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Mostrando postagens de setembro, 2026

o carneio nosso de cada dia

de repente, percebeu que ia morrer e pôs-se a correr   os homens logo o trouxeram de volta    fungava, trêmulo, indefeso         parecia um condenado no corredor da morte - e não era? - seus olhos,         ah, seus olhos... uma vez, Rosa disse algo assim: "olhe nos olhos de um cavalo e verá todo o sofrimento do mundo."    vi esse sofrimento nos olhos de um boi esperava que aquilo terminasse como nos meus filmes de matinê      mas aquilo não era um filme menos ainda com final feliz      era o carneio nosso de cada dia... lembro que chorei e logo ouvi um dos homens dizer:     "tira esse moleque daqui." minha mãe numa obediência silenciosa e enérgica de madre me puxou pelo braço, mas logo me desvencilhei dela         permaneci como ali permaneciam as árvores eu não conseguia tirar os olhos daqueles olhos perdidos               ...

teus braços

sempre houve o desespero desde o primeiro homem mas, naquele tempo, eu tinha 16 anos e morria em teus braços que era onde também morriam as tardes não há desespero que suporte isto:                 morrer como quem vive

as macieiras

quando íamos deitar meu pai não lia para mim — tinha mais o que fazer — minha mãe até que tentava mas era sempre vencida por uma frase longa                                       ou uma palavra difícil somado a isso o cansaço da lida lá de fora, entre um latido ou outro de algum vira-lata, vinha o gemido dos armadores, o baque do pé do velho na parede num impulso para a rede como se num salto                                         para a vida meu pai não leu um livro sequer sabia lá quem era Jim Hawkins ou Sexta-feira — tinha mais o que fazer — Mas lá em casa nunca faltaram livros                                       caíam das árvores - era o que parecia - e as árvores, desconfio, meu pai quem a...