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a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia.

O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha infância. Xingava tudo em volta para que ninguém notasse o seu coração mole. Enchia-nos de repreensões, de xingamentos, mas ai daquele que mexesse com a sua prole: trazia-nos para perto, como faz uma galinha com os seus pintinhos, estufava o peito de pombo e dizia: “com meus filhos não, violão”.

Dias antes, meu pai, suando em bicas, a martelar pregos, a consertar goteiras, a cortar o mato do quintal e a nos pedir uma coisa e outra: “é pra hoje?”. Aquele homenzarrão, no telhado, a mexer na antena da tevê e, lá de cima: “melhorou a imagem?”. E nós cá embaixo: “não”. Ele mexendo novamente: “e agora, frangos?”. E nós, com pernas de flamingo, para fora e para dentro da casa: “não”. Até que num determinado momento, para o alívio geral dos frangos: “sim”. E o nosso pai a descer do telhado numa agilidade do menino que fora um dia.

Depois ali, num silêncio frio, numa imobilidade doída, num sono tão profundo que nem os constantes aviões que sobrevoavam a nossa casa, a ponto de quase arrancar o telhado, conseguiam despertá-lo dos hipnóticos cantos da sirena finitude. Lembro-me também de que, no dia de sua partida, vi suas roupas — que ele havia usado dias antes — balançando tristes no varal. O que são as roupas sem a pessoa dentro? Ali, aquelas calças gigantescas a dobrar o varal. Aquelas camisas que eu, quando criança, vestia e elas iam até os meus pés e que, por isso, minha mãe, rindo à beça, chamava-me de espantalho: “oh, espantalho véio”. Vi o barbeador fora do estojo – coisa que meu pai nunca esquecia de guardar – como se sozinho tivesse saído de onde devia estar para também protestar contra a insanidade daquele dia.

Mas eu falava do meu irmão. É que foram mortes tão próximas. Separadas apenas por um fio de cabelo. Sim, falava do meu irmão. Dizia que não fui ao enterro dele. Reforço que não estou a explicar nada – e isso se explica? – mas quem gosta de enterros? Penso que só as carpideiras com as suas tristezas e os seus prantos fingidos. Mas isso já é lá outra história; é o ganha pão delas. Além do mais, eu não tinha sequer um tiquinho de força para encarar outra daquela, já disse. Naquele tempo, sentia-me feito as pálidas gelatinas da minha tia a tremularem no pires.

Tantos anos já se passaram e ainda acordo no meio da noite com um grito que vaza do emaranhado das minhas inquietações. Ou me remexo na cama a ponto de a minha companheira me perguntar o que acontece. E diz ela, pois não me lembro de nada no dia seguinte, que apenas respondo: “vou ao enterro do meu irmão”, enquanto tento vestir a camisa por uma das mangas.

Dias antes, meu irmão a sonhar com países distantes, abraçado a sua paixão desenfreada pela vizinha. Esta que pisava em seu orgulho como quem amassa uma bituca. Oh, meu irmão a montar o seu quebra-cabeça de três mil peças, da Grow, comprado no crediário, em sei lá quantas prestações, e eu em seu ombro, feito um papagaio de pirata, a dizer: “acho que não é essa peça, é aquela ali”. E ele a tentar e a tentar encaixar aquelas coisinhas como assim fazia com as peças da sua vida difícil e breve. Depois que conseguiu montar tudo, uma luta de meses, colocou um vidro e uma moldura, depois o prendeu na parede. Era um dos seus poucos orgulhos. Se é que ele tinha orgulho de alguma coisa. Na verdade, é o que penso, era um santo a desfiar um velho terço e a pedir coisas impossíveis a um Deus indiferente. 

E depois, quando esperamos que ele fosse recompensado, partiu de vez. Exatamente no momento em que tinha atravessado todo um deserto e agora, quem sabe, viria um oásis, pequeno que fosse, para enfim, descansar a alma mutilada e molhar a língua sedenta de sonhos ressequidos. E Deus permaneceu indiferente como sempre. Sequer se ofereceu para também carregar a alça do caixão. Apesar de que - foi o que disseram - não precisaram Dele. Foram tantas mãos, tantas mãos. Mas sobre isso não posso falar de Deus dado que eu também não estava lá.

Quando, anos depois, voltei à velha casa dos meus, vi o quebra-cabeça ainda na parede. Que vontade me deu de quebrar o vidro, desordenar todas aquelas pecinhas e dizer: "vem, mano, montar tudo de novo. Estarei aqui em teu ombro a falar do que não sei”. Podia também dizer: "vem pai, xingar o relojoeiro da loja Hora Certa, que supostamente havia consertado o teu relógio mas, para teu espanto - aquele veaco! - os ponteiros do velho Technos continuavam parados feito duas senhorinhas esperando que alguém as auxiliasse na travessia da rua. Vem xingar a vizinha que te pedia para jogar num determinado bicho quando, na verdade, era o que era, davam todos os outros, do primeiro ao quinto, menos o que ela havia sonhado". Por que continuava jogando, hein, pai? Sei, teu coração, teu coração."

O fato é que, sobre o meu velho, sinto que o sepultei. Que, definitiva e mansamente, deixei o que tinha de deixar naquele lugar onde só as folhas secas levadas pelo vento parecem ter vida. Lá onde a tarde cai como uma oração para aqueles que já não mais a podem ouvir. Sobre o meu irmão, sinto-o, confesso, insepulto. E talvez por isso, tenho a mania – aqueles que me conhecem sabem – de trazer a mão direita fechada, como se carregasse, ad infinitum, a alça fria do peso da sua ausência.

 

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