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Mostrando postagens de abril, 2022

Indireta - Reynaldo Bessa

Não, você não sabe Apenas acha que sabe Fica num diz-que-me-diz Tenta um cabe-não-cabe Acha que turco é árabe Pensa que faca é sabre Não, você não sabe Deixa de insanidade Não, você não cabe Apenas acha que arde Arrisca um chove-não-molha Fica num tatibitate Pisa na liberdade Posa de bacamarte Não, você não sabe Vá que já é muito tarde Não, você não sabe Apenas acha que é parte Fica num-entra-e-não-sai Largue esse seu disparate Acha que gengibre é wasabi Que cascalho é pedra-jade Não, você não sabe Saia antes que o mundo acabe Se quer saber Vou lhe dizer Desaprenda Para aprender

Tempo Nulo (trecho) - romance - reynaldo bessa

Um enfermeiro veio buscá-lo. Vi quando meu companheiro parou na porta - antes de pegar o corredor e ir-se de vez – e olhou para trás. Por que fazemos isso? É uma forma de nos certificar de que fomos mesmo capazes? É para tentar saber se o animal, com o qual lutamos esse tempo todo, está realmente morto? Por que olhamos para trás? Por que ainda contemplar o rosto daquilo que nos assombrou meses a fio? Para que ainda mirar esta Medusa de olhos vitrificados? Olhe para frente, meu amigo, é lá, no horizonte, que está a sua nova vida. Olhe para frente e esqueça a noite longa e escura. Você está livre agora. Está vivo. Talvez não consiga recuperar alguns outros tantos cacos daquilo que se quebrou, mas pode ainda construir algo novo com o que tem nas mãos. Mesmo num pedaço de um espelho conseguimos ainda nos contemplar por inteiro. Erga o queixo e siga o sol como assim, fazem os girassóis. O passado agora é apenas uma lembrança difícil que se esvai. Em breve, estará muito distante. É provável ...

Na última lona - crítica

NA ÚLTIMA LONA Reynaldo Bessa. Sinopse/crítica Na última Lona é um livro sobre a tragédia da fome. Os personagens por meio da linguagem poética do autor, intensificam a dolorosa percepção entregue ao leitor, do universo que subsiste na sociedade. A fome. Dostoievsky com seu talento nato enquadrou a dura realidade social que conduz as pessoas a suas atitudes desesperadas. Partindo desta ligeira associação Na última Lona é a poesia e a música que se misturam para a representação sentimental das dores psicológicas e físicas ocasionadas pela fome. Embora nas páginas da obra o leitor fique conhecedor dos desgastes físicos ocasionados por uma situação familiar de miséria, é pelo relato das dores psicológicas que o leitor se verá imprensado em uma realidade dura. O autor da obra é um músico que traz para a sua narrativa graduações de palavras que ganham ritmo pelo soar dos sentimentos dos personagens. A narrativa não se abranda no decorrer da história, o leitor deverá se preparar para encontr...

O vazio no vazio

É tudo tão turvo. Consigo me lembrar um pouco agora depois que tudo passou. Quer dizer, esse passado que não passa, e que tentamos repassá-lo como uma forma de tentar repará-lo. Encontrava-me ainda mais tímido. Tudo diante dela era frágil. A realidade parecia sempre suspensa, movediça. Eu media o que dizia como se a qualquer momento uma palavra enviesada pudesse desmontar aquilo que mais parecia um sonho. Eu olhava-a e pensava naquela mulher que passava as mãos sobre os meus cabelos e me dizia que nenhum mal dura. Aquela que pressentia os meus vislumbres e tragédias, aquela que me tirava para dançar quando percebia que o par que eu havia escolhido iria pisar não só no meu pé, mas em toda a minha vida. Aquela que via em meus olhos aquilo que eu ainda não via. Onde ela estava? Tudo havia passado tão rápido. É, nenhum mal dura para sempre, mas também nenhum bem, né? Agora ela ali, diante de mim, de um homem ainda mais tímido, medindo gestos e palavras. Ela ali falando de geografias...

Entre folhas, goiabas, e expectativas

Quando precisávamos nos mudar, eram sempre a minha irmã mais velha e a minha mãe que saíam à procura de casas. Geralmente, voltavam desanimadas. Isso porque visitavam muitos lugares ruins, nos quais não gostaríamos de morar, como também, alguns lugares muito bons, pelos quais não podíamos pagar. Era um ir e vir sem fim. Muitas vezes sob o calor do meio-dia ou dentro da noite veloz. Até que um dia, acharam uma casa. Não parecia real. Mesmo quando já morávamos nela há muito anos, ainda podíamos pensar que vivíamos uma fantasia. Era um lugar muito bom e que podíamos pagar. A casa era grande e possuía tantas portas e janelas que sempre esquecíamos algumas abertas por não dar conta de todas. Havia até um telefone. Quando tocou pela primeira vez e minha irmã caçula resolveu atender deu um grito e depois disse que havia pessoas dentro do telefone. Não era ainda a mocinha que, bem baixinho, falaria horas com o namorado, e sempre tapando a boca do telefone. Havia também um quintal. E u...

Escrevo

Estou só Escrevo Posso perceber o olhar do bicho Ele tem os olhos do meu pai quando queria nos bater Não eram os olhos do meu pai como também não eram os seus cabelos Uma pequena parte despenteava-se como penugens de pássaros, enquanto a maior parte permanecia penteada como os cabelos de uma estátua Era outro homem diferente daquele barbeando-se logo pela manhã. Bom, o bicho não me dá descanso Dorme quando eu durmo Come o que eu como Levanta-se comigo É como uma sombra, Um reflexo no espelho Sobreviverá a mim Porque se alimenta de todos os ruídos Do mundo Dos meus gestos e pensamentos Há dias em que penso entregar-me a ele mansamente, como um beato cedendo a língua à hóstia Mas resisto às mordidas às promessas & suas garatujas a inércia dos calendários É que quando vejo já estou de pé e ouvindo o matraquear dos relógios, o farfalhar das úmidas folhas de náuseas Não há como matá-lo Um tiro no espelho Talvez, domesticá-lo, lamber suas botas Ele tem a faca e o que...