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Mostrando postagens de setembro, 2022

Ouro de papel

Quando ando pelas ruas, entro em alguns lugares, não resisto a me agachar ou a esticar o braço para pegar uma carteira de cigarro vazia e jogada ali, numa calçada, deixada em cima de um balcão, largada num banco de ônibus ou de uma praça. Gosto do formato, do brilho. Aprecio o papel prateado, ah, o dourado. Encanto-me com o barulhinho que faz. Bem provável que mesmo que eu estivesse com o joelho dolorido, ainda arriscaria um malabarismo tosco para apanhar a carteira ali, sozinha, vazia e dando saltinhos pela força do vento do clima genioso de sampa. Mas essa reverência bisonha não é de hoje. Preciso voltar alguns bons anos – quantos? Não importa - para tentar explicar esse fascínio por essas coisinhas vazias brilhando ao sol. Bom, pra começar, cada uma delas tinha um valor. Enquanto mais raras, mais valiosas. As carteiras dos cigarros Clássico, Hollywood, Continental, e outras desse mesmo tipo não valiam muito. Eram troco. Mas um Hilton, um Minister, um Carlton a coisa mudava de fi...

Mas que destino?

Peguei um táxi de um motorista que já não aguentava mais esse tipo de trabalho. Estava na tampa. Bom, e eu estava atrasadíssimo. E quando estou atrasado fico nervoso. Quer dizer, gosto de chegar aos meus compromissos muito tempo antes. Mas eu estava mesmo irritado. E a vida é uma constante lição. O taxista podia ouvir os meus lamentos e reclamações no banco de trás. E ele conhece muito bem o trânsito de uma sexta-feira em sampa. Ele mantinha os ouvidos em mim e os olhos no congestionamento que se formava. Ora, ele era o capitão Ahab do seu táxi. Então, não me aguentou - poxa, ele tinha uns 78 anos - e me entregou a outro taxista. Mas este, Deus, não ouvia. Precisei falar o endereço umas três vezes. Quanto mais eu falava, mais ele aproximava o rosto grande dele na direção do meu. Se eu tivesse repetido o endereço pela quarta vez, ele teria beijado a minha boca. Bom, o meu taxista anterior - acho - entendeu o que acontecia e me pediu para entrar novamente no táxi dele. Viu que ali a coi...

As estrelas têm ouvidos

Quando eu tinha 5 anos, meu irmão mais velho me disse que a Terra é redonda. Sim, estávamos em cima de uma bola, e o que era ainda mais assustador, rodando no espaço imenso numa velocidade tremendamente superior a velocidade de uma bala. Não só fiquei apavorado com a ideia de escorregar – por isso, firmei mais os meus pés – como também adquiri uma doentia expectativa de que algum objeto, a qualquer hora, pudesse me esmagar. Mas ele me tranquilizou. Disse-me que isso não era de hoje. Já era assim, há muito tempo, e pelo menos ninguém ainda havia sido esmagado e muito menos havia escorregado do planeta. Então, eu o questionei se já que era uma bola, redondinha, se eu a cavasse com minha tampa de alumínio da lata de leite Ninho, eu a deformaria. Acho que não falei assim, pois com 5 anos, com certeza eu não sabia o que significava “deformaria”, mas penso que me fiz compreender, pois ele, numa gargalhada, disse-me que não, não aconteceria nada além de eu me cansar e sujar os pés e as mãos. ...

Provável início

Nunca vou me esquecer daquele dia. Estava muito quente. Eu acabara de chegar em casa, e ainda esbaforido, desesperado, procurava uma cerveja na geladeira. Aquela que é ainda mais gostosa não apenas por estar muito gelada, mas por ser a última. Quando abri e dei o único gole, o telefone tocou. Era a minha irmã:” mano, já ficou sabendo?