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Mostrando postagens de novembro, 2023

dez liras

dez dedos dez unhas dez liras e não consigo um punhado de ti 32 dentes e é como morder o vácuo um mergulhão num voo desesperado sem presa um coxo a percorrer a tua vereda escura, úmida, movediça -aquilo que nunca é - como contar um sonho ou um pesadelo e nada teus olhos de zinco teus cabelos sobre a cama - hemorragia negra & lisa - boca adaga púrpura o teu ventre terra em t r anse meu cordão umbilical em ti serpente buscando fuga no teu dentro-inferno língua de um anjo louco teus pilares de carne mordendo os meus flancos com a fome de mil mamutes fuga e armadilha armadilha e fuga fuga e armadilha armadilha e fuga uma bolha de suor correndo entre os teus seios pérola derretendo-se em desespero. estamos em guerra? estamos? pois até então sorríamos como dois colegiais fing...

Coisas impossíveis

Quando eu era ainda muito pequeno, meu irmão mais velho me disse que a terra é redonda. Primeiro fiquei espantado, com medo enorme de me mexer e escorregar. Depois, peguei uma tampa de leite Ninho e fui cavar o chão. Cavar, cavar e cavar. Meu irmão, vendo a situação, perguntou-me por que eu estava cavando daquele jeito. No que lhe respondi que eu queria alterar a estrutura do planeta. Não foi bem assim a minha frase, pois ainda não sabia o que era planeta, muito menos, estrutura. Mas foi algo bem próximo disso. Meu irmão caiu na gargalhada e logo me disse que a única coisa que eu iria conseguir era me sujar todo e ainda cortar as mãos, estragar os joelhos. Depois saiu, ainda rindo, e falando alto: "o planeta é imenso, pixaim". Desse momento em diante, acredito, aprendi duas coisas. A primeira foi que há coisas que não podemos mesmo mudar. É e ponto. A outra coisa, acredito ainda mais, foi que daí surgiu a minha curiosidade e consequentemente, a minha vontade de tentar alterar...

Sapatos

Não posso olhar para os sapatos das pessoas que logo me comovo. É. E às vezes vou às lagrimas, a vista embaça, o coração dispara, fecho-me como uma concha. Não me refiro a todos os sapatos, não. Retifico. Comovo-me muito com alguns sapatos. Não com os de crocodilos, aqueles das madames maquiadas e ansiosas, nem com os de duas cores dos homens bem de vida e muito vaidosos. Não falo mesmo dos sapatos que têm como objetivo maior embelezar os pés, pisar no chão acima do chão dos outros. Estes, me irritam. Na verdade, deixam-me furioso. Refiro-me mesmo aos sapatos que são adquiridos para aquecer os pés, para protegê-los ou mesmo para escondê-los. Sim, os pés sofridos, doídos, cansados. Mas estou aqui falando de sapatos, e de minha comoção porque por esses dias fui ao posto de saúde. E quando esperava a enfermeira que iria me vacinar, vi um rapaz? um senhor? Não sei precisar. O que sei é que ele tinha algo ali nele que precisava do constante auxílio da mãe. Tudo que ele precisava fazer ela j...

Me sinto só Só de mim Falo qual língua? Em qual peito bate o meu coração? É esta a campainha da minha porta? Me sento só Pó de mim Sigo qual régua? De qual boca soa a minha voz? É meu este chão que piso? Me pinto só Eu e mim Quem está no espelho? De quem é mesmo esta guerra? É esta a casa que habito? Me sinto só Tão só Sótão de mim.

Uma vez

Um dia percebi minha mãe muito animada. Mas já de cara digo que esta talvez tenha sido a única em toda a sua vida. De certo que não convivi com ela todo o tempo. Há muitos aniversários, batizados, natais sem mim. Hoje, procuro-me nas fotos dessas comemorações e não me acho. E como poderia? Eu passei boa parte da minha vida longe, vagando pelo mundo, atrás daquilo que até hoje não sei o que significa, nem sei o nome, e por isso, também não sei se o consegui de verdade. Às vezes penso que sim, noutras penso que não. É isso. A gangorra de sempre. Mas todo tempo que convivi com ela, eles, a minha família, foi sim essa a única vez que vi minha mãe bem animada. De resto, lembro-me muito bem dela irritadiça, rodando por um grande bolo confeitado, de aniversário ou casamento, sei lá, tentando, mais uma vez dar o seu melhor, mas agora sem a mesma animação à qual já me referi. Quando decidiu confeitar bolos, já estava mais velhinha, cansada, e com certeza, mais triste. - não é isso o que a vida ...

Os inimigos?

Aprendi a amar aquele que eu odiava - eu realmente odiava ou me odiava? - vi o quanto frágil meu inimigo é. Ah, o seu coração acelera, o seu corpo pede ajuda a si mesmo. A voz brutal que vinha dele não era uma afronta, mas sim, um pedido de ajuda, um grito, um apelo. Aprendi a ver aquele que via mais a mim do que eu a ele. O olhar não era de ódio como eu pensava, mas sim de súplica. Já disse. A sua canção, de alguma forma, falava do que eu ansiava. O meu inimigo era o meu melhor amigo. Eu vi a fenda em seu provável ódio. Vi o seu sorriso como vidro quebrado, como o vento que leva a toalha da mesa do aniversário da filha mais nova. Como o terremoto que destrói a casa, como os gafanhotos que devastam a plantação. Vi o sofrimento como uma ferida purulenta. O meu inimigo sofre como eu. Ele tem insônia, tem palpitações, tem medo, conta o tempo que lhe falta. Tem contas a pagar. Sofre quando o braço esquerdo formiga. Sim, no dia seguinte, odeia, vocifera, xinga, mas ele também ama, lembra a ...

Eu escuto você chamar

eu escuto você chamar mas não sei se é a tua voz algo me diz que sim algo me diz que não eu sinto você sentir mas não sei se é o teu sentimento algo me diz que sim algo me diz que não há um muro entre nós? quem o construiu? éramos um só, não? eu sinto o teu toque mas não sei se são das tuas mãos algo me diz que sim algo me diz que não eu minto a morte. mas não sei se isso está certo algo me diz que sim algo me diz que não parecemos tão pertos é isso mesmo? se sim, o que realmente, nos separa? sigo com a vida. - e você? - mas não sei se isso é a vida. algo me diz que sim algo me diz que não

Os Dez Mandamentos

Já se passaram muitos anos e ainda me lembro muito bem da fachada do cinema. Ficava na esquina, trazia um R bem grande, no centro de um triângulo ainda maior, vermelhos, os dois. O resto todo branco, feito um hospital. Foi neste cinema que assisti dez vezes aos Dez Mandamentos. Sim, dez vezes. Passava a semana juntando moedas pra fazer o valor da entrada. As moedas viravam cédulas menores, as menores tornavam-se graúdas e assim, eu ia. Ainda sobrava uns trocados para um pacotinho de jujubas. Sentava-me bem no meio da plateia. Até hoje faço isso, sento-me bem no meio. Nem próximo da tela, nem longe dela, no meio. Escorrego um pouco no assento macio como quem vai desaparecer por ali, fixo o olhar na tela e vou abrindo o meu pacote de jujubas num estalinho melancólico e sonoro. A tarde ia mudando de sabor. Ora cereja, morango, hortelã, ora abacaxi... e por aí vai. De repente a tela desperta em cores e movimentos. O som entra como num trovão. Vem o comercial, que já sei de cor, pois vi o f...

Os hospitais

Os hospitais são universos à parte. Têm suas próprias diretrizes, ritmos, rotinas, cores e cheiros. O branco nem sempre é branco e o cheiro nem sempre é daquilo que achamos que é. Numa comparação radical, porém, válida, os hospitais são como as cadeias, mas destas não posso falar, pois nunca vivi em nenhuma delas. Pelo menos, até então. E nas cadeias ficamos por outros motivos, apesar de que, assim como nos hospitais, também contra a nossa vontade. De alguma forma estamos presos, e, nos hospitais, a sentença é o nosso corpo. Tive um amigo ateu que dizia que preferia entrar numa igreja a entrar num hospital. Costumava dizer que numa igreja ele ainda saía inteiro, ainda mais sólido em sua descrença, mas de um hospital, ninguém sai ileso. Deixamos sempre algo de nós ali dentro. Mas por que desandei a falar de hospital? Agora já nem sei. Ah, sim, durante boa parte da minha vida vivi em alguns hospitais. Começou com um sarampo que quase me levou e, depois, vez em quando surgia alguma coisin...

Tarde triste

tarde triste gota que nunca cai lâmpada velha piscando vento de venta adunca de velho-canalha a ausência feito navio longe indo sem ir corpo - meu? - boiando no grande rio da existência tudo parte, nunca volta como as folhas dos galhos meu-coração-arbusto rolando pelas ruas vazias do meu velho-oeste juvenil poeira pó triste tarde porta que nunca sabre cerâmica velha quebrada fio de vela velando a vida-mortalha a ausência feito o sol alto indo sem ir valha-me vida-odisseia dez anos é o tempo desta tarde triste que ainda arde

As pastilhas

Há inúmeras madeleines, diversos paralelepípedos desalinhados, e várias sensações da colher tocando o céu da boca. Refiro-me à memória involuntária e ao universo sinestésico no qual estamos imersos e sujeitos. Qualquer coisa, mínima que seja, pode disparar algo em nós e nos levar para mundos há muito habitados e posteriormente, esquecidos. Esquecidos? Descendo a rua, vindo da academia, me deparei com alguns ladrilhos. Qualquer pessoa que olhasse aquilo não daria muita trela. Lixo apenas, diria. Mas eu não poderia dizer isso. Parei a caminhada e recolhi alguns daqueles ladrilhos como um antropólogo recolhendo ossos milenares. Logo tinha em minhas mãos algumas pastilhinhas que quando criança costumava morder. Até colocava na boca para desespero da minha mãe que morria de medo de que eu engolisse uma delas. Agora eu estava correndo por entre as valas do colégio em construção. Não eu exatamente. Na verdade, eu estava ainda parado na rua e encantado com as pastilhas nas mãos. Quem corria pe...