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Poema do meu livro Esta Vida ou Outra Invenção - reynaldo bessa

Nasci no sertão
onde o sol, ao meio dia, deixava tudo
envolto em uma
aura fantasmagórica.
Mas boa parte da minha vida
vivi sentindo o cheiro do mar
- todo final de tarde, ele vinha,
numa brisa leve, tentar atenuar os augúrios –
Mas para vê-lo, ali, feito um cão
raivoso mordendo o azul,
eu tinha de arranjar dinheiro para quatro
conduções, e isso não era lá muito fácil.
Podia também passar por baixo da
catraca quando o cobrador estivesse distraído ou
mesmo quando ele se estivesse num dia bom,
mas isso também não era lá nada fácil
- e o que era? -
Seus olhos eram como dois ratinhos. Ele fingia contar o dinheiro,
quando na verdade, estava com os olhos nas meninas que,
empinadas, deslizavam naquela
catraca ruidosa e ensebada
Vez em quando, porque a Física
sempre foi rígida em suas leis, havia um bate-boca,
um arranca-rabo, e nisso, o ônibus ficava
ainda menor: uns desciam, outros aproveitavam para subir
de graça. No final, todos estavam rindo
sob o céu azul mais azul do mundo: eu ainda não
conhecia quase nada além do meu bairro
Alguns iam se embebedar, perder-se,
outros iam encontrar novos amantes, novas histórias,
trocar socos com alguns desafetos, mas
no final, todos voltariam para suas casas de sempre.
Afora um ou outro que se afogara, claro.
Os que haviam sobrevivido àquela
epopeia, dias depois, traziam no corpo o orgulho de ver a
pele soltando, porque aquilo significava
que eles tinham ido ver o mar, e isso não era lá uma
coisa muito fácil – e algum dia fora? –
Eu corria saltitando na areia quente
e sei lá por que com os meus chinelos nas mãos
– acho que era pelo receio de que soltassem
as tiras – e procurava uma sombra na pedra.
Eu olhava o cais do Mucuripe tão perto
e tão longe feito o sonho da noite passada.
Olhava tudo e sentia meu peito arfar, crescer,
inflar-se de Futuro.
Sentia-me grande, muito grande
Maior que a Loira Desposada do Sol

- Esta Vida ou Outra Invenção - reynaldo bessa

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