Fazia uma vida que estava naquela cozinha. E ali não havia uma porta. Desistira completamente de procurá-la. Durante muito tempo se dedicou a isso: a achar a porta, a porta. Tateou a parede, agachou-se, olhou pelas fendas, e nada. Cansou. Ela sabia que existira ali, uma porta. Ora, e como entrou? Havia sim. Quando ela chegou, era ainda uma cozinha bonita. As paredes eram novas, o cheiro era bom, tudo era limpo. A coisa começou a mudar logo após a primeira fritura. E daí foram tantas, muitas. Os clientes foram surgindo, os pedidos, aumentando. Gostavam da comida dela e ela gostava que eles gostassem. Mas isso já ia lá muito tempo. Agora só pensava em sair dali. A sua pele parecia a pele das paredes da cozinha. Pegajosa, suja. Sua testa brilhava feito a lua. Não conseguia sentir outro cheiro a não ser o do óleo frito, queimado. Podia ver lá fora os clientes devorando a comida que ela preparava. Riam, mastigavam, devoravam tudo. Depois fumavam, tomavam o café e logo em seguida partiam em ...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa