Quando eu ainda falava o idioma das coisas inanimadas, as gotas prateadas da chuva eram como contas do colar rebentado do pescoço da noite e vez ou outra, o vento, mais asmático do que eu, arrastava parte dessas contas contra a minha janela que dava para a rua. a rua com ruídos, vozes e latidos sem donos. nisso eu me encolhia na minha cama - precisamos de outras coisas além das medidas exatas de uma boa cama? – e já quase no terreno do sonho, quando margens brancas de praias desertas e distantes engordavam as minhas pálpebras, eu sentia mãos cálidas esticando o meu lençol e em seguida um beijo gordo e mudo tocava a minha face quando eu já não mais sabia se era beijo ou ondas das praias desertas e distantes. ainda um arrastado de chinelos, batidos de panelas, estalos de ferrolhos depois, o silêncio então, o som dos tambores crescendo e crescendo e levando consigo a minha imaginação: de onde vem isso? quando descobri que o som dos tambores que vinha de longe eram apenas homens e tambores...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa