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Mostrando postagens de dezembro, 2022

da janela

assim como um dia, Clarice voltou à terra onde criou-se, e por algumas horas, da janela do velho hotel, contemplou a pequena pletzele, eu também, em outra terra, da janela de outro hotel contemplei a pracinha, os pequenos jardins, os taxistas sorrindo com mais malícia do que dentes flertando com as empregadas domésticas, vi a malemolência da tarde sentada num banco feito uma mulher obesa assim como Clarice, por um bom tempo - sabe-se lá quanto - debruçada na janela olhou a menininha eu também olhei o menininho olhei e olhei ele corria ali olhei tanto, tanto, acho, que meus sapatos cresceram, que minhas roupas afrouxaram, que meus membros afinaram foi quando senti vontade de puxar carrinhos, de soltar pipas. e de também chorar choro silencioso e sozinho, sem lágrimas, seco feito o solo da terra que nos acolheu

Como se dos teus pés nascessem rios

banhando-se ali tão longe, tão perto no corpo água escondendo-se encantada delineando palacetes delicados, sedentos famintos banhando-se ali ali tão perto, tão longe no corpo água movendo-se santificada - ou seria bestificada? - escorrendo ligeira pelo piso como se dos teus pés nascessem rios o nosso sol no nosso zênite avalanche da vertigem o momento meus olhos em mim, em você - onde mais? - o ranger das cordas do meu feroz alaúde eis, então, os cantos loucos dos galos de Ática e depois, minhas mãos trêmulas, úmidas perplexas como se cúmplices de um crime

Mesmo assim, era bom.

Depois do jantar, íamos para a calçada falar sobre o novo disco do Ednardo, do Belchior, do Caetano. Esperávamos semanas por uma carta. - algumas nunca chegaram - Conhecíamos os nomes de todos na rua Até onde podíamos, escondíamos as nossas mazelas Sozinhos, sob os cobertores, chorávamos os amores impossíveis Na adolescência, comprávamos revistas duvidosas, e com mãos trêmulas, de culpas e desejos, rasgávamos o plástico e então, elas apareciam numa nudez escondida. Mexíamos as páginas no afã de vê-las ainda mais. Falávamos com elas, doía a solidão de papel. Os pais tão novos, tão vivos nos prometendo aquilo que nunca cumpririam. Menino, vem jantar! Era minha mãe cheirando a alho e óleo. Meu pai cheirando a trim minha irmã chorando com as pontas dos lápis que sempre quebravam Dorothy Lamour na radiolinha vermelha A casa velha cansada de nós Eu gostava das goteiras. Ora, podia, da minha cama, ver a lua vazando por elas feito o olho gordo das promessas sem futuro. Eu não acreditava. Prefe...