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Mostrando postagens de outubro, 2024

Homens e tambores

Quando eu ainda falava o idioma das coisas inanimadas, as gotas prateadas da chuva eram como contas do colar rebentado do pescoço da noite e vez ou outra, o vento, mais asmático do que eu, arrastava parte dessas contas contra a minha janela que dava para a rua. a rua com ruídos, vozes e latidos sem donos. nisso eu me encolhia na minha cama - precisamos de outras coisas além das medidas exatas de uma boa cama? – e já quase no terreno do sonho, quando margens brancas de praias desertas e distantes engordavam as minhas pálpebras, eu sentia mãos cálidas esticando o meu lençol e em seguida um beijo gordo e mudo tocava a minha face quando eu já não mais sabia se era beijo ou ondas das praias desertas e distantes. ainda um arrastado de chinelos, batidos de panelas, estalos de ferrolhos depois, o silêncio então, o som dos tambores crescendo e crescendo e levando consigo a minha imaginação: de onde vem isso? quando descobri que o som dos tambores que vinha de longe eram apenas homens e tambores...

ainda espero o café

às vezes, entro na casa demolida dou boa tarde e minha voz me responde feito carta que volta por não encontrar o destinatário sento-me no sofá que já não há e que um dia minha mãe - com um sorriso tímido e orgulhoso - o viu chegar em casa numa tarde de vizinhos nas janelas [ainda espero o café] não há mais aquelas mãos firmes apertando o pano de coar o pó como quem doma o destino não há nem mais aquelas mãos enrugadas e frágeis já domadas pelo destino - e o que há? – sinto o cheiro do café que não virá deve ser de algum vizinho que não conheço - passageiros de outros tempos - olho pela janela e procuro a mangueira que subi e desci tantas vezes como quem vence na vida contemplo-a invisível de mangas em quedas invisíveis [ainda espero o café] até ouço o tilintar de xícaras há muito quebradas isso vem quando me encolho em mim como a buscar a medida exata de mim quando a cama se torna um país distante e eu busco o cobertor de pele e rugas de silêncios e afagos isso vem quando vem uma vont...