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Mostrando postagens de dezembro, 2024

Mais uma baixa no front

A tarde não é a mesma, claro, porque cada tarde é uma tarde, mas, de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas cores, assim, como uma nova bandeira de uma determinada nação é a mesma e é outra. Digo que o que pode ser diferente é o peso, pois, ele, um amigo, sim, um amigo, alguém que preenche uma história como os pontinhos de ligar e que forma imagens. Alguém com quem compartilhamos algumas canções, confidências, viagens e desesperos, partiu. Uso esse verbo "partiu" porque acredito que saimos dessa para uma melhor, quer dizer, diferente. E quando alguém se vai como um sol que não pousa, como uma lua que não é nova. E tudo isso acontece como um pacote que cai, uma sombra sobre o dia, um calendário vencido no meio do peito, uma aula de violão suspensa, uma conversa interrompida, um chope intocado sobre a mesa. A tarde não é a mesma, claro, porque cada dor é uma dor, mas de alguma forma é a mesma porque traz as mesmas agonias, assim, como o choro é outro mas as lágrimas são...

Revistas, faxinas e mistérios

Coleciono algumas revistas. Tenho várias Superinteressantes e ainda as minhas sofridas Seleções do Reader's Digest que comecei a juntá-las quando ainda era um rapazinho. Elas já sobreviveram a três divórcios e sei lá a quantas mudanças. E penso que ainda aguentam muito mais. Gosto de ter essas revistas comigo, mas o que gosto mesmo é de dar uma olhada nelas, vez ou outra, quando decido fazer uma faxina geral nas minhas coisas num lento e prazeroso "isso-fica-aquilo-sai". Quando pego uma dessas revistas, o universo em sua expansão misteriosa e cada vez mais veloz pode seguir sem mim. Como se eu tivesse achado estela , o outro pedaço maior e perdido da pedra de Roseta, sento-me e vou folheando a revista numa placidez de padre bem alimentado: no espírito e na carne. Me perdi num artigo sobre a origem do aplauso: o ato de bater constantemente a palma de uma mão na outra como forma de demonstrar – entre muitas outras coisas - a nossa satisfação com algo que nos é apresentado. ...

Noturno em Veneza

Eu já não tinha mais certeza do meu verdadeiro nome. Poderia checar os meus documentos em meus bolsos que ainda assim, duvidaria. E aqueles documentos não poderiam ser de outra pessoa? O fato é que toda essa incerteza – coisa que foi nascendo aos poucos feito uma doença silenciosa - era porque eu me sentia como um habitante de um entre-mundos: já não me lembrava de muitas coisas do Brasil e ainda assim, não me sentia na Europa. Sim, claro, eu estava ali, no vaporetto. A minha frente, quer dizer, a nossa - havia mais gente naquele barco engraçado - o horizonte mostrava suas pinceladas furiosas. O sol, feito um barquinho de papel, ia como que soprado por algum deus travesso, ali, de cócoras, oculto por uma grande pincelada laranja. Sim, eu fazia parte desse melancólico cenário, mas não estava mesmo certo do meu destino. O que sabia era que ia em silêncio e notava o timoneiro numa pressa particular. Não aquela pressa de quem quer mostrar que sabe mesmo fazer a coisa, mas sim, como a de al...

O que acontece?

Atualmente, vivemos tomados pelos compromissos que, quando paramos, achamos que há alguma coisa errada. Trabalhamos o ano inteiro, e não conseguimos aproveitar um mês, quinze dias, uma semana que seja. Sempre que penso nisso, lembro-me do famoso filme Tempos Modernos , com o Chaplin: um funcionário, trabalhando intensamente numa linha de produção, de tanto apertar parafusos – e é só isso que ele faz – num dado momento, sai apertando tudo em volta. Não que ele ache que tudo precisa ser apertado, mas porque ele não consegue parar devido ao condicionamento que a máquina, cada vez mais rápida, lhe impôs. E nisso, nesse desassogego, é engolido pela famigerada máquina. Permanece vivo, mas continua, com suas ferramentas endiabradas, tentando ajustar tudo em volta.  E não é a vida a nossa linha de produção? E não somos, de um jeito ou de outro, Chaplins com ferramentas em punho, querendo a todo custo, ajustar as coisas? Sonhar é grátis, mas concretizar os sonhos gera boletos, e boletos...

Com choro e abraços eternos

Definitivamente, não gosto de aviões. Nada contra as geringonças em si, são até bonitas, ostentosas. Refiro-me a não gostar de voar nelas. Lembro-me de ter voado sem medo uma única vez: a primeira. Mas até aí, eu estava mais preocupado com uma imensa espinha que apareceu dois dias antes da viagem e, era o que parecia, iria ficar em meu rosto imberbe até o meu último suspiro. E outra, eu lá sabia que essas coisas viajam a mais dez mil metros de altura e a milhares de quilômetros por hora. E por que deveria saber? Melhor não. Mas não é o medo o principal motivo de eu querer ficar longe dos aviões. O que sinto não chega nem perto do que sentia o Gabriel Garcia Márquez que disse que, quando em voo, com toda sua força e fé, segura a poltrona para ajudar na sustentação da aeronave no espaço e que grita com as crianças que correm pelo corredor com medo de que elas abram um buraco no piso. Há evidentemente, um medo, como a maioria das pessoas, mas o que sinto mesmo está mais para um enfado com...

Como num beijo

Chegava, jogava sua mochila velha sobre a mesa, e ia contemplar, na janela, algo que só ele via. Depois disso, como se saísse de um transe, riscava uma palavra na lousa e começava a se questionar – sim, a ele e não a nós. Eram questões que aparentemente, nada tinham a ver com a palavra escrita a nossa frente que mais parecia um desenho de um graveto. Falava para si mesmo, como, sozinho, devia falar em seu quarto, antes de dormir. Até que um de nós, não mais se segurando de curiosidade – esta é que nem coceira, se demoramos, coça ainda mais – entrávamos no solilóquio dele. Depois entrava outro, e mais outro, e outro. Logo toda a sala estava envolvida numa conversa sem pé nem cabeça, mas, no final, a sensação que nos ficava era a de que tínhamos todo o mundo dentro da sala. Esse professor, em tempos de prova, não perdia seu tempo nos vigiando nem circulando as carteiras, menos ainda nos mirava do umbral da porta feito a morte nos espiando dos muros, em Córdova, como disse uma vez um poe...

O outro

Para entrar na vida e para sair dela de uma vez, precisamos de um suporte. Não lembramos dos nomes daqueles que, ligeiros e enérgicos, nos puxaram para dentro da vida, quem bateu de leve nas nossas costas para que soltássemos o nosso primeiro reclame da existência. Quem cortou o nosso cordão umbilical? Não nos lembramos. Mas com certeza, pequeninos e indefesos como éramos, não fomos nós a cuidar disso. Assim também não nos lembramos – e como poderíamos – de outros tantos, que em gestos solenes, e até algumas lágrimas, nos levaram para fora da vida, quem teceu orações para que a nossa jornada fosse mais leve. Quem remendou o nosso cordão umbilical? Não nos lembramos. Mas com certeza, silentes e inertes como estávamos, não fomos nós a levantar um fio de cabelo acerca disso. Em meio a tudo isso, ah, tanta gente e tanta história. Lembro-me que eu só conseguia dormir depois que minha mãe viesse me cobrir. Geralmente, eu não me cobria por preguiça mesmo, mas na maioria das vezes, eu deixava ...