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Mostrando postagens de agosto, 2023

Baú

Oh, amigo sou um baú de tantas coisas. Dentro dele há tantas ruas hoje sem nomes, amigos que já se foram. Há canções que cantei e que ainda não esqueci porque estão em mim no sangue que me circula. Há, sob o terno bem cortado do homem triste que agora sou, as roupas da minha filha quando desafiava a gravidade. Há os calções curtos feitos pela minha mãe num domingo chuvoso. Há as conversas de botecos, os sonhos em retalhos. Sou este baú, velho e novo, amigo, que vez ou outra, aparece no meio da sala como o único móvel da casa. Ah, há meus discos velhos, aqueles que mexem comigo com os cutucos afiados dos pega-varetas do passado. Amigo, sou isso, essa vontade de voltar guiado pelos mapas extraviados, vontade de voltar com vontade contracorrente, com meu nado de lagoa rasa e perdigotos, sou esta constante piracema. Sou este ser de cheiro de terra e capim de tarde de pai e pão que não chega nunca, nunca, sou mãe que espera e espera e espera, sou filhomãe Tanta coisa nesse baú, tanta. Estou...

A estrela cadente

Logo que cheguei a São Paulo, morei em pensão. Em tese, era triste, mas eu gostava. Tenho, naturalmente, esse espírito de dançar no inferno quando os capetas já estão levantando as cadeiras e lavando o chão. Danço. Meu quarto não era dos melhores, mas não era dos piores. Lá para os fundos outro mundo acontecia sem a camada de cima saber de muita coisa. Alguma, sim. Nos finais de semana só ficava a padaria até umas dez da noite. E eu ainda sem direção ficava ali em impressões jovens e etílicas. Achava que ia engolir o mundo. Achava que era justo um mundo bom aceitar um homem bom. Não foi assim que me foi ensinado? Não, não foi, mas relutamos em aceitar a verdade. Voltava da padaria com hálito de pizza com bastante ketchup e algumas cervejas. Na sacola ainda algumas. Ficava na janela olhando o vai e vem dos carros. Gostava disso. É como um soldado na trincheira antes da matança. Dá pra fumar alguns cigarros, pensar na família que vai envelhecer sem você e olhar a foto da namorada distan...

Minhas férias

Algumas lembranças são muito sem noção, sem educação. Lembrei-me agora que, na escola, em alguns anos, a professora pedia pra gente escrever uma redação com o tema “minhas férias”. Logo de cara fiquei de castigo, pois não entreguei o texto. Também levei um zero. Numa mescla de inquietação e curiosidade ficava me virando na cadeira, ora para um lado, ora para o outro, para frente, para trás. Tudo isso para ouvir os textos dos colegas. Uns falavam das manhãs na fazenda, dos finais de tarde. Dissertavam sobre o gosto do leite puro, do cuscuz fresquinho feito pelas mãos carinhosas de uma vó de fala doce. Ah, os ninhos de passarinhos, os banhos de rio. Eufóricos, remexendo-se nas cadeiras, falavam que bom mesmo era cavalgar o Corisco, o Raio & Trovão, o Cometa, o Estrela Cadente, o Maremoto, o Turbilhão, o Napoleão. Estes eram os cavalos que todos eles, nas férias, montavam até dizer chega. Eu ia pra casa pensando nessas coisas, nessas férias de felicidade. Até trotava na rua e fazia ba...

A bengala

Quando era adolescente, queria ficar logo velho para usar uma bengala. Eu achava bonito. Simples assim. Tudo isso começou quando um senhor se mudou para a minha rua. Vez em quando, geralmente no final da tarde, ele saía em seus passeios metódicos e perfumados. Caminhava em passos comedidos, lentos, pesados. Não tinha nada a ver com algum problema físico, a idade, não. Me parecia mais como se - agora na velhice – procurasse manter uma elegância que conquistara desde a sua juventude. Talvez achasse a pressa deselegante. Tinha os cabelos – branquíssimos – sempre sagradamente penteados. Usava uma roupa muito boa, porém, fora de moda, como um rei que ainda não soubesse que o seu reinado ficara, há muito, lá atrás – lembro-me de enormes botões dourados, abotoados até o pescoço – Estava sempre muito perfumado. E um detalhe importante, lógico, usava uma bengala. Eu não conseguia tirar os olhos das suas mãos delicadas, das unhas bem cuidadas, do grande e sisudo anel que trazia no dedo mindinho....

Meu sonho era namorar uma normalista

Meu sonho era namorar uma normalista. Isso já tem um tempo. Gostava daqueles uniformes despojados, do andar, do jeito que elas levavam os livros presos ao peito. Quando a sineta tocava feito uma lâmina rasgando as horas, e elas saíam em suas gargalhadas e perdigotos juvenis, eu - já um menino triste - até podia acreditar que o mundo era possível. Vinham, todas elas, para a rua feito um vulcão em erupção, um incêndio na floresta, uma avalanche, e eu - coitado - logo me eriçava na janela em meus anseios de pássaro ainda sem penas. Quando se iam de vez, a tarde voltava ao começo do mundo. Tudo dormia. Meu corpo era apenas um corpo. Nada além disso. Sonhos, mesmo que antigos, resistem em resmungos de bengalas. Sim, ainda sonho namorar uma normalista. Ainda refletem em meus cabelos grisalhos aqueles sorrisos de saia pregueada e olhar azul marinho. Aquele olhar cravado na gente, sem nenhum medo do futuro. Meu sonho não é aleatório. As normalistas sobreviveram à lei 9394/96 e há mais de quare...

Mãe

Mãe, sonhei contigo entre mim e a senhora - oh, quanto tempo não sentia a leveza desta palavra sobre/sob a minha língua: se-nho-ra – havia uma película que deve ser de onde tu me observas assim como fazias quando eu estava no berço e queria teus braços - mãe, quero teus braços hoje – Não era neles que eu me despojava dos meus medos e adormecia em meio ao teu cheiro? Cheiro que só mãe tem. Este amor santo tanto transbordando pelas chagas

ama e amar e amar

Se o fim é inevitável por que amar tanto? Perdoem-me repetir e repetir João Silvério Trevisan. Sim, é que andei lendo-o muito por esses tempos e tudo que ele escreveu parece meu. Não uma coisa minha como um objeto, entende? É mais como um reflexo no espelho. Sei lá. E a pergunta fica que fica. E fura, e fere. Sim, são tantos amores, dores, noites de dúvidas, dádivas e dívidas. Quando sofria por algum amor, costumava dizer; ora, não vale a pena. Logo não estarei mais aqui para lembrar dessa dor. E esta dor logo não terá o meu corpo para erguer o seu monólito. Mas amava e amava, assim como as flores que nascem para os dentes de um lânguido burrinho na modorra da tarde. Amava e amava feito o palhaço despejado que ri e ri. Como pugilistas trocando socos por um troféu barato. Ah, aquela música, aquele cheiro, aquele trevo dentro de um livro de tradução duvidosa, mas que mesmo assim me fez chorar e chorar. Ah, aquele bilhete, aquela carta, um cartão com uma bela letra que já não sei mais a q...

Confesso que tento, pai

Os ponteiros se repetem sobre as horas e você se lembra que tem um compromisso, que precisa tomar um remédio, ou encontrar alguém. Podemos deixar pra lá, declinar, deitar a cabeça no braço macio do sofá e esperar que as horas passem, quer dizer, que os ponteiros passem, porque as horas não saem mesmo do lugar. Enfim, podemos burlar as horas, mas não podemos nos safar das datas no calendário. Tudo já está tão longe, não? a ferida nem incomoda mais, é o que parece. Até esqueço que está ali. Então chega. Estamos presos nesses 365 dias que vão e vêm. Tudo se repetindo como um filme que começa, acaba, recomeça, acaba.... e quando determinada data chega, chega tanta coisa. Então, vem você, Pai. E esta palavra é uma mescla de salgado e doce, é, às vezes, lisa, noutras áspera feito a língua de um gato faminto. Mas eu precisaria de muitas páginas para falar sobre isso. Tentei traduzir em poesia tudo aquilo que não me cabia, que me arranhava, que me insultava, que me cuspia na cara. Quanto beijo...

Não era pra ser uma crônica

Terminei os trabalhos aqui em Itapetininga e agora estou no Butiquim. Estou tomando uma RT166: uma cerveja artesanal da cidade. Estou comendo o bolinho de frango que é o carro-chefe daqui. Uma delícia. Estou lendo as crônicas do Ferreira Gullar, que adoro. Bom, isso daria uma crônica, mas estou com preguiça. Gosto de sair de sampa e me tornar invisível. Fico num canto, sozinho com as coisas que amo. É um sozinho acompanhado. Um estar só ao meu lado. Um falar comigo mesmo e me ouvir e me responder. Um apertar a mão de mim e perguntar como você-eu-estou-está? Gosto desse abandonar-me e estar junto de mim. É quando sou o meu melhor amigo. É quando o grande sentido da vida é o sentido que você dá. É quando penso nos amigos. Aqueles que mesmo distantes estão tão próximos quanto esta cadeira aqui que toco e acaricio como se no rosto dos meus amigos que amo, e amo, e amo. Porque esse amor é esse olhar no espelho de mim mesmo. E é tão raro, tão caro, tão tao. Viver é agora. Intensamente, porqu...

Tanto

Imaginei Tanto Muito Os rios sobre os teus pequenos montes & fendas secretas As tuas mãos ligeiras e úmidas tateando o teu corpo como a tentar reconhecer a geografia da tua carne Tenra Terra Ah, teus pés sólidos sobre os azulejos Deus, quantos anjos não devem ter contemplado Talvez por isso, aquela inércia, não? O sol, na soberba de astro, pelo basculante, acendendo ainda mais os teus olhos acesos de ódio e amor juvenis Imaginei Louco Tonto O esfregado malemolente e preciso Samba cadenciado & úmido As serpentes de água correndo pelos Idílicos países do teu corpo que eu jamais visitaria. Havia sempre um céu nublado para os aviões dos meus anseios que morriam nas solitárias pistas dos meus aeroportos mais ensandecidos de ti, de ti, de ti, de ti...

A vida

a vida é uma coisa linda a vida é tudo há as dores as perdas dói mas há a vida gosto a vida é luz, movimento a vida há esses dias ouvi o coro de crianças nos pátios dos colégios caminhei sentindo o cheiro das damas da noite pensei, se tivesse de morrer, poderia ser agora mas não quero morrer, gosto da vida há dias em que não queremos sair da cama porque estamos demais em nós e nossos nós mas ainda tenho a opção de não sair da cama ou de sair, ou de ir à janela e assobiar tenho vida posso chorar pelos meus posso há também vida nas lágrimas depois, depois vamos com vida a vida é a vida tem pulso, cor, textura a vida é clara febre gosto de sentir o chão pela manhã de ouvir o vizinho em sua labuta gosto do tique-taque da madrugada da pancada do meu jornal na grama gosto da grama de senti-la pinicando a minha mão posso ver, posso ver a minha mão gosto do latido dos cachorros longe de mim tão perto de mim quando sinto a vida o vento pensei num amigo que disse que o pior de morrer era não mai...

Holodomor

é a lua da triste safra anjos despencam do céu sinistro cambaleiam pelas ruas também sinistras a sopa fria a noite fria a carne fria - humana - o gosto dos carvalhos na boca seca sedenta faminta de alimentos, dos tempos idos, de paz & abundância o capim suculento do grande celeiro do mundo nhec-nhec-nhec-nhec o vento a desolação o medo "h o l o d o m o r" é o bafejo pútrido que vem do calabouço e que se espalha pelas vielas vazias dor & dor & dor & dor a esperança é um canto de exortação ...

Gostaria

gostaria de ser como os frutos doces nascem misteriosamente e depois, descansam toda a vida sob uma sombra boa no calor do dia no frio da noite não precisam conversar mostrar sua ignorância ou sabedoria não só descansam no descansar manso de ser fruto doce até que um dia: plac! desprendem-se do galho para o desfrute dos lábios de uma menina bonita.

Tá pronto!

Tenho pensado tanto nela. Por vezes, até sinto a temperatura da sua mão. Meus dedos brincam com seus dedos longos e suas unhas carcomidas. Sentia a força protetora dessa mão toda vez que, de brincadeira, ameaçava uma fuga. Ela prendia a minha como uma águia prende os seus filhotes. Isso quando eu ainda usava calções curtos e meu destino era só ir até a esquina avisar ao velho que o almoço estava pronto. Quando cresci mais e quis fugir daquele amor complicado, daquela casa de proteção de lençóis limpos e comida quente, que foi quando decidi atravessar o continente, senti essas mesmas mãos ajeitando a gola da minha camisa, batendo no meu ombro para tirar uma sujeira inexistente, e até, ajeitando os meus cabelos. Era o seu jeito de dizer que iria chorar se aquilo demorasse mais. Quantas vezes não vi aqueles olhos feito dois lagos cinzas transbordando e inundando a geografia sofrida do seu rosto. Oh, tenho pensado tanto nela. Não importa quanto tempo estou a pisar esse chão. Não importa qu...