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Mostrando postagens de junho, 2025

tentando

tentando me achar nesta canção feito alguém procurando se reconhecer numa foto de há muito sei que estou ali na canção que me traz em ondas feito vozes num vento a cabeça é a mesma num travesseiro novo numa casa nova me perco entre o quarto e a sala meus amores esquecidos caem dos bolsos feito moedas sem nenhum poder de barganha tentando me achar nesta canção como o som de sempre numa nova torneira pingando feito a insistência da vida os pés são os mesmos nos sapatos novos numa outra rua me perco entre mim e eu meus heróis trocaram as lanças e as espadas pela garantia de ir à Disneylândia uma vez por ano tentando ainda me achar nesta canção como um cão buscando reconhecer o seu dono num assobio de um estranho

biografia mínima de uma longa espera

Manuel Bandeira contraiu tuberculose em 1904 um dia, temendo a morte, perguntou ao seu médico quanto tempo de vida tinha o médico, otimista, disse-lhe que cinco, dez, quem sabe quinze anos, né? afinal, Bandeira não tinha mais bacilos, comia bem e dormia que era uma beleza apesar disso, vivia que vivia a esperar a Indesejada das Gentes só que com a casa limpa, a mesa posta e com cada coisa em seu lugar então, morre sua mãe publica As Cinzas das Horas morre a irmã, sua enfermeira desde 1904 publica Carnaval morre seu pai Os sapos, um de seus poemas, é lido na Semana de Arte Moderna de 22 morre seu irmão Publica Poesias Publica outros tantos livros gasta o que não tem com os livros, não com ele é eleito para a Academia Brasileira de Letras candidata-se a deputado mas não se elege - não se pode ganhar todas, principalmente quando já nasce perdendo – continua publicando ...

os sinos

ainda badalam os sinos das igrejas? acho que é isso que ouço ao longe como o atrito de metais pode resultar em canção tão linda? por que sinto isso com os sinos das igrejas? não é nada de religião, não acredito que tem a ver com o espanto de uma tarde da poeira que se espalhava, da melancolia das portas e janelas das velhas casas. sinto meu pés no chão, seixos entre os dedos, o vento nos cabelos aprendi ali que a esperança é algo desolador então, penso que os sinos, essa canção de aço que ouço ao longe, me traz essa esperança que descobri e que a deixei, logo em seguida, pelo caminho, como quem abandona uma roupa que não mais o veste.

a luz que um dia iluminou os cabelos de minha mãe

lembro-me de uma luz que um dia iluminou os cabelos de minha mãe esta, sem desconfiar nadinha, em sua resignação de sempre, catava feijão, enquanto aquela luz, vinda de tão longe, pousou nos seus cabelos desgrenhados como se buscasse um lugar para descansar eu, paralisado, rezava para que nenhuma nuvem desavisada cruzasse o caminho daquela luz tampouco alguém chegasse e quebrasse o espanto do dia trazendo-me para a realidade e seus tantos braços de concreto quando a angústia, este lince sempre à espreita, com olhos luminescentes, em passos mansos e precisos aproxima-se logo busco a luz que um dia iluminou os cabelos de minha mãe - é quando sinto o animal hesitar - mas isso não demora muito - as lembranças têm vida própria - navega pelas minhas pálpebras feito um barco ao longe e logo some então, o lince vem e faz a festa