Ocupo um pequeno espaço no tempo. Sou a medida dos meus sonhos. Seguro-os como, com cordões, prendia as minhas pipas. Sonhamos, e por mais que sejam sonhos, os controlamos. Vivo no pequeno quadrado que é a vida que me cabe. Sou como o estudante correndo no recreio antes da sineta. Correndo de si mesmo. E assim vai correr toda a vida. os sonhos, assim, como os estilingues, perdem a elasticidade. Sempre digo que os sonhos envelhecem, sim. Se uma tulipa envelhece, se uma fruta apodrece por que não os sonhos? Dizer que os sonhos não envelhecem é como afirmar que a minha vó encontra-se na calçada a balançar-se em sua cadeira e a fumar o seu cachimbo. Apegar-se aos sonhos pálidos é como os casais que passam tempo demais juntos e já não sabem mais qual o grau de parentesco que os enlaça. Ocupo um pequeno espaço no tempo e este espaço não é meu. Nem os mortos são donos do chão onde fingem dormir. Então, vou pisando feito um dançarino que ensaia um espetáculo que não vai acontecer. Sou tão ingê...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa