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Mostrando postagens de julho, 2023

A cozinha sem porta

Fazia uma vida que estava naquela cozinha. E ali não havia uma porta. Desistira completamente de procurá-la. Durante muito tempo se dedicou a isso: a achar a porta, a porta. Tateou a parede, agachou-se, olhou pelas fendas, e nada. Cansou. Ela sabia que existira ali, uma porta. Ora, e como entrou? Havia sim. Quando ela chegou, era ainda uma cozinha bonita. As paredes eram novas, o cheiro era bom, tudo era limpo. A coisa começou a mudar logo após a primeira fritura. E daí foram tantas, muitas. Os clientes foram surgindo, os pedidos, aumentando. Gostavam da comida dela e ela gostava que eles gostassem. Mas isso já ia lá muito tempo. Agora só pensava em sair dali. A sua pele parecia a pele das paredes da cozinha. Pegajosa, suja. Sua testa brilhava feito a lua. Não conseguia sentir outro cheiro a não ser o do óleo frito, queimado. Podia ver lá fora os clientes devorando a comida que ela preparava. Riam, mastigavam, devoravam tudo. Depois fumavam, tomavam o café e logo em seguida partiam em ...

Aquelas terras

levei-a até o alto daquelas terras eu havido saído dela e agora ela era um saquinho de ossos delicados sobre os meus ombros eu segurava em suas pernas finas enquanto ela, com voz de criança - um falsete frágil - cantava uma canção antiga. eu conhecia aquela canção oh, eu conhecia aquela canção foi a única coisa que ainda guardou da vida tudo mais havia se diluído em seu e só seu rio Lete devia pensar que alguém a roubava da sua casa de bonecas - "Amar é breve, esquecer é demorado". Pensei na frase do poeta chileno - enquanto eu pisava firme o chão de areia fina como quem tenta andar num prato de farinha ela permanecia cantando, cantando quando eu passava pelas pequenas árvores floridas ela, como quem se apodera de cachos de frutas, como quem tenta se agarrar as asas de anjos risonhos, pegava várias flores e soltava-as pelo chão dizia que era para florir o nosso caminho dizia ainda que as flores eram o passatempo de Deus. ela sempre quis ver o que havia depois dali, lá no alto...

Frutos doces

gostaria de ser como os frutos doces nascem misteriosamente e depois, descansam toda a vida sob uma sombra boa no calor do dia no frio da noite não precisam conversar mostrar sua ignorância ou sabedoria não só descansam no descansar manso de ser fruto doce até que um dia: plac! desprendem-se do galho para o desfrute dos lábios de uma menina bonita.

Ela

Tenho pensado tanto nela. Por vezes, até sinto a temperatura da sua mão. Meus dedos brincam com seus dedos longos e suas unhas carcomidas. Sentia a força protetora dessa mão toda vez que, de brincadeira, ameaçava uma fuga. E aí ela prendia a minha como uma águia prende os seus filhotes. Isso quando eu ainda usava calções curtos e meu destino era só ir até a esquina avisar ao velho que o almoço estava pronto. Quando cresci mais e quis fugir daquele amor complicado, daquela casa de proteção de lençóis limpos e comida quente, que foi quando decidi atravessar o continente, senti essas mesmas mãos ajeitando a gola da minha camisa, batendo no meu ombro para tirar uma sujeira inexistente, e até, ajeitando os meus cabelos. Era o seu jeito de dizer que iria chorar se aquilo demorasse mais. Quantas vezes não vi aqueles olhos feito dois lagos cinzas transbordando e inundando a geografia sofrida do seu rosto. Oh, tenho pensado tanto nela. Não importa quanto tempo estou a pisar esse chão. Não impor...

Flores escuras e murchas

o que mais me doía nas duas flores escuras e murchas nos pulsos do meu irmão mais velho não era a face enrugada da morte. Esta já era uma velha sombra conhecida de todos e que em sua retórica silenciosa e eficiente já tinha ludibriado tantos na família que já não nos espantava. O que me doía mesmo era a vontade ferrenha do meu irmão de partir, de nos deixar. O que fizemos? E não éramos também passageiros daquele trem desgovernado? Foi numa madrugada solitária e quente que descobri essa sua vontade. A morte deve se irritar quando alguém, sem limpar os pés no tapete, sem bater palmas no portão, adentra o seu castelo. Deve ficar irada quando é arrancada da sua sesta em seu trono gelado. Esquece até que é morte e, com seu dedo longo, engelhado, em riste, bem na cara daquele que quer vir muito antes do esperado, solta impropérios e perdigotos a rodo: "Volte, seu imbecil e só venha quando eu mandar, tá entendendo?". Deve ter sido isso, só pode, porque o meu irmão, no dia seguinte, ...

Cansaço

A cabeça está a mil. Há tanta coisa pra contar. Há uma cidade sob a chuva, luzes e luzes, o asfalto brilhando feito um dorso úmido de um corcel, há ainda o cheiro de um perfume, um sorriso no retrovisor, uma mão quente sob uma outra, há tudo isso e mais, mas o corpo está cansado, as mãos, os dedos se contraem e nada vai. Posso ouvir o som dos pneus no chão, uma música. É como um exército que precisa defender uma nação mas seus homens já não aguentam. Querem apenas deitar sob as sombras frondosas das tardes e fumar alguns cigarros., repousar o corpo, ler algumas cartas ou apenas olhar o horizonte. A cabeça quer, mas o corpo não. Um quer ir, o outro quer ficar. As setas do passado vão em todas as direções. Estamos em algum lugar e pulamos para outro. Retalhos de conversas, abraços, chegadas e partidas. Tudo tão intenso, mas depois cada um segue seu caminho. Depois que nos encontramos já não somos mais os mesmos. O tempo é outro, nossos anseios são outros, nosso corpo é outro, compromis...

Há algo mais além dali da gente

levei-a até o alto daquelas terras eu havido saído dela e agora ela era um saquinho de ossos delicados sobre os meus ombros eu segurava em suas pernas finas enquanto ela, com voz de criança - um falsete frágil - cantava uma canção antiga. eu conhecia aquela canção oh, eu conhecia aquela canção foi a única coisa que ainda guardou da vida tudo mais havia se diluído em seu e só seu rio Lete devia pensar que alguém a roubava da sua casa de bonecas - "Amar é breve, esquecer é demorado". Pensei na frase do poeta chileno - enquanto eu pisava firme o chão de areia fina como quem tenta andar num prato de farinha ela permanecia cantando, cantando quando eu passava pelas pequenas árvores floridas ela, como quem se apodera de cachos de frutas, como quem tenta se agarrar as asas de anjos risonhos, pegava várias flores e soltava-as pelo chão dizia que era para florir o nosso caminho dizia ainda que as flores eram o passatempo de Deus. ela sempre quis ver o que havia depois dali, lá no alto...

Meu pai

Meu pai era durão. "Homem trabalha, mulher cuida dos filhos, filhos estudam". Dizia com sua voz de raios e trovões. Pegava em peso, martelava pregos, consertava as goteiras da casa. Tudo isso sem pio nem piedade. Com o dedo em riste, discutia com o âncora do jornal quando este falava de aumento dos impostos. Meu pai vestia-se como se fosse para um duelo. Entrava no dia com a determinação de quem vai se casar ou pular de um abismo, sei lá. Ele era mesmo durão, mas quando tinha de ler uma frase num caderno, num documento, que seja, apertava os olhinhos feito um bichinho que acabara de nascer. Indefeso que só.

A vida é uma coisa linda

a vida é uma coisa linda a vida é tudo há as dores as perdas dói mas há a vida gosto a vida é luz, movimento a vida há esses dias ouvi o coro de crianças nos pátios dos colégios caminhei sentindo o cheiro das damas da noite pensei, se tivesse de morrer, poderia ser agora mas não quero morrer, gosto da vida há dias em que não queremos sair da cama porque estamos demais em nós e nossos nós mas ainda tenho a opção de não sair da cama ou de sair, ou de ir à janela e assobiar tenho vida posso chorar pelos meus posso há também vida nas lágrimas depois, depois vamos com vida a vida é a vida tem pulso, cor, textura a vida é clara febre gosto de sentir o chão pela manhã de ouvir o vizinho em sua labuta gosto do tique-taque da madrugada da pancada do meu jornal na grama gosto da grama de senti-la pinicando a minha mão posso ver, posso ver a minha mão gosto do latido dos cachorros longe de mim tão perto de mim quando sinto a vida o vento pensei num amigo que disse que o pior de morrer era não mai...

Anjo tosco

esses latidos longe facas cegas, frias na pele a noite cabeleira de mulher só mordiscando o tempo o mundo casa grande de portas escancaradas para ninguém quem sou eu no desaguar do dia? cheiro de comida a vida vivendo num pulular ardiloso de crupiê o que é isso que dói e não dói no que é e não é peito? o que é isso que rói e não rói no que é e não é leito? sou este ser sem ser acuado entre o pai e o filho um miado como que vindo do passado são miados, os mesmos e eu nunca essa vontade-lâmina ilha ínfima-vida de asas, leves breves no corte abrupto do desespero de sempre não há voo não há mais nem caminhar só este fardo em meu corpo de anjo tosco no lusco-fusco

Era

era gosto de beijo roubado desses que estalam e cheiram a chiclete ploc azedinho bom de bala beijo de prisioneiros no portão sob os olhos sentinelas dos pais e suas sacanagens velhas em baús velhos rijo era tudo tudo esticava-se feito fisgada de peixe-grande dor e delícia e mais... fiat-lux de carne e saliva e era cheiro de xampu halo amaciante na tua pele macia eu mascava a tua ausência como meu avô mascava fumo dormia mascando e se babava todo eu babava você que nem sabia ali diante da tv tua casa cheirava à cera e cozido de carne. teu cachorro latia diferente teus móveis estavam no lugar certo o carro do teu pai cabia na garagem feito um rei no trono e tua mãe dormia no sofá em roncos e bruxismos então, eu te roubava sem te ter e eu te levava de ti lembro do teu corpo-pão-doce vez em quando eu tocava o abismo e caía nele. e era escuro, doce água no inferno da boca pecado bom feito pelas mãos de um diabo piedoso então, veio o tempo sem tampa e ...

Como numa canção do Simon and Garfunkel

Gostaria de escrever a minha vida como uma canção do Simon and Garfunkel. Um cara que sai pelas estradas, conhece algumas cidades, fuma alguns cigarros e continua em frente. Para onde? Não importa. Para frente. E ele abraça os irmãos que são aqueles caras também sofridos que assim como ele buscam alguma saída. E que tentam esconder as pancadas que levaram. As pancadas que estão ali, sutis, nos sorrisos contorcidos sob os bigodes velhos. E o cara depois se despede e toma o rumo novamente. Qualquer rumo. Não existe o chegar. O que há mesmo é o aprendizado das estradas, o pó, o frio, o som dos próprios passos. E há as noites de estrelas, as noites solitárias com mugidos longe, os latidos dos cães dos caçadores. Há sempre um índio sábio e velho. E há um tocador de violão do interior e que morde as palavras como quem guarda algum grande segredo. E há a ferrugem dos trens, a graxa, e os gemidos do trilhos em suas dores de aço. E há aquela saudade de ir e também a vontade de não voltar. E no ...