu livro, mas também conte algumas para ele. Mortimer J. Adler, um educador, dizia que bom mesmo era ler um mesmo livro (um bom) três vezes: uma para conhecer, outra para apreender, e a terceira para refutar o autor. Se for o caso. Leia de boa seu livro. Faça isso, e bem devagar, devagar como quem come uma iguaria rara, como quem dorme num beijo, como quem pisa um solo virgem...

Questões intrigantes

O Universo ter sido criado do Nada que não é nada, Tesla ter subtraído energia do Vazio que não é vazio, a desfragmentação de algo mínimo, invisível como o átomo para se criar algo gigantesco e mortal como uma bomba, o brilho das estrelas que sobrevive as suas mortes, a existência de um buraco negro bem no meio da Via-Láctea, mas que não a devora, mas sim, a sustenta, a curvatura do espaço, os buracos de minhoca, os multiversos, o Big Bang. Essas e mais algumas tantas questões sempre me intrigaram, mas nada para me intrigar mais do que os sonhos. Não exatamente aquele, ou aqueles que sonhamos à noite, em nossa cama, num sono de oito horas ou mais. Falo daqueles sonhos que temos, quando muito cansados, dormimos no ônibus, na sala de espera de um dentista, de um médico, ou mesmo no sofá da sala. E o que mais me intriga neles, nem são as inúmeras questões que já me fiz: quem escreve os roteiros, os diálogos, as tramas, os plots e subplots, quem faz as trilhas sonoras, quem constrói os pe...

As lojinhas de consertos

Sou do tipo saudosista. Tenho saudade até do que não existiu. Ora, eu invento-o. Naqueles tempos, eu dizia: “Mãe, a senhora viu aquele meu casaco de lona, de botões dourados, com vários bolsos?”. No que ela respondia: “Você nunca teve esse casaco”. Eu não estava nem aí para a roupa. O que eu queria mesmo era sentir saudade. Porque o saudosista é uma verdadeira máquina de fazer saudade. Se eu escrevesse aqui todas as coisas das quais sinto saudade, elas tomariam todo o espaço que tenho para escrever a minha crônica e, de quebra, o texto ficaria sacal, se é que já não está. Bom, para citar apenas uma delas, por esses dias, lembrei-me das lojinhas de consertos. Antigamente as coisas eram feitas pra durar. E pra dar ainda mais vida a elas, em pouco tempo, os donos dessas lojinhas de suporte aprendiam como funcionava determinado eletrodoméstico recém-lançado, ou qualquer uma das gerigonças que os americanos estavam vendendo a rodo para o mundo todo. Houve uma época em que se consertava tudo...