Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de maio, 2025

um pequeno espaço

Ocupo um pequeno espaço no tempo. Sou a medida dos meus sonhos. Seguro-os como, com cordões, prendia as minhas pipas. Sonhamos, e por mais que sejam sonhos, os controlamos. Vivo no pequeno quadrado que é a vida que me cabe. Sou como o estudante correndo no recreio antes da sineta. Correndo de si mesmo. E assim vai correr toda a vida. os sonhos, assim, como os estilingues, perdem a elasticidade. Sempre digo que os sonhos envelhecem, sim. Se uma tulipa envelhece, se uma fruta apodrece por que não os sonhos? Dizer que os sonhos não envelhecem é como afirmar que a minha vó encontra-se na calçada a balançar-se em sua cadeira e a fumar o seu cachimbo. Apegar-se aos sonhos pálidos é como os casais que passam tempo demais juntos e já não sabem mais qual o grau de parentesco que os enlaça. Ocupo um pequeno espaço no tempo e este espaço não é meu. Nem os mortos são donos do chão onde fingem dormir. Então, vou pisando feito um dançarino que ensaia um espetáculo que não vai acontecer. Sou tão ingê...

aquele sorriso

Passou toda a vida procurando que acabou esquecendo o que procurava. Antes perguntava, mostrava as fotos, voltava a perguntar, nada. Depois, passou a caminhar pelas ruas, de forma aleatória, a coçar a cabeça, a olhar longe, a mão feito pala na testa para barrar o sol inclemente: a procurar, a procurar. O que exatamente? ela poderia se perguntar naqueles últimos tempos. Quem a conheceu antes, jamais diria que aquela mulher maltrapilha, desdentada, malcheirosa, de pés descalços e andar desengonçado era a mesma que um dia caminhou pelas ruas e praças, sempre muito bem vestida, elegante, cheirando a perfume bom. Dizíamos que ao caminhar deixava atrás de si uma fragrância como se soltasse flores pelo caminho. Costumava, nas tardes de domingo, passear com a filha, uma menina sapeca que há pouco tempo aprendera a andar. A mãe, sorrindo, sentada num dos bancos da praça, observava a filha num cair e levantar-se. Depois, a menina, animada, vinha ao encontro da mãe, e nas mãos, trazia algo. Coisa...

é assim que oro

Oro ao senhor não para pedir nada. Oro como um trabalhador, depois de um dia duro, senta-se à sombra de um baobá e fuma o seu cigarrinho. Oro feito os meninos pequenos, correndo nus, a fugirem dos deuses imaginários nas suas brincadeiras em África. Sabe que nem sempre acreditei em ti, né? Sei que sabe. Tive meus dias e minhas noites de dúvidas. E o senhor na tua ausência, no teu silêncio, na tua distância, no teu longe. Diga-me, da altura da sua divindade, o que é o longe? Oro sim. Eis-me aqui, mas não de joelhos. E isso mudaria alguma coisa? Para que mais servidão, Pai? e já não existe demais? Olhe os olhos dos homens, observe o que eles fazem, a que ponto chegam para trazer comida para suas casas, para seus filhos, para sua mulher que espera mais um. Olhe. Sou um deles, Pai. Estou também em meio a este turbilhão. Agora, aqui, sinto este aperto como se me fossem puxar por dentro e me reduzir a um tiquinho de nada. E isso me desmantela os passos, me atordoa. Essa coisa não é sempre, ma...

lagartos, cobras, aranhas e britadeiras

Dizem que Barcelona é ruidosa. Não, estive lá e vi. Barcelona é festiva. A minha cidade, sim, é. Ruidosa no mais alto grau de insanidade. Estão sempre demolindo e construindo, ou apenas, destruindo. Nem bem iniciam a demolição de um prédio e já começam a vender os apartamentos como os vendedores de cemitérios vendendo túmulos. Pelo menos, no caso dos túmulos é muito provável que os mortos os ocupem um dia. Agora, sobre os apartamentos, como os coitados dos compradores sabem se estarão vivos quando os cubículos estiverem prontos? Bom, mas eu falava do barulho da minha cidade, esta que amo, apesar de tudo. Vivo aqui e pretendo que um dia as minhas cinzas se misturem ao gás carbônico das avenidas. Isso é uma coisa. Outra, são as construções, as reformas. Uma termina e outra começa, às vezes, vão as duas juntas, competindo entre elas qual faz mais barulho. É o que parece. Um inferno. Minha cidade, posso dizer, é a terra das britadeiras. Você não tem como fugir. Há muitas, por todos os luga...

a moça bonita e o seminarista

Depois de alguns anos, ele largou o seminário para se casar com uma moça bonita que morava na mesma rua que a minha. Quatro casas depois. Ele sofreu muito, pois era difícil, dizia ele, lidar com os dois lados da gangorra: de um deles, a vocação, o sonho do pai, da mãe, e o quanto a coisa do seminário já ia longe, do outro, aquela menina de sorriso largo, bochechas vermelhinhas e olhos ligeiros por quem ele estava apaixonado. “Meu doce”. Era assim que ele a chamava. Ela ria, rodava nas mãos os cabelos longos ameaçando um cocó, mas soltava-os logo em seguida, ainda rindo e se remexendo como quem não cabe em si, e ele: "meu doce, meu doce". Estava ainda pegando o jeito. Há muito não circulava pelas coisas mundanas. Então, ia devagar para não derrubar o andor. Todas as noites - e as tardes de domingo - ele caminhava alguns quilômetros só para vê-la. Ao sair de casa, pedia a bênção da mãe e do pai, espanava os cabelos do irmão mais novo e saía em seu andar duro e ligeiro. Assobiav...

num piscar de olhos

Foi como se eu fechasse os olhos um tiquinho e os abrisse logo em seguida e cá estou com a idade que tenho agora. Digo isso, porque quando fechei os olhos eu era ainda um menino de calções curtos costurados pela minha mãe, arrastava um carrinho de lata e com os olhos lânguidos - meu pai dizia que eram olhos de pidão - olhava os adultos de baixo para cima como quem contempla aviões. Vejo a coisa dessa forma porque foi tudo muito rápido. Sim, parece que foi ontem que me alegrava quando ia comprar o bolso do uniforme. Era um retalho de nada com o nome da escola ainda cheirando à tinta. Minha mãe costurava aquilo na minha camisa e eu me sentia ainda mais estudante. Depois, a diretora, com olhos de águia, ia verificar se todos os alunos, em forma no pátio, estavam com o bolso. Caso contrário, saiam da formação puxados pela orelha: e o bolso, hein? e o bolso, hein? Nas minhas mãos ainda está o pó das pedras que eu atirava nas mangas, lá no sítio do seu Mané. E trago, entre os dentes, os fios...

flor negra

a minha língua na tua pele de ébano na tua boca é você ou a noite que se contorce? teus olhos antes tão decididos agora pedem asilo e tenho tão poucos braços mas te concebo, te sinto lá onde principia o mundo onde me ergo feito um anjo de uma queda teu queixo em meu ombro trepida feito a existência tudo trepida, até as luzes lá fora agora esta onda que se eleva esta falange que marcha revoadas de pássaros famintos este silêncio que antecede a nossa hecatombe logo, então, seremos dois corpos sob a lua esta, que desliza na noite feito a minha língua na tua pele de ébano

o fino fio do amor

Dizem que uma pessoa tem pelo menos seis sonhos durante uma noite, e que se ficássemos sem sonhar, morreríamos, como assim acontece se permanecermos muitos dias sem dormir. O fato é que há tempos não me lembrava nada dos meus sonhos, e os livros explicam tudo, menos o porquê de uma pessoa permanecer anos a fio sem lembrar-se do que sonhou. Li toda a obra d'Os Sonhos de Freud, e nada encontrei sobre essa parte. Bom, isso pra dizer que por esses dias sonhei e lembrei-me de tudo no dia seguinte como alguém que assiste a um filme no dia anterior e pela manhã, no café, conta para alguém. Sonhei que quando as pessoas morriam todas as suas coisas morriam logo em seguida. Desapareciam aos poucos como assim desaparecem as formas nas nuvens. Uma velhinha morreu e logo sumiu a sua cadeira de balanço, suas roupas nos varais, as velhas panelas de fundo preto, seu vira-lata, seu cachimbo e por fim, sua casa com tudo dentro. Os parentes agarravam-se às coisas feito náufragos nos restos de um velh...

fronteiras do ilimitado

Não aprendemos a escrever livros. Aprendemos, quando muito, a escrever determinado livro. Aquele que estamos trabalhando no momento. Cada texto é um texto, com seus caminhos, possibilidades, demandas. E são iguais os filhos de uma mesma mãe? E são iguais os galhos de uma mesma árvore? as ruas de uma mesma cidade? A cada livro vou apalpando feito alguém dentro de uma loja de cristais numa completa escuridão. Escolher palavras - esta sim, aquela não - é mesmo como tocar cristais. Nessa escuridão, vez em quando, iluminada por um farol, conseguimos uma frase que valeu o esforço. Porque é isso mesmo, um esforço. Vamos empilhando páginas e páginas assim como um trabalhador das docas empilha sacas e mais sacas. Por que então permanecemos escrevendo? há muitas e nenhuma resposta para isso. Pelo menos é assim que vejo. Faulkner disse que escrevia pra ganhar dinheiro. Claro que dizia isso para fugir de perguntas com possíveis respostas embaraçosas. Dostoiévski eu sei que escrevia para pagar cont...

tudo é motivo

A saudade se vale de tudo: um velho amigo que havíamos dado como morto e que nos liga numa noite de sábado, uma foto que encontramos na gaveta, ali, sob caixas de remédios vazias, canetas sem tinta, botões perdidos de suas casas, pilhas estouradas, balas melecadas e já sem gosto, clipes, tampas, cartões de natais e aniversários, entre outras tantas coisas. Eis a foto, e, com ela entre os dedos nos perguntamos: quem será este? perguntamos pois o tempo dá de nos pregar peças. Quer dizer, no curso da nossa vida, tornamo-nos mais parecidos com os outros membros da família do que com nós mesmos. Serão meus ou deles estes olhos tristes? e estas mãos de veias saltadas com pintinhas feito cagalhões de moscas? e estas rugas? A saudade é rasteira, entra pelas frestas feito o vento pelas venezianas. Alimenta-se daqueles que dela se alimentam: uma música, um cheiro, uma textura, uma voz, tudo isso, pode nos mergulhar num mar sinestésico. E essa viagem é uma elevação: encontramos todos ali reunidos...

nunca é, nunca é

Estava aqui pensando: os meus relacionamentos nunca acabaram em pizza. Quem dera se resumissem a intrigas de cartolas e que depois tudo fosse resolvido numa pizzaria qualquer. Nada. Meus namoros terminaram pra valer. E era sempre final de semana, e pra piorar, chovia. E havia uma dor sem nome e que não adiantava correr para a farmácia de plantão mais próxima porque, para isso, ainda não fabricaram remédio. Só o tempo, só o tempo. E este só vem quando bem quer. Mas outra coisa também é fato. Quando eu termino com alguém ou terminam comigo, voilà, depois de tudo, sigo em frente, nunca volto. Sem essa de mais uma chance. Por quê? Ora, não deu certo na primeira, por que daria na segunda? Não, sem mais. Contrariamente, a mulher de Ló – já cansei de pesquisar o nome dessa mulher – nunca olho para trás e sigo o impassível horizonte. A psicologia tá ai pra esclarecer – ou confundir – as coisas, né? mas, ainda aqui pensando com os meus botões, acho que essa minha resistência se deve a uma paixã...

são minhas estas lágrimas no teu rosto

Não há mais aquelas orgias verbais quando o mais importante não era o que tínhamos a dizer um ao outro, mas sim, olhar nos olhos, ouvir a voz, tocar-se vez em quando como a se certificar de que o outro é real e que estávamos mesmo ali num deleite enquanto o mundo se desfazia lá fora. A tua mão, como antes, já não vem ao encontro da minha como a buscar sustentação, abrigo. Agora, até que vem, mas não faz todo o percurso, desiste, para no meio do caminho feito um bichinho sem forças, ou um carro sem combustível numa solitária rodovia. Há pó nos móveis. Pó que tanto nos incomodava e que agora nos soterra, a nós e a nossa vida a dois que, é o que parece, logo será a um. Cada qual no seu cada caos. E depois, depois, e logo não saberei mais. Já não há mais velas nos nossos jantares que ainda persistem sei lá por quê. Logo não haverá mais pratos, talheres, mesa, cadeiras. Logo não estaremos aqui, a tentar superar este muro imenso de silêncio que, sorrateiramente, foi crescendo entre nós e que...

dias assim, assim

Se escrevo, fico mal, se não escrevo, sinto-me pior. Acaricio as teclas como a tentar decifrar um código secreto, como a burilar a vida para que se organize, tome tino, rumo. Qual região do meu ser o farol ilumina neste momento em que busco palavras como se procurasse a porta dos fundos? E não é a mesma coisa? Há este dia feito um velho leão marinho morrendo na praia. Há este frio sem cara de frio. O cinza do céu feito uma cortina fechada antes do primeiro ato de um drama. Vai ver todos os anjos agora estão inquietos nas coxias, nos camarins em suas peraltices celestes só esperando a hora. O bom dos anjos é que não precisam fazer o sexo de domingo nem almoçar com estranhos a digerir os ossos do silêncio, entre muitas outras coisas em dias assim, assim. Por isso procuro escrever. É como cavar a própria sepultura, sei bem. Há momentos em que atravessamos um dia, todo um deserto, mas não conseguimos cruzar uma hora, a nossa sala. Numas, cabemos no mundo todo, no cosmos, noutras não nos en...

a falange de Alexandre, o Grande

Estou há alguns dias sem fumar. Sinto-me como se o mundo estivesse sempre no amarelo do semáforo. Naquela sensação de que até posso ir, mas não devo. Minha rotina parece uma frase sem verbo e meus movimentos cobertos por uma película. Ando lidando com essa coisa como quem tenta comer um steak com hashis. Dizem que pior do que um não-fumante é um ex-fumante. Observar alguém, à mesa ao lado, acendendo um cigarro não é uma afronta à saúde, mas sim, à nossa força de vontade a se segurar pelas paredes feito uma inválida. Se alguém, num evento, pergunta: “fumante ou não fumante?” preciso de um tempo considerável. É como se nos tivessem perguntado por que o céu é azul, a noite é escura. É como se me chamassem de Carlos. Quem me conhece sabe que esse não é o meu nome. E quando a minha companheira ao lado, com maquiagem e cabelos de quatro horas, no mínimo, e ar de vitória alheia a duras penas, diz: “não-fumante, por favor”, então, entrego os pontos, e simplesmente, deixo-me levar assim como as...