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Mostrando postagens de fevereiro, 2025

na Martins

há muito eu passava na Martins, comprava um livro, depois ia ao Domínio, pedia uma cerveja. Não, não pedia. O Márcio que trabalhava lá e me conhecia me trazia a cerveja como uma mãe oferece o seio ao seu filho. Eu, depois de um gole, esticava as pernas, olhava a Paulista e abria o livro como quem conquista um país. Faz tanto tempo. Ela ainda estava aqui dentro feito um pássaro num ninho e eu estava em mim como um chapéu na cabeça que já não se podia dizer o que era cabeça e chapéu. foi tudo antes de me perder. Antes do fim do mundo antes do antes. Foi quando todos se foram e eu me fui o Domínio está lá, a Paulista também. Eu, ela, nós é que não estamos mais. Estamos, mas não estamos como um busto de um tempo que se foi

um dia

há tempos não escrevo, como se há tempos não andasse, não falasse, não vivesse. Nesse mar profundo que escapamos a braçadas, estou afundando. Há tempos não quero fuçar gavetas, nem visitar casas, lembrar nomes, nada. Tenho lido muita coisa que nada diz das coisas. Há tantas coisas sem nada dentro e por isso me pergunto por que mais coisas. Sem escrever, sem escrever. nenhum novo amor veio me bater à porta numa noite fria, nem um grande amigo voltou depois de mais uma guerra perdida. Uma carta, sequer, da minha mãe, que estava nalguma mala velha há muito perdida nos porões das nossas vidas. Não escrevo, não escrevo. Não invento, não invento. Poderia, mas não. Apenas conto enviesado aquilo que vivi na pele. Conto aquilo que me trai a memoria. Conto no ritmo do balanço velho da velha mangueira no velho quintal onde minha solidão era mais presente que as equações que nunca fechavam, na escola Oh, os meus pombos, eu pedia sempre: vão embora, vão embora, mas eles voltavam como um exército ve...

quem sabe

nosso amor não é o mesmo há algo no lugar como um calço na perna de uma mesa a mesa que já não é mais mesa como você não é a mesma e eu não sou o mesmo - afinal, quem somos? - ainda quero aquela da foto com o sorriso que eu desconhecia e sei que você quer aquele da foto com a timidez que você gostava queremos outros nós beijo a boca que não me beija assim como os relógios não marcam o tempo mas apenas fazem tique-taque toco a mão que não me toca como a sombra das nuvens sobre o lago danço a tua dança que não dança feito um espantalho jogado pelo vento te olho como quem espreita uma fuga e você me olha assim do bunker-você tua companhia me acompanha de forma protocolar assim como um guia ao seu cego - quem leva quem? - ah, minhas palavras nada mais te dizem não mais, não mais talvez, sim, talvez seja hora do nosso grande salto o difícil e definitivo aquele no qual a solidão doi como um corte profundo de navalha aquele que sozinhos somos mais so...

trela

não dou trela a poeta que baba poeta essa coisa de acariciar o umbigo dos poemas alheios poeta que depois de crescido mama na teta de poeta é um pateta - e são os frutos das árvores uma gratidão à terra que as raízes violam? - poeta que é poeta não tem pai, mãe nem papas na língua quando muito, um terapeuta.

o vício

O vício não guarda o carro na garagem, não dobra as roupas no armário. O vício não dar as mãos, não caminha no parque, nao leva o cachorro pra passear. , oh, vi com esses olhos que gostaria que não fossem meus, olhos que eu queria mesmo que a terra os tivesse comido como o vício come mais que a terra come os olhos. oh como vi um tio acendendo um cigarro no outro como se tivesse medo do escuro ou como se tivesse entrado num ad infinitum de si mesmo num desespero de incendiário o vício quer as mãos, os lábios, o corpo, a alma o vício quer o vício não chuta a bola para o gol, não guarda os sapatos juntinhos sob a cama. O vício não cede o banco aos mais velhos, não marca a página antes de fechar o livro, não pensa no futuro. oh, senti com esses sentidos que eu gostaria que não fossem meus, sentidos que eu queria mesmo que o vento os tivesse levado como o vício leva mais do que eu os posso levar. ô como senti um amigo apagando a vida como se apaga um fósforo como se tives...

a sombra do meu chapéu

gosto de São Paulo tenho mesmo por ela uma obsessão oswaldiana, andradina não sou paulistano ganhei São Paulo no cansaço vivo aqui há 30 anos mais... não tenho investimentos na Faria Limer mas tenho o corpo enterrado no Paissandu Já comi no Arno, no Fasano, no Ça Vá mas ainda prefiro o pf do boteco que frequento há séculos ser imenso é quando pouco preenche tudo feito um homem dormindo feliz sob a sombra do seu chapéu com um palito estropiado prestes a cair dos lábios

são paulo

são paulo era terra da garoa agora chove que nem menino chorão chove como nunca chorou é difícil dizer que é a pauliceia desvairada de mário nem os condenados, de oswald enfraqueceu com o coração de Oswald morreu de infarto, aos 51 anos, com o poeta da lopes chaves são paulo que não quer mais escrever versos em rimas de garoa na métrica malemolente da faixa de pedestres santo paulo agora só pensa em empreendedorismo e chuvas e chuvas