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Mostrando postagens de março, 2026

realidade de mármore

faz tempo que não vou lá é tão solitário; a tarde ajoelha-se como em oração e não sei mais rezar perco sempre as palavras apesar do tanto para dizer faz tempo que não te visito é tão triste; as árvores encolhem-se feito mães que choram e nunca sei o que fazer perco sempre os sentidos apesar do muito que sinto eu, ali parado, ao teu lado, e tão longe de ti você, ali parado, ao meu lado, e tão longe de mim faz tempo que não te levo flores que não limpo o pó do teu silêncio que não recolho as folhas que murcham sobre a tua ausência prefiro o frio da distância ao gelo da realidade de mármore

calma, filho, vai dar certo, pode acreditar.

Sei, escrevo muito sobre a minha mãe. Falo tanto nela, né? Perdoem-me. É que toda vez que me sento para escrever parece que ela se senta ao meu lado e me diz “filho, estou aqui contigo!”. Que bom, mãe, que está comigo. Ando tão sozinho. Não, não sozinho de pessoas, tenho poucos amigos que enchem o mundo, mas é essa solidão que a gente carrega desde o nascimento, sabe? E que remédio? Permaneço e luto. É isso que faço, e contigo aqui, sentindo a tua respiração, sinto-me ainda filho. Tenho uma foto dela, da minha mãe, aqui na minha mesa. E sempre falo com ela. E acho que me responde, porque as coisas que eu digo não parecem vir apenas de mim. Ouço: “Calma, filho, vai dar certo, pode acreditar!”. Era isso que ela me dizia quando eu, ainda muito jovem – também quando eu estava mais velho, pois mães dizem isso desde que estamos na barriga delas, e pela vida toda - algo me afligia. Dizia com toda a convicção do mundo: “Calma, filho, vai dar certo, pode acreditar!". Oh santa sabedoria, a ...

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

Brenda é Brenda

Sou apaixonado por Brenda. Apaixonado que dói. Brenda em seu short branco, justo, e suas meias soquete brancas. Brenda ajeitando os óculos em seus olhinhos míopes. Ah, Brenda num traje de banho e com seu jeito muito particular de juntar os pezinhos no trampolim, pular na piscina, nadar, depois, agarrar-se na borda e olhar tudo em volta como se o mundo tivesse acabado de ser criado, partindo de uma piscina olímpica. Será que me vê? Eu, aqui, pertinho, ao seu lado? Será que ouve o meu coração disparado? Não tenho certeza. Mas quando vejo Brenda não é só meu coração que trepida. Em volta, tudo parece estremecer.   Brenda é Brenda. Nisso, Neil está certíssimo. Só ela tem as tiradas geniais das quais gosto muito. Por exemplo, quando ela brinca com a irmã mais nova, a Julie. Parece que as travessuras da irmãzinha Patimkin só encontram eco nas diatribes irônicas de Brenda. Acontece muito à mesa, às refeições - apesar das ásperas reprimendas da sra. Patimkin. E todas sempre dirigidas à B...

sou o mesmo

Não sou outro, sou o mesmo. Por fora, sim, mudei, mas em mim algo permanece intacto. Se me pedirem para desenhar o que está lá dentro do meu ser, vai sair uma casa torta, uma mulher, um homem, e uma menina - todos de mãos dadas - uma cerca, um sol risonho, nuvens, alguns pássaros num voo já saindo da página, e um caminhozinho tosco que, se calhar, vai dar no passado. Era isso que eu desenhava, é isso que ainda desenho, e será isso que desenharei sempre. Não, não sou um homem das tecnologias, das redes sociais. Pouco uso o computador. Com amigos mais chegados, reclamo que estou sozinho, que preciso da presença deles. Com aqueles que eu também sinto enorme falta, mas que não sou tão íntimo, fico calado, porém, já torcendo para que vejam em meus olhos a falta que me fazem. Ninguém tem mais tempo, no entanto, temos tempo de sobra. Para ganhar dinheiro, então. Se faltar, temos que correr ainda mais e isso exige tempo, sim? Para os estudos, para a melhor faculdade, para o melhor emprego. Afo...

algo sempre fica

quem se lembrará de mim quando a flor nascer em meu nariz? quando a terra, em peso e silêncio, soterrar os meus desígnios? [tantos] quem se lembrará de mim quando o meu nome não soar no vento? quando a chuva em delicadeza e fúria lavar minhas pegadas na varanda? [quem?] quem se lembrará de mim quando minha morada converter-se em útero de pedra? quando a mulher que amo, em solidão e sonhos, [muitos] enxugar a última lágrima? quem se lembrará de mim quando todas as malas forem desfeitas? quando a rotina, com mãos de punhal e fogo, sufocar a tudo e a todos? [quem?] nem Aristóteles acertou sobre os que ficariam escrever no bronze do tempo com penas de pássaros extintos oh, e não é isso que faz um artista? apesar de tudo forjar a espada ferir a pele-hipopótamo das palavras [todos os dias, todos os dias, todos dos dias] firme, na surdina pois no silêncio trabalha o coração e algo sempre fica. (para an...

eu ficava

me procurava como quem procura a chave do carro me tocava como quem bate na porta errada me seduzia como um vendedor de loja [no Natal] me queria como um solitário numa noite de sábado eu ficava [eu ficava] estátua sem braços no jardim pássaro sem a ortografia do voo nas linhas tortas do céu quão sólidas eram aquelas grades [invisíveis]

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

de preferência, sozinho

Gosto de viajar. E, na maioria das minhas viagens, os melhores momentos eu os passei sozinho. “Muitos gostos juntos, a coisa tende a terminar em desgostos”, dizia a minha vó em seu português muito particular. Gosto de viajar só, primeiro, porque é a forma mais eficaz de vivenciar tudo à flor da pele. É como um corte que nunca cicatriza. Os momentos tornam-se parte de nós. Viajar sozinho nunca é apenas uma diversão, uma distração, mas sim, uma busca, um mergulho em nós mesmos. Segundo, porque quando viajamos em grupo, o primeiro passo para estragar a viagem é aceitar coisas que não nos interessam. Quando viajo, gosto de fazer somente o que me der na telha. Regra inquebrantável e que tem funcionado muito bem. Foram inúmeros os momentos em que passei pelo que costumo chamar de iluminação interior. Em situações assim, era como se toda a alegria adormecida até então, despertasse de uma só vez. Uma sensação de que vamos sucumbir a ela dado que é imensa e forte, mas o fato é que nosso ser cre...