Oh, amigo sou um baú de tantas coisas. Dentro dele há tantas ruas hoje sem nomes, amigos que já se foram. Há canções que cantei e que ainda não esqueci porque estão em mim no sangue que me circula. Há, sob o terno bem cortado do homem triste que agora sou, as roupas da minha filha quando desafiava a gravidade. Há os calções curtos feitos pela minha mãe num domingo chuvoso. Há as conversas de botecos, os sonhos em retalhos. Sou este baú, velho e novo, amigo, que vez ou outra, aparece no meio da sala como o único móvel da casa. Ah, há meus discos velhos, aqueles que mexem comigo com os cutucos afiados dos pega-varetas do passado. Amigo, sou isso, essa vontade de voltar guiado pelos mapas extraviados, vontade de voltar com vontade contracorrente, com meu nado de lagoa rasa e perdigotos, sou esta constante piracema. Sou este ser de cheiro de terra e capim de tarde de pai e pão que não chega nunca, nunca, sou mãe que espera e espera e espera, sou filhomãe Tanta coisa nesse baú, tanta. Estou...
Blog do escritor brasileiro Reynaldo Bessa