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Mostrando postagens de julho, 2024

terra molhada

as Horas num arrastar-se de ferido a travessia impossível do dia a realidade - lâmina afiada feito os olhos tristes do meu pai - noite; sombra mefistofélica [na testa fria o invisível inimigo com martelo e cinzel a cavAr, a cavAr [sem descanso no meu peito de náusea mármore náusea nau sea afago de uma morta nos meus anseios [de cortinas sem vento encardido tempo o pianista esquálido numa fuga tosca luvas de veludo sobre as teclas do tédio - verde - uma sala grande que não me sabe seta para o nada logo a madrugada vai chegar com cheiro [de terra molhada morro, às vezes, nunca ressuscito.

poucos segundos

quando meu pai morreu foi tanto que nada senti mergulhei num branco alma suspensa pelo gancho da incredulidade busquei o choro como quem procura água num poço seco semeei as minhas sementes do não-sentir em solos ressequidos depois, tudo veio aos poucos, pílulas um troço que mói, rói, dói que logo preciso me encostar, segurar-me em algo sentar-me em algum lugar é nada que tudo sinto mergulho em mim alma apertada feito meia grossa que não entra no sapato não busco o choro vem por sua conta e risco e tudo vinga toda uma existência em poucos segundos quando resolvi mexer no baú de Nava, e que é nosso, entendi. Ele diz: "não sei se sofri na hora. Mas sei que venho sofrendo destas horas. A vida inteira".

quando - plano B

quando dou de rezar não dobro os joelhos nem fecho as mãos juntinhas como quem mata insetos se rezo, fico em pé porque todo o meu corpo é reza e ponho as mãos nos bolsos num burilar de contas invisíveis quando dou de rezar não me curvo nem preciso de silêncio como os leitores nas bibliotecas se rezo, permaneço ereto porque gosto do vento no meu rosto e apuro os ouvidos porque quero ouvir os gritos das crianças, dos homens e das mulheres em suas lutas quando dou de rezar não fecho os olhos nem sussurro palavras feito as vozes nos velórios se rezo, abro bem os olhos porque quero guardar o mundo que não me guarda e - bem alto - canto uma canção que minha mãe cantava enquanto estendia as roupas nos varais quando dou de rezar não olho para o céu nem peço nada feito os pedintes sob as marquises se rezo, não olho para o céu porque lá só o azul e aproveito para devolver a Deus o que Ele me deu