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Mostrando postagens de setembro, 2023

Um ato de vontade

Escrever é um ato de vontade. Não uma vontade como tomar um sorvete, ir ao cinema, andar de bicicleta. O sorvete podemos tomar depois, podemos declinar, podemos até nunca o tomar. O cinema podemos ir outro dia, ou mesmo deixar pra lá. Andar de bicicleta...bom, a mesma coisa. Mas escrever é uma vontade que não podemos adiar. Desistir dela, ainda pior. Tente. É um impulso incômodo. Puxa pelo teu braço, sussurra no teu ouvido, às vezes até grita. Vou me deitar. Tudo está resolvido: conferi o gás, fechei as portas, dei uma última olhada pela janela para contemplar a rua vazia. Já com a cabeça no travesseiro sem mais o dedo em riste das obrigações – mais ou menos – com os olhos feito pássaros buscando ninhos, de repente, um estalo, um insight, sim, esse olhar de fora para dentro, esse objeto reencontrado, essa epifania interna. Sim, uma ideia que vai inchando na cabeça feito uma massa de pão no forno, E queima. Viro-me para o lado como quem espanta fantasmas, como quem, de forma física, que...

Em noites assim

Vez em quando, no meio da noite, acordo com saudade de mãe. É uma falta impossível que se eu juntasse todos os dicionários do mundo ainda não conseguiria defini-la. Em noites assim, vou até a cozinha e procuro por mim mesmo feito um homem buscando algo num saco vazio. As coisas estão ali, mas não estão. Tento. Depois, paro como se a vida também tivesse parado. – E não parou? –. Essa saudade não é de todo ruim. É saudade, apenas isso. Abraça e abandona, chama e renega. Nunca sei se estou chorando ou sorrindo. Sinto-me feito esses vira-latas sem casa e sem afeto, que enquanto caminham olham para o chão num gesto de obediência doída, num tipo de desistência do amor. E há outro amor além do amor de mãe? Há tantas definições no mundo, não? mas, na maioria das vezes, me soam como esses garfinhos de aniversário que se quebram logo que tentamos cortar um pedaço do bolo em nossas mãos incertas. Definições demais como a inutilidade das coisas demais. Por um momento penso ter ouvido um frufru de...

A bolsa ou a senhorinha

Um dia, eu estava saindo do supermercado quando uma senhorinha, banho tomado, toda arrumadinha, cheirando a alfazema me abordou e me perguntou se eu tinha visto uma bolsa assim, assim. Era dela. Tinha esquecido perto daquela coluna ali. Foi o que disse. Olhei na direção para onde ela apontava, mas não vi coluna alguma. Ali, notei apenas pessoas em suas pressas e anseios de sempre. Disse-lhe que lamentava, mas não tinha visto a bolsa dela não. Que perguntasse ali, ao gerente, quem sabe ele guardou, né? Após isso, fui em minha pressa. Fui pensando que logo eu, né? que olho as horas e não as vejo, que olho os carros e só os percebo quando buzinam em mim, olho as pessoas e mesmo assim, esbarro nelas. Vivo com a cabeça no mundo da lua, ou com os olhos dentro de um livro. Eu que esqueço contas a pagar, a consulta do médico e até o meu aniversário. Como eu iria, então, notar uma bolsa por ali? A senhorinha foi-se e os dias passaram porque é isso que os dias fazem, passam e passam. E aí, eu es...