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Mostrando postagens de outubro, 2025

só pra lembrar de ti

Vai, sai desse silêncio. Logo o senhor que era tão falador. Que brigava com o âncora do jornal como se ele fosse o responsável pelo aumento dos preços das coisas, como se tivesse culpa pelo mar de corrupção no qual o país estava mergulhado. Vai, sai dessa inércia. Logo o senhor que se mexia tanto. Que parecia ter vários braços e pernas feito um Shiva do subúrbio a espernear e a dar braçadas com os sonhos não realizados. Sair assim, de repente, que coisa! pela porta dos fundos, como faz um devedor com os credores. Vai, me bate, me deixa ver de novo teus olhos irados a buscar os chinelos no intuito de me punir por mais uma das minhas travessuras. E eu que fugia para a rua e esperava a noite cair como caem as folhas. Isso até as coisas amainarem e o senhor se esquecer da sova. Então, de mansinho eu entrava em casa feito um ratinho com um olho no queijo e o outro no gato. Eu já não sou aquele desajeitado que sempre deixava cair o copo das mãos, não roubo mais as moedas dos teus bolsos, da ...

às lágrimas

Já é a quarta biografia de Rimbaud que leio. De forma diferente, tudo se repete: a mãe forte, fria e possessiva, o sumiço do pai quando Rimbaud era ainda o pequeno Jean-Nicolas, as dificuldades financeiras, as caminhadas de mãos dadas com o irmão Frédéric, os inúmeros prêmios na escola, ainda no ensino médio, as leituras, as primeiras publicações dos incipientes escritos em revistas importantes, as conversas com professores admiráveis e amigos influentes, a vontade desenfreada de conhecer o mundo, a carta que Rimbaud escreveu a Théodore Banville e que o poeta parnasiano nunca respondeu, o convite de Verlaine: “Venha grande alma, você está sendo convocado, você está sendo aguardado”. O romance louco com Verlaine, o inferno que a vida do autor de Festas Galantes tornou-se, as dificuldades financeiras novamente com a relação tumultuada. O assalto, as prisões, o término dramático do romance com Verlaine – este, preso por quase dois anos por tentar matar Rimbaud – a escrita dos dois...

sobre livros e desamores

Gosto muito do livro no formato físico. Primeiro, descobri o livro pegando nele, só depois, lendo-o. Hoje, ainda fico num frisson danado quando acho um livro que há muito procurava. O tempo se desloca, o dia fica febril. Ando na livraria como se estivesse num labirinto. Sento-me, folheio-o, viro-o como a testar a saúde, a resistência dele. Levanto-me e ando. Sempre com o livro debaixo do braço. Não o quero comprar ainda pois quero mil vezes o prazer de saber que ainda vou comprá-lo. Esbarro nas pessoas, perco a noção da física, desafio suas equações precisas. Mudo o livro para o outro braço, aperto-o para me certificar de que não fugiu e ainda me quer. Tenho receio das pessoas, pois acho que estão interessadas no meu livro, então, seguro-o com as duas mãos. Certifico-me de que é ele mesmo ali comigo. Leio o título e o autor, respiro, leio de novo, respiro. É assim. Estou sempre a comprar livros. Não para lê-los, exatamente. Também, mas acima de tudo, para tê-los. Há livros na minha es...

apenas escreva

Quando não tiver nada para escrever, escreva sobre o que não tem para escrever. Pode ser sobre o seu olhar caído num dos cantos da casa, a cortina batendo, vez ou outra com o vento, o grito, lá na rua, de alguém que você nunca irá conhecer. Escreva sobre algo que a solitária vizinha do apartamento de cima deixou cair para afugentar a solidão que já gruda em seus dias e noites assim como a gordura nas paredes da cozinha. Quando não tiver nada sobre o que escrever, apenas escreva, assim como os ponteiros marcam as horas sem saber da serventia desses movimentos, e mesmo assim, no final de cada giro, já se põem a rodar e a rodar, e nessa cantilena, irão até que acabem as pilhas. Ora, os escritores também não sabem para que escrevem, e em seus ofícios diários, como se ponteiros num rodar contínuo, terminam de escrever e logo se põem a escrever novamente, e dessa forma, irão até que deem o último suspiro. Escreva sobre a inquietação da caneta na sua mão inquieta, o seu pé num tique nervoso s...

ainda sobre partidas

Parti inúmeras vezes. E não é isso que fazemos a vida toda e mais um pouco? O que me inquieta numa partida não é o ir-se de vez, não é a geografia que paira entre duas saudades, nem o pó que se levanta e apaga lembranças tão caras, mas, sim, o ritual todo, sabe? Os olhares indecisos, as palavras entrecortadas – há que se fazer ainda um livro sobre todas as palavras não-ditas nas despedidas – o resvalar de mãos, os beijos trêmulos e principalmente uma coisa no meio do peito que pesa mais que todas as nossas bagagens. Parti vezes sem conta. E não há lugar que nos chegue? Minha mãe nunca entendeu quando, uma vez, tremendo de medo do mundo, disse-lhe que iria embora. Ela talvez tenha pensado que me referia a sair dali, diante dela e, mesmo já com pelos sob o meu nariz arrogante, eu fosse empinar pipa ou correr para rua em meu cavalo de folha de bananeira. Pedia-me muda, toda noite, em lágrimas silenciosas que sumiam no travesseiro, que eu não partisse. Parti com o travesseiro dela com o pr...

onde estão todos?

Quantos já fomos no curso da nossa vida? A cada ano, fica mais difícil saber. Este homem perplexo é aquele menino travesso? Mas onde se esconderam todos os outros entre? Para onde foram? Estão em algum multiverso ou sob as tantas velhas fotos, cartas e bilhetes nas gavetas que de tão rechonchudas já não querem mais abrir? Será? Será que são esses eus tantos que me roubam os bonés, uma meia dos meus sapatos. E por que cargas d’água nunca levam as duas? Será que são estes mesmos que escondem a chave do carro, atrasam os relógios ou fazem chover quando esquecemos o guarda-chuva? Juro que eu tinha uma camisa azul. E que gostava deveras dela. Mas a mulher que lava a minha roupa disse-me que há muito a camisa já não era azul, e pela cor já indefinida eu havia-lhe pedido para se livrar dela. Pode ser, mas ainda penso que foi um desses meus tantos elos perdidos que me levou a tal camisa enquanto eu cochilava no sofá, com um livro sobre a barriga. Será que esses tantos eus que fui, vez ou outra...

sobre meninos, pipocas e decotes

De repente, me vi neófito. Ora, não me recordo de ter me oferecido para a função à época. Coisa da minha mãe, só pode. É que eu já sabia andar bem sobre as pernas, me achava muito inteligente, e não parava quieto em lugar algum. Então, deve ter sido ela sim, que falou com o padre Juracy para me arranjar algo do que me ocupar. Neófito? Sim. Na igreja católica, é um tipo de preparação para coroinha. Sabe aquele menino que ajuda o padre na missa? pois é. Um neófito faz tudo o que um coroinha faz e mais um pouco, mas não é um coroinha, entende? Se persistir, e principalmente, resistir a todas as tentações do inferno, com certeza será um coroinha, e dos bons. No começo, eu gostava. Dentro da minha roupa de mini padre, ajoelhava-me na hora certa e tocava o sininho. Podia, com rabo de olho, ver as meninas, nos bancos da frente, olhando-me com risinhos abafados. Dali eu também podia notar os sapatos do padre Juracy, juntinhos, feito irmãos gêmeos obedientes. Via tanta coisa. Ainda por cima, er...

que orgulho!

A primeira vez que acreditei na possibilidade de darmos certo em alguma coisa na vida foi quando minha irmã ganhou o concurso de miss do centro comunitário do nosso bairro. Ali, depois de uma seleção exaustiva, difícil, estavam as mais belas jovens da região, diziam. E minha irmã, entre elas. Que orgulho! Não me lembro de todas as concorrentes, mas não me esqueço de uma delas porque vi como ficou quando anunciaram a vencedora. Acho que já contava com o milho no papo. Era o que parecia. Desceu do palco antes da cerimônia de entrega da faixa. E o pior é que ela não ficou nem entre as primeiras. Lá embaixo, sem o vestido de miss e a maquiagem, já não mais parecia uma das concorrentes. Minha irmã, linda, arrastando seu brilho enquanto era abraçada por um e por outro, sem descanso, ainda incrédula, procurava viver aquele golpe de sorte que, enfim, a vida havia-lhe proporcionado. Ria timidamente feito alguém que come um doce, lentamente, pelas beiradas, como se com receio de que apareces...

podia não ser muito simples, mas não era tão complicado

Antigamente, precisávamos de muito pouco para encarar uma sexta-feira à noite. Não precisávamos escolher uma entre tantas roupas – muitas de marca – e acessórios vários. Também não havia tantos lugares como hoje, e assim, que bom, não era preciso dar voltas e mais voltas no quarteirão até encontrar uma vaga onde enfiar de vez o carro e a impaciência. Numa dessas, acabei pegando a rodovia Anchieta, rumo à praia, e acho que até hoje não voltei. No débito ou no crédito? Não, não havia isso. Nem as imensas filas para garantir uma mesa para dois próxima do banheiro ou num lugarzinho um pouco melhor, longe, pelo menos, do forte cheiro de desinfetante e xixi, mas que precisamos, vez em quando, abaixar a cabeça para que o garçom, pra lá e pra cá, consiga passar com as bandejas sempre carregadas e por isso, perigosas. Sim, precisávamos de muito pouco para atravessar uma sexta-feira à noite. Não havia nenhuma necessidade de ficarmos indecisos com este ou com aquele prato – alguns de nomes impron...

verdadeiras pérolas

Para que servem os relacionamentos conturbados, desencontrados, doídos? Aqueles que nos tiram o fôlego, a rotina, e até o amor-próprio? Vi um homem, toda uma noite, debruçado numa mesa de um restaurante porque sua companheira não veio fazer-lhe companhia no jantar. Outro que rasgou em picadinhos todas as fotos da noiva e depois, arrependido, tentou, aos prantos, juntá-los novamente. Vi uma mulher, uma vizinha, que entrou para o convento depois de saber que seu companheiro não a queria mais. Foi ser serva de Deus, como costumava dizer em seus gestos contidos de virtudes. Vi outra que, durante muitos anos namorando no portão, quando o relacionamento desandou e o namorado deixou de aparecer, ela sumiu do bairro logo depois e ninguém mais soube dela. Homens e mulheres que tentaram a sorte, botaram cartas, visitaram cartomantes, fizeram despacho e até atentaram contra a própria vida. Serão para isso os relacionamentos impossíveis, falidos, quebrados? Aqueles que nos tiram a razão, o foco e ...

nossa ilha mais íntima

Sempre me perguntei de onde vem o desejo de revisitarmos alguns momentos da nossa vida. Nunca soube se era pelo sentimento de culpa, mesmo que de leve, de não os ter vivido como deveria, ou se pela vontade de vivê-los novamente. Ainda vejo o seu Francisco e o seu filho mais velho chegando da funerária e abancando-se à mesa como se no último dia do fim do mundo, porque logo precisavam voltar ao trabalho." Os vivos descansam um pouco, os mortos, nunca", dizia ele. A mulher do seu Francisco, com os quadris pesados, trazia, então, a comida pelando, mas, vez em quando, tinha de esquentá-la novamente, porque o seu marido só conseguia comer se a comida lhe queimasse a língua. De carne fria, bastava a dos defuntos. Reforçava. Os olhos de sangue do sisudo porteiro do cinema vasculhando nossos olhos como nossos pais procurando cigarros proibidos nas nossas primeiras gavetas. Se achassem um, segurava-o na ponta dos dedos e apontava para nós como se, num passe de mágica, fosse nos trans...