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Mostrando postagens de agosto, 2022

Entre mim e ele

Olho-me no espelho e vejo o meu pai. Sinto que ele me olha e me vê Quem é ele e quem sou eu? Não sei Digo-lhe bom dia e sei que ele me dá bom dia Quem disse primeiro? Não sei Eu morro nele e ele nasce em mim Somos este ser que renasce entre nós dois, no espelho

Minha paixão pela Língua Portuguesa

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia.      Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia. Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não fazia a menor i...

Estrelas não pagam as contas

Eu viajava com o meu pai. Gostava do cheiro do ônibus. Da sua luz acendendo a noite. Acordando as cidades sonolentas. Era como se fugíssemos de nós mesmos. O mundo todo lá dentro reduzido a duas poltronas e um corredor. Podíamos dar conta. Não podíamos nos perder ali dentro. Quando o ônibus parava, descíamos como estrangeiros. A noite amassada assim como as nossas roupas. Os ponteiros do velho relógio arrastando-se para dar conta das horas e o cheiro de pão e carne moída como a promessa de um anjo. Um vira-lata cruza as nossas pernas. Um homem boceja, uma criança dorme, um carro buzina. Gosto dessa sensação de nunca chegar. Meu pai rabiscando contas e eu contando estrelas. Estrelas não pagam as contas, por isso meu pai rabisca. Andrômeda feito a digital de uma criança. Um sopro na película escura e melosa do céu de sempre. O cheiro da poltrona, o ronco das pessoas, o ronronar da madrugada, o som da paz temporária. O ônibus indo e as paisagens passando feito páginas de um livro ao vento...

Esta morte

Esta sensação de morte em vida você só há alguns passos e tão intangível feito o brilho de uma estrela morta o espaço vazio, o silêncio a casa escancarada de tudonada, tudonada, tudonada os ouvidos cansados e as bocas mudas os lírios pisoteados pelas ásperas patas do tempo - animal irascível - poderia gritar poderia esbofetear o rosto delicado com os dedos dedicados da minha covardia, mas não se vence o vazio com o ímpeto das nossas impossibilidades. só o monge escuta na cela escura o tempo se engole em seco e sozinho Posso mentir posso, posso o que quiser, mas apenas serei eu sendo nadatudo, nadatudo, nadatudo o pior desse vazio, desse vácuo, dessa morte é que não podemos velar o corpo, enterrá-lo, pisoteá-lo com os pés frenéticos da nossa falsa alegria.

O essencial

Quero a paz dos saveiros A dança lânguida e muda das árvores O vento de boas notícias Quero a calmaria das águas profundas O sol num ninho de cores O passo manso dos idosos Quero o meu primeiro riso A paciência dos móveis (os antigos) Um dia para pensar o nada Quero a determinação dos obeliscos A leveza das folhas O toque dos teus dedos ainda Quero largar-me na grama e sujar o terno bem cortado nu, sem pudor, correr na chuva Ouvir o resmungo de rimas de minha vó Quero, quero, quero esta tarde numa moldura Este dia num calendário antigo Este momento feito um anel apertado na carne Quero que você me deixe, (apesar de já ter-se ido há tanto tempo) que você volte para você que eu volte para mim e me perca novamente Quero esse nadica de tudo Aquilo que não faz falta ao mundo (e a ninguém) Que me preenche Quero reler Jubiabá sob a velha mangueira - longe, o rumor do futuro - Quero, quero, quero Navegar na superfície de mim e deixar que tudo mais afunde sob o peso das inutilidades.

Outrossim

Vários fatores contribuíram para minha paixão pela Língua Portuguesa. Mas posso me lembrar bem de um deles. Era eu - ainda com oito, nove anos - que escrevia as cartas do meu pai. Ele, num tom sisudo, ditava-as para mim. Eu tinha uma letra linda – adorava fazer exercícios de caligrafia - desenhava e gostava de ler. Nessa época, eu carregava sobre as costas o peso bigórnico da promessa. “Ele é inteligente, escreve bonito, desenha e gosta de ler. Vai sim, nos proteger das grandes tempestades vindouras”. Meu pai dizia. Então, quando ele precisava escrever uma carta, logo me chamava, apontava uma cadeira e me entregava lápis e papel. Vamos lá. Ao senhor fulano de tal...e ia. Eu ouvia atento e, orgulhoso, imprimia tudo com atenção e esmero. Meu pai rodava pela sala, a cabeça metida em palavras engessadas endereçadas aos seus patrões engessados. E eu mandava ver...Por meio desta, venho solicitar...e ele ia. Num dado momento, ele disse uma palavra que eu não a entendi de forma alguma. Então p...

Quando componho - reynaldo bessa (letra)

Quando componho Não tem pra ninguém Não há como definir Quando, enfim, o samba vem É um negócio medonho É um vai e vem Não, não posso mentir Não tem pra ninguém Quando componho Não vem que não tem Não há como não rir Quando, enfim, o choro vem É uma coisa comigo Vai do insano ao zen Não, não posso mentir Não tem pra ninguém Posso estar fraco, doente, ferrado, e até meio bêbado, zanzando que nem Zebedeu mas se componho meu bem estou no apogeu. Podem me chamar De saudosista, malandro, retrô, demodê Digam o escarcéu Mas se componho Meu bem Sou mais do que eu.  

Vazio - Poema-letra (reynaldo bessa)

Vou nas águas desse rio Ora riso, ora pranto Vou no compasso do teu canto Ora graça, ora espanto Vou nas águas desse rio Sou Orfeu em desvario sou Dante alucinado Vou nas garras desse estio Sou Romeu num fino fio sou Dirceu dilacerado Vou nas malhas desse rio Ora silêncio, ora grito Vou no enlaço do teu rito Ora manso, ora aflito Vou nas malhas desse rio Sou Abelardo em rodopio sou Odisseu sem direção Vou nas garras desse estio Sou Otelo em desafio sou Riobaldo sem sertão.