A tarde não é a mesma, claro, porque cada tarde é uma tarde, mas, de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas cores, assim, como uma nova bandeira de uma determinada nação é a mesma e é outra. Digo que o que pode ser diferente é o peso, pois, ele, um amigo, sim, um amigo, alguém que preenche uma história como os pontinhos de ligar e que forma imagens. Alguém com quem compartilhamos algumas canções, confidências, viagens e desesperos, partiu. Uso esse verbo "partiu" porque acredito que saimos dessa para uma melhor, quer dizer, diferente. E quando alguém se vai como um sol que não pousa, como uma lua que não é nova. E tudo isso acontece como um pacote que cai, uma sombra sobre o dia, um calendário vencido no meio do peito, uma aula de violão suspensa, uma conversa interrompida, um chope intocado sobre a mesa. A tarde não é a mesma, claro, porque cada dor é uma dor, mas de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas agonias, assim, como o choro é outro mas as lágrimas são...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa