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Mostrando postagens de abril, 2026

os esquilinhos

diante do túmulo        de whitman dobrei os joelhos e pensei mesmo em escrever        uma hagiografia também recitei, de cor, toda       a canção de mim mesmo,  rabisquei versos desenfreados em guardanapos roubados das mesinhas dos restaurantes  e bebi todas, todas as noites        - sim, chorei -     ora, estamos falando de whitman. depois de alguns dias, passando e passando pelo túmulo do grande poeta, já não me excedia, apenas acenava para a campa como quem,                                                     pela rua,  cruza com um velho e querido amigo. então, nos meus últimos dias em Camden,      uns esquilinhos deram de me seguir até o hotel. me diverti à beça com eles. aos poucos, deixei, então, whitman lá,    ...

uma casa poema

a minha casa da infância - velhas, a casa e a infância – era um poema não tinha número. meu pai dizia que era pra ficarmos ocultos mesmo na cara das pessoas fazia isso para evitar notícias falsas e contas a pagar então, era uma casa-poema sem título apesar de que as notícias falsas, as contas a pagar, entre outros aborrecimentos continuavam chegando sabia-se lá como o quintal era repleto de rimas algumas até bem inopinadas como as orquídeas da minha mãe o telhado era o início do poema uma verdadeira frase inicial prestes a ruir sobre nós os compartimentos eram os versos alguns escuros, mofados, outros brilhando ao sol a calçada, larga como um cosmos, era o final do poema e uma calçada nunca termina portanto, o poema, a minha casa era infinita nas entrelinhas, vivendo do não-dito de cada dia, estávamos nós eus líricos, cada um, com um punhado de sonhos não realizados todos encolhidos sob o bico da caneta bic da existência-tinta-azul correr? fugir? como? para onde? e como se foge de um p...

cinzas e fogs

meu irmão já havia morrido - e eu ainda não sabia – quando cruzei o Universo fui saltando numa alegria infantil de menino pulando amarelinha - o menino dentro do homem num rebuliço só – Londres estava amanhecendo numa melancolia de fogs e eu ali, atrapalhando o trânsito, com meus pés de nuvens sobre a faixa de pedestres um bailarino numa coreografia inventada na hora, ali toda a minha vida – a nossa – na travessia do Universo uma lágrima correu numa avenida de rugas e eu vi os carros, a rua, as pessoas tudo como se estivesse coberto por um véu quando o mundo, enfim, adormeceu em meu peito, sorri e foi pleno a notícia veio, depois, como uma lâmina e cortou tudo anos depois, na mesma Londres e suas fogs, joguei as cinzas do meu irmão sobre a famosa travessia atravessamos, então, o Universo, juntos, cantando Across the Universe.

versos

quando dobro um verso em meus punhos similar à minha mãe, ao percorrer um terço como se procurasse uma das portas da Noite não quero nada além das linhas - e como são fugidias - prenhes de silêncios