Escrever é um ato de vontade. Não uma vontade como tomar um sorvete, ir ao cinema, andar de bicicleta. O sorvete podemos tomar depois, podemos declinar, podemos até nunca o tomar. O cinema podemos ir outro dia, ou mesmo deixar pra lá. Andar de bicicleta...bom, a mesma coisa. Mas escrever é uma vontade que não podemos adiar. Desistir dela, ainda pior. Tente. É um impulso incômodo. Puxa pelo teu braço, sussurra no teu ouvido, às vezes até grita. Vou me deitar. Tudo está resolvido: conferi o gás, fechei as portas, dei uma última olhada pela janela para contemplar a rua vazia. Já com a cabeça no travesseiro sem mais o dedo em riste das obrigações – mais ou menos – com os olhos feito pássaros buscando ninhos, de repente, um estalo, um insight, sim, esse olhar de fora para dentro, esse objeto reencontrado, essa epifania interna. Sim, uma ideia que vai inchando na cabeça feito uma massa de pão no forno, E queima. Viro-me para o lado como quem espanta fantasmas, como quem, de forma física, que...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa