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Mostrando postagens de julho, 2025

carrinho de Lata

pó, poeira,     minha mãe na soleira     porta aberta feito chaga    pra estrada sol, porteira    meu pai à espreita    hora certa feito faca    amolada o medo em seu alazão armando o grande alçapão                  punhal de prata o mundo este turbilhão brandindo espada-solidão                  sova de alpercata mas        lá vou eu           lá vou eu                   lá vou eu                             no meu                             carrinho de lata

que nada

que país que nada que nação que nada só nos ferraram apenas insultos, ameaças, taxas e leis: lanças afiadas sob tecidos de veludo não sou patriota, tenho medo dessas coisas - aliás, tenho muito medo, cada vez mais– que país que nada que nação que nada gosto dos bichos, não dos currais gosto das flores, não dos jardins além de tudo, tenho que sorrir não parece, mas estou sorrindo mas o que faço mesmo é aplacar os dias é só o que tenho feito não tenho medo da morte é bem-vinda como a picada de uma serpente com o tempo a vida vai perdendo a braçadas para Ela eu não leio poesia, releio tenho três poemas apenas sob o travesseiro foi o que restou - e me basta - escrevo pouco, mas ainda não menos como gostaria - e para quê? - ainda posso ouvir as baionetas daquelas tardes de vinagre e glacê lembro-me da esperança de confeites atirada aos cães do bolo tremendo sobre a mesa não, não gosto que me chame de poeta - ten...

não te li e não gostei

eu me perdi ou foi o poema que se perdeu? em mim, nada dele nele, nada de meu poema, poema de peito de pombo e soberba tão descolado e tão frouxo poema de tantas causas - todas perdidas - já não te disseram que a única causa da poesia é a da própria poesia? - não? que pena! olha, não te li e não te gostei - como disse o bom selvagem – e, sabe? eu já escrevi isso amanhã - parodiando miles davis – poema, poema de jeito tosco e pressa de siriema, menino, tome tento senta que já passou a tua vez e faz tempo

guardo III

minha mãe me ensinou a amar as pessoas, as coisas, o giro do planeta o vento nas venezianas com suas cantilenas e ladainhas tudo sinto ainda a pressão da sua mão sobre a minha a me guiar na grafia da palavra-alimento "aquilo que sacia toda fome" - ela dizia - no A, como numa montanha-russa, subíamos e descíamos juntos e depois, eufóricos, seguíamos para o M - era como fazer um raio deitado - ríamos, tontos, no desenho do O me dava tonturas aquele giro, sim mas eu estava firme em sua mão de mãe amava aqueles calos em suas mãos, não pelos calos em si, mas por serem dela amava aquele cheiro de alho não pelo alho propriamente, mas por saber que era ela ao meu lado tudo isso estava nela como a sua fé em seu Deus o Deus que eu iria continuar acreditando, apesar de tudo, só porque era no que ela acreditava Feito o O, eu trêmulo na sua mão firme, ia para o meu maior desafio: o R. subíamos, ainda juntos, aquela parede imensa, depois – e aqui ...

guardo

a velha xícara - sem asa – em suas mãos de rugas e histórias tantas seus olhos assustados de menina velha a pedir sorvete a um pai sem dinheiro algum a velha xícara - sem cor – em suas mãos de lutas e derrotas muitas seus pés tímidos, em chinelos estropiados, a rabiscarem, no chão duro, nossos destinos descosturados a velha xícara - sem nada – em suas mãos que sustentam o mundo