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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Ele lá, eu cá

Quando questionado sobre uma provável crença em Deus, Voltaire respondeu: “Nos cumprimentamos, mas não nos falamos”. Já Hemingway afirmou: "sim, às vezes, geralmente, à noite". Penso que minha relação com Deus é um pouco assim também. Em tese, deixo-O lá e Ele me deixa aqui. Só de vez em quando, nos cumprimentamos e até esbarramos um no outro, mas nada além disso. Por essa relação assim, assim com Deus, vez em quando, tenho vontade de ir a uma missa. Quando vou, sinto-me o próprio Desplein, personagem de Balzac, no conto a Missa do Ateu. Mas, diferentemente do cirurgião cético e materialista, do conto balzaquiano, não vou ao templo para pagar missa para um pobre carregador religioso que me ajudara na juventude. Menos ainda vou à procura de Deus. Sigo ainda, desde a minha adolescência, os versos do poeta Rabindranath Tagore, que diz: “Abre os olhos e vê que o teu Deus não está diante de ti!" Ouço apenas a voz que me chama por dentro. Uma voz muito similar à da minha mãe m...

ainda quero ser um artista

“quero ser um artista”. Era isso que eu respondia quando, aos seis anos, alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescer. – “e só somos algo quando crescemos?”, aproveitava pra me perguntar. Já aí quando me questionavam o que era um artista, eu respondia que não tinha a menor ideia, e que por isso mesmo queria ser um. E dos bons. Meu pai dizia que eu podia ficar sossegado, pois já estava no caminho certo: eu era um tremendo de um arteiro. Como eu ainda não sabia o que era um artista e menos ainda conhecia a ironia, ria cheio de orgulho, e reforçava: “sim, sou um arteiro e logo serei um artista”. Fases do mesmo fenômeno. Era o que eu pensava. À noite, no meu quarto, imaginava que as goteiras eram estrelas a desenharem cacos de luz nas paredes. Cacos de luz que viravam portais. Portais que davam acesso a mundos encantados. Costumava trocar o nome das pessoas e quando chamava por elas e não me respondiam eu lhes perguntava se estavam surdas. Nada do real me interessava. O real é u...

querubim

Um menino mais que travesso Apresento-lhes neste instante Um nome ele tem, sim confesso Mas isso não é o mais importante Só com muita demora Seu nome completo escutava Na chamada da escola Ou quando ele aprontava Por seu cabelo diferente Trançados que nem alfenim ficou conhecido, sim, gente pelo nome de Querubim Era Querubim o dia inteiro Todo dia e a toda hora Que seu nome verdadeiro Ninguém mais lembrava agora A coisa ficou tão de boa Que nem ele conta dava Pensava que era outra pessoa Quando seu nome soava Resolvido esse quesito Vou falar-lhes do menino em si Era traquina quem nem periquito Ligeiro tal qual siri Soltava pipa e pião Subia na goiabeira De nada tinha medo não Nem de fantasma e caveira Que nem um peixe nadava Era mesmo peralta Um sonho tanto sonhava Queria ser astronauta Logo bem cedo pra rua corria Era mesmo um deus-nos-acuda Por qualquer coisa sorria Até pra vizinha carrancuda Ao voltar da escola Nem o uniforme tirava Ligeiro pegava a bola Das horas nem mais lembrava ...

sempre a descobrir tesouros nos velhos mares de sempre

Estava pensando nos autores com os quais me identifiquei logo de cara – e ainda me identifico – no curso da minha formação de leitor. Gosto demasiado dos escritores de aventura. E muitos desses, ao contrário do que muitos pensam, não trabalham apenas o conteúdo, mas sobretudo, a forma - Por exemplo, Jonathan Swift criou Línguas Fictícias. Cada lugar que Gulliver visita possui sua própria língua e peculiaridades. Em Liliput, o idioma é rápido e minúsculo, refletindo a futilidade da corte, enquanto em Brobdingnag, as descrições são detalhadas e brutas. A língua dos cavalos racionais, os Houyhnhnms, é desprovida de termos para mentira, traição ou poder, consistindo apenas em palavras de Verdade e Razão. Isso contrasta com o vocabulário corrompido dos Yahoos, os humanos. É claro que quando eu lia esses autores ainda não captava todo o mecanismo. Colhia apenas a primeira história, aquela que flutua na superfície. E já estava de bom tamanho. Só depois de algum tempo é que fui entender a comp...

e eles acreditavam nisso

Escrevo infinitamente sobre os meus pais, mas a impressão que tenho é a de que nunca escrevi uma linha sequer sobre eles. É uma repetição que sempre me soa como uma peça que nunca estreia. Sei lá, faço isso como se os banhasse e os vestisse como faziam comigo quando eu era pequeno. É tudo tão rápido. Toda uma vida num abrir e fechar de olhos. Depois é esta saudade feito uma janela batendo, uma rua deserta e escura onde ouvimos apenas os nossos passos. Onde nos assustamos com o nosso grito. Ou seria com a nossa existência? Escrevo em demasia sobre os meus pais, sei, me repito, mas é que escritor mata a saudade – ou pelo menos tenta matar – escrevendo. É uma vontade de editar e imprimir tudo novamente. Mas lá estamos a borrá-lo feito os trabalhos da escola que eu fazia à noite, e que me pareciam lindos, mas, quando à luz do dia, meu deus! era de chorar. A chuva, sei lá por que, me traz essas lembranças. Retalhos de momentos, texturas, vozes, cores, sons, feito uma rádio que ora pega ora ...

num vale uma crônica

Tenho de entregar uma crônica e é aquela velha cantilena de sempre: não sei ainda sobre o que escrever. Cronistas amigos já me disseram para escrever várias crônicas e depois ir enviando, uma a uma. Não funciono assim. Crônica pra mim é que nem comida fresquinha. Exatamente, como aqueles pfs que cheiram a comida da vó, entende? Ou faço um texto novo e envio ou faço um texto novo e envio. Compreende? Ah, pensei em escrever sobre a Rosa Montero, uma renomada escritora e jornalista madrilenha que comecei a ler por esses dias. Ela fala umas coisas interessantes sobre a ladra dos doces: a morte. Aliás, ela é fascinada pela morte, como também pela existência. Me chamou a atenção também os parafusos imensos que ela diz trazer no corpo. Dei então de pensar na morte. Nada tenho contra esta. Tenho mesmo birra é da vida. Este arranjo misterioso de lógica impiedosa e propósito fútil, como diz Marlow, um personagem num dos romances de Conrad. Se a vida não é um engano, posso dizer que a morte també...

canto torto

minha terra tem palmeiras – algumas – mas confesso que não me lembro como canta um sabiá faço este poema numa preguiça e desânimo danados com os rumos que tomou a minha terra - ainda minha? nem sei se o nosso céu tem mais estrelas quantas mesmo tem por lá? – alguém contou? - o que sei é que há muitos pombos traiçoeiros, os bosques estão largados e a nossa vida anda pela hora da morte cismo muito à noite e de dia também com as tantas contas a pagar – e com as tarifas, então... - sim, minha terra tem palmeiras – por enquanto – e sei lá eu do sabiá não peço a deus que me permita voltar pois aqui, já estou, ora - as passagens aéreas andam tão caras - ainda por cima sou ateu e de mim cuido eu mas de tanto aborrecimento me dá uma vontade danada de me mandar quem fica que cuide das palmeiras – poucas – e alimente o sabiá que, confesso, não o vi mais gordo por cá a questão é para onde vou já que por lá a coisa anda na mesma nota - ou pior - sem mais palmeiras nem sabiá afora o rátátátá

apesar de tudo, é bom

Por esses dias, me mudei. Apesar dos transtornos, gosto de mudar. Quando ficamos muito tempo num determinado lugar, as pessoas acham que nos conhecem demais, se achegam demais, enfim, fica tudo demais. As coisas das quais eu gostava tocam numa nota mais grave, quase inaudível, enquanto as que me incomodavam no começo, soam-me agora como as trombetas de Jericó. Difícil. Saturam-me as britadeiras anônimas que me infernizam nos dias que mais preciso me concentrar em alguma coisa. Anônimas, porque parece que funcionam sozinhas. Sim, num determinado dia, uma delas dispara e fura o que for preciso sem a menor necessidade do suporte humano. Por que digo isso? Ora, porque quando o porteiro liga para o provável apartamento de onde vem o barulho, nunca tem alguém, e se tem, informam que ali ninguém está usando britadeira alguma. Anônimas sim. É preciso aceitar. Quer dizer, é preciso se mudar. Ah, deu pra mim também os bate-bocas diários das quatro irmãs solteiras. Num determinado momento a briga...