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Mostrando postagens de novembro, 2025

os cães

os cães atacam à noite é quando tudo se cala e deus dorme na guarita nessas horas - insondáveis não há muito o que fazer dado que não se pode fugir de si mesmo pode-se, quando muito, deixar-se à brisa fria da espera até que os cães, grandes, ferozes, famintos dilacerem a carne dos medos mais secretos e reste apenas, a carcaça da noite

todo ano me pergunto

A vida segue a lógica do ornitorrinco. De novo as luzinhas num incessante acender e apagar feito a nossa teimosia de sempre. Teimamos por quê? Tudo caminha para o fim como um lavrador, num campo devastado, sob a grande lua de colheita. Estou vivo, com doze meses sobre as costas, vivo, com trezentos e sessenta e cinco dias sobre os ombros, mas vivo, vivo... qual a lógica? A vida segue nos acariciando no sentido contrário dos pelos. De novo, os badalos pelas ruas a tangerem os infelizes. Estes esbarram-se nas lojas que lhes cobram os olhos da cara. Insistimos por quê? São roteiros diversos com o mesmo final. Sempre. E as luzinhas num insano acender e apagar feito nossas penitências. Para aqueles que acumularam, agora precisam dobrar a força para arrastar o cinturão de ouro. Para quem não tem nada, ora, apenas mais um ano difícil... qual a novidade? Há luzes por toda parte, há sorrisos. Nestes tempos há mais solidão, mais melancolia, mais... O tilintar de pratos e talheres soam como insul...

todos os caminhos levam à infância: lá, minha osga de estimação

Todos os caminhos levam à infância. Mesmo aqueles que, contra a nossa vontade, seguimos adiante. De alguma forma, estamos indo para ela. Ora, e não é lá que está tudo? O dedo deslizando doce na sobra do bolo na tigela, os macios e cheirosos lençóis que de tão passados a ferro em brasa, depois de abertos, pareciam tabuleiros de damas. Os vaga-lumes feito curtos-circuitos nos fusíveis da noite, o quadro da Santa Ceia com a minha osga de estimação a morar ali, atrás, na tranquilidade das molduras. À noite, quando ela saía à cata de insetos desavisados, eu podia notar um certo rebuliço naqueles homens cabeludos e barbudos a tramarem a paz e a confusão do mundo numa comilança eterna. Sempre me pergunto quem pagou a conta daquela Ceia. A infância é uma grande caixa de lembranças. Dessas que grudam em nós feito nódoas de caju. Se o caju for roubado, ainda pior. Era o que minha vó dizia. No meu tempo de menino, ninguém tirava uma nódoa de caju como alguns dizem que fazem hoje em dia: num toqu...

sem pressa e sem medo

Passamos dos cinquenta já faz um tempinho. Um tempinho? Ele pintou os cabelos algumas vezes; os meus vão ficando grisalhos e assim, ficarão: tenho medo de não me reconhecer no espelho. Ele, enfim, fez checkup e me falou sobre isso como se tivesse vencido a corrida de São Silvestre. Eu vou adiando: digo que gosto de subir ao ringue sem conhecer o meu adversário. Apesar de saber, desde já, que as armas desse inimigo são melhores que as minhas. Sou padrinho dos filhos dele, ele, dos meus. Quando se separou, depois de um casamento de uma vida, estive ao seu lado feito sombra e corpo: ele comendo um pote inteiro de doce de leite, e eu tomando vinho barato, aberto com toalha no fundo da garrafa e pancadas temerosas na parede. Ele não bebe, por isso não tem saca-rolhas em casa. Mas deveria ter. Uma hora precisamos de um. É o que sempre digo. Quando meu gatinho morreu e eu não quis mais me levantar da cama, ele veio e ficou jogado numa cadeira, dias e noites. Num dado momento, abriu as cor...

há dias assim

Hoje não me apetece falar da infância, do meu pai, minha mãe, minha vida, nada. Confesso que até eu me canso dessas coisas. Gostaria de viver outras vidas. Vidas sobressalentes como os pneus extras nos automóveis. Não quero falar de livros, autores, poetas malditos, poesia, nada. Isso também me cansa, apesar de que a literatura é ainda o que me mantém firme quando tudo mais parece sem sentido. Mas não quero mesmo falar de literatura. Há gente demais fazendo isso, e aleatoriamente. É mesmo como disse Giogio Agamben: “a opinião tomou de vez o lugar do pensamento crítico. Às vezes me dá ganas de escrever sobre outras coisas, assim, como Rimbaud, tempos depois de abandonar a poesia, passou a escrever textos técnicos. Em Chipre, dizem, ele estava lendo O livro de bolso do carpinteiro, o Álbum das serralherias florestais e agrícolas, As construções no mar, entre outros do mesmo naipe. Também não quero falar das companheiras. Das que permaneceram mesmo quando o chão se abriu, menos ainda da...

flores e punhais

Mesmo que não queiramos, há lembranças que grudam em nós feito nódoas impossíveis. Num primeiro momento, rejeitamo-las, não necessariamente, porque são ruins. Na verdade, são boas. Mas porque, depois de um tempo, chegam-nos dolorosas. Sentimo-nos como se um outro, em algum lugar do tempo-espaço, vivenciasse algo que nos pertence. Nos pertence? Ainda olho para cima a tentar identificar a nossa janela. Levo um tempinho, mas sempre a encontro, e com o sorrisinho escorregando do rosto, logo te imagino – sentada, uma perna sobre a outra, o vestido entre as coxas - a pintar as unhas dos pés. Fazia isso numa meditação de monge, em delicadezas de origamis. Estou bem ali, olhe bem, com as mãos suspensas sobre o teclado, numa mudez de palavras, paralisado com o teu rito de beleza. Como o poeta inglês, vejo anjos nascendo no pôr do sol. Agora está abrindo o guarda-roupa e, no teu mordiscar de lábios, no teu roer de unhas típicos, busca algo ali dentro como quem procura o sentido da vida. Eu devia...

como se fosse

Tenho esta vontade desenfreada de ir e ir. Num dado momento, vem a estranha sensação de que algo já não me cabe ou vice-versa. Então, quero ir. Quando era bem pequeno, ainda no berço, minha mãe me encontrou à porta de casa, já querendo ir para a rua. Ela não sabia como eu havia saído do berço, eu, muito menos. Depois a bacia ficou pequena, a minha cama também, a nossa casa, a rua, o bairro e, por fim, a cidade. Então fui e nunca mais parei. Estou sempre na iminência de partir. É uma coisa que está em mim como um sinal, uma mancha, uma cicatriz. Mas penso que isso se intensificou quando, um dia, na minha pré-adolescência, fiz uma viagem com o meu pai. Talvez ele já quisesse me direcionar para o seu ofício. Ofício do qual muito se orgulhava. É, talvez ele quisesse mesmo que o reizinho ocupasse, um dia, o velho trono do nosso infortúnio e, por isso, me levou junto em sua odisseia de boleias altas, de homens de gargalhadas sonoras, com sofridos palitos de dente no canto da boca, mãos manch...

imensa como ela só

Sempre que penso na minha infância me vejo como um arqueólogo a escavar um artefato. Vou cavando e tirando a poeira com a delicadeza de uma mulher a pintar os cílios. Mas a coisa, é certo, nunca se revela completamente. Qual o real tamanho desse artefato? Pergunto-me vezes sem conta. É sempre dúbia a sensação que vislumbro dessa delicada escavação. Não é doce nem amarga, é algo entre. Porque sou tanto aquilo e nada daquilo mais sou. E o que este homem traz do menino na foto a correr no quintal da velha casa? Penso que nada. No entanto, volto a ele. Ou ele volta a mim? Não estou bem certo. Por um momento, chego a pensar que é ele quem me leva para si. Na possibilidade de um encontro entre este homem e aquele menino, pergunto-me: o que diríamos um ao outro? Daríamos conta da imensa lacuna que, em silêncio, abriu-se entre nós? Será que trocaríamos olhares acolhedores ou de esguelha como, nos velhos filmes de faroeste, os nativos olham os forasteiros? E não é isso que nos tornamos quando a...