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Mostrando postagens de janeiro, 2025

lâminas afiadas

houve um tempo - louco – que ela e uma música me golpeavam sem dó - deus, que lâminas aquelas – eu era ainda alguém que entrara na vida - esta que nunca nos permite um ensaio – como um coadjuvante sem roteiro ela, hoje nem tanto são as intermitências do coração as ondas do tempo que vão se espaçando e nos largando à margem de nós mesmos sobre a música, devo ainda me manter em alerta feito um sushiman atento à faca afiada

restos da tarde

restos da tarde sobre a velha cristaleira da minha mãe louças feito as mulheres gordotas de Botero me contemplam do outro lado do vidro como se de outro tempo os ponteiros arrastando as horas num desânimo de funcionário de aviso prévio as casas em seus fastios os homens sob os segredos dos seus chapéus tudo tão aqui e tão distante feito a lua daqueles restos de tardes entre os meus dedos franzinos

Fujo

de versos engraçadinhos bonitos na foto                                  fujo de versos simpáticos trinta e dois dentes                                  fujo de versos etílicos em guardanapos                                  fujo de versos eruditos cheios de pó                                  fujo de versos copiados sem nenhuma voz ...

As últimas palavras

Há todo um movimento antes da chuva. É como se ela, antes de enviar a sua falange mortal, mandasse alguns guerreiros para reconhecimento da área. Podemos ver isso nas palmeiras em movimentos de adolescentes nos bailes, nos cartazes das quitandas feito as dançarinas de cancan. Então, um sopro traiçoeiro vem e trepida a janela como se quisesse despertá-la do sono de alumínio e vidro. Há também um cheiro difícil de definir. Talvez esteja apenas em mim. Não é como o cheiro de goiaba do qual tanto falava Gabo. Este estava em tudo, nele, em toda a Colômbia, pode-se dizer. E não é também como o cheiro da dama da noite. Este eu conheço bem. Tem o cheiro da voz da minha vó, pois quando ela resolvia contar histórias havia sempre esse cheiro forte. E sei lá por que, sempre que me vejo em meio a tudo isso: chuva e lembranças, é como se o tempo se deslocasse, assim como os palcos improvisados, com rodinhas, nos programas de auditórios nos quais, três ou quatro homens, curvados como se para um outro...

Como comecei a ler

À época, quando eu ainda andava de calções curtos e toscos feitos pela minha mãe, o grande leitor lá em casa era o meu irmão mais velho. Eu só fui ler, tempos depois, por influência dele. Daí a importância dos mediadores de leitura à nossa volta, na nossa família, seja o pai, a mãe, as irmãs, os irmãos, amigos, namoradas, enfim. Depois de um tempo, eu estava lendo muito. O que me caía às mãos, como se costuma dizer por aí. Já na adolescência, Schopenhauer me ensinou que, na verdade, não devemos ler muito – e o que seria isso? ele pergunta -, mas sim, ler com qualidade. São coisas muito diferentes. Com J. Adler Mortimer aprendi que um livro muito bom (coisa rara) deve ser lido, no mínimo, três vezes: a primeira para aprender, a segunda para compreender e a última para solidificar tudo e, se necessário, até refutar o autor. Foi Antoine Albalat que me ensinou que uma leitura sem notas, fichamentos, apontamentos, é o mesmo que não ter lido nada. Muito tempo já se passou. Meu irmão cumpriu...