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Mostrando postagens de outubro, 2022

Fumaça

Meu irmão costumava acender o cigarro e logo apagar o fósforo em abanos desesperados como se estivesse queimando a mão. Depois, apertava o cigarro entre os dedos como quem traga um dos segredos da vida. Então, deitava as costas no espaldar da cadeira de balanço como se ali fosse dormir o sono tão almejado Eu o olhava de longe, com tantas perguntas, com tantas perguntas Nunca as fiz Nunca as fiz Agora nem ele, nem a cadeira de balanço - nem eu - que se foram em uma das tantas mudanças E agora, o cigarro em meus lábios, entre os dedos também e ainda as perguntas as perguntas que nunca as fiz e por que fá-la-ias? ora, eram perguntas impossíveis e por isso eram também as respostas, no mínimo, impossíveis Nas ruas sem mais ninguém - até talvez sem a mim mesmo - quando toda ânsia cansa, quando toda busca cessa, quando o eterno passa vou até a varanda e acendo um cigarro e enquanto trago - trégua? - vem essa coisa, meio magma, meu estigma, meio nada essa coisa amorfa quase eu quase algo. essa...

Espera

em frente a este banco que tanto promete riquezas, te espero. não tenho nenhum dinheiro nenhuma promessa apenas espera. sob o neon do meu desespero te espero nenhum dinheiro, nenhuma promessa apenas espera.

Poderá

poderá ser numa manhã de domingo em que um velho triste, de pijama, caminha para a padaria poderá ser na tarde quente de folhas secas quem sabe numa noite de bares lotados em que as pessoas brindam um recomeço ou na madrugada silenciosa poderá ser no meio de um livro, preparando o café tomando algum remédio poderá, poderá Quem sabe no dia seguinte em meio ao caos do trânsito, após atravessar uma rua ou esperando o sinal verde de um deus, nos passos incertos de mais um dia poderá, poderá ah quanto poder carregamos nos bolsos furados poderá ser num novo amor, amor que amamos eternamente o eterno que é chuva e logo sol e nada mudará nada serei apenas uma peça fora do tabuleiro a vida que é esse jogo que termina - com vitórias ou derrotas - mas sem nós. carta fora do baralho querendo mudar o jogo perdido

Inferno e Paraíso

Quando a tristeza é maior que nós, quando se apossa de nós como um rei cruel refestelando-se no trono, quando ri do nosso andar vacilante. dos nossos resmungos no meio da noite Quando a tristeza voa sobre nós feito um agouro quando mostra seus nós e anéis em mãos delicadas quando desdenha do nosso corpo alquebrado dos nossos lamentos ao nascer do dia Quando a tristeza rasteja sob nós feito um verme quando esconde suas facas e martelos sob o terno bem cortado então sentimos a vida. Quando a alegria é maior que nós quando se apossa de nós como uma rainha bondosa assumindo o seu trono como uma bênção Quando exulta com nosso andar firme com os nossos solilóquios felizes no meio da noite Quando a alegria voa sobre nós feito um pássaro dourado quando mostra suas verdades e veredas em mãos calejadas Quando exorta o nosso corpo firme os nossos desejos ao nascer do dia Quando a alegria nos ergue feito um deus quando nos mostra suas asas e luzes nas costas delineadas Então sentimos a vida.