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Crônica do futuro passado

Em feiras e festas literárias, bate-papos com aspirantes a escritores, estudantes etc. nos quais participo todos os anos, há sempre uma pergunta que salta da plateia e que, primeiramente, causa silêncio, para logo em seguida se tornar um frisson: “o livro em seu formato físico vai acabar?”. E com algumas variantes, dou a mesma resposta. Quero dizer, faço outra pergunta: “o que você diz por “acabar?”. Desaparecer completamente do mundo, assim como algumas civilizações? Brincando digo que ainda convivemos com a Pedra de Roseta, os hieróglifos, os livros escritos na idade média. Convivemos com o rádio, a tv, a fotografia, o cinema. Até encontramos fichas telefônicas por aí. Reforço que há inúmeros colecionadores em busca de livros raros. E que enquanto mais raros, ainda melhor. O que sei é que há alguns livros muito bons, e muitos livros ruins. Quanto aos últimos, seu próprio código interno e natural elimina-os. Para estes não há a necessidade de uma "ameaça" digital, que seja. Para os bons, bom, pesquisem porque Cervantes, Chaucer, Quevedo, Camões, Shakespeare, Dante são tão atuais. Procurem saber por que se fala tanto neles, porque seus nomes são sempre demasiado citados no curso da história. Seria banal demais, irresponsável demais, não? Arrastar esses nomes por séculos e séculos se não possuíssem uma qualidade inerente. Por qualidade, refiro-me à possibilidade da compreensão de nós mesmos, do mundo, dos outros. Conhecer o mundo, não para superá-lo, mas para fortalecer essa relação de alteridade. Decidimos utilizar os braços não apenas para ficar em pé, mas porque percebemos a necessidade de criar ferramentas para explorar as coisas à nossa volta, e as criamos. Então, não usamos as duas mãos apenas para sustentar o livro, mas para apreender a vida que pulsa ali e que tem relação com o que somos.

       Bom, pode ser que o livro físico desapareça. Pode ser que as crianças do futuro nasçam privadas do cheiro bom das páginas velhas, do cheiro estimulante do livro novo. Pode ser que estas crianças até desconheçam completamente, uma traça. Apesar de confessar que eu mesmo desconheço este serzinho que, aparentemente, parado devora livros e mais livros. Mas sei o que ele é, pois quando compro livros em sebos – e como adoro os sebos. Penso que se existe um lugar que pode, com todo seu pó e mistério, converter-me, este lugar é o sebo – encontro traças, e penso que o mundo ainda anda firme, assim como encontrar um bicho na goiaba, nos diz que a fruta não contém veneno.

       Analogias à parte, pode ser que o livro desapareça. Pode ser que a geração do futuro não chegue a conhecer o delicioso ritual físico e mental que é o virar de uma página, enquanto estamos completamente absortos na leitura, a ponto de nem perceber o pequenino/grandioso gesto. Mas será isso o mais importante? Sou da geração que degusta os livros com os olhos e com a língua. Muitas vezes sinto vogais, consoantes, sentenças, parágrafos inteiros pululando em minha boca. Cada virada de página é uma fatia de uma história, de uma vida. Isso vai levando-nos ao fim que, na verdade, é o começo. Então, aproveito para dizer que na grande literatura não há spoiler. - porque eles são muito preocupados com isso - Sempre que releio os livros de Machado, nunca sei, na verdade, como eles terminam. Já reli sei lá quantas vezes “As Aventuras de Augie March, de Saul Bellow”, como muitos outros, e o prazer é sempre novo, às vezes até mais, mas nunca me lembro como terminam. Não sabemos o final desses livros, porque eles nunca terminam, são reescritos constantemente em nossa mente. São grandiosos demais. Esses livros, de uma forma ou de outra, perdurarão.

       Saímos da escrita cuneiforme, para o alfabeto grego, árabe. Saímos da argila para o écran dos dispositivos mais sofisticados. Saímos da leitura em voz alta para a silenciosa. Cada um com seu jeito, tempo e gosto. Cada um de nós em seu canto particular de ser, assim como São Jerônimo em sua cela. Pode ser que mesmo os grandes livros, em seu formato tradicional, desapareçam. Já disse, mas, apesar de alguns discursos ensandecidos, apesar do apego, da resistência ao que virá, o formato não é mesmo o que conta. Um dia teremos que migrar do formato digital para um outro que, provavelmente, surgirá – então, chamaremos o formato digital de tradicional? – que seja. Contanto que a curiosidade, o desejo de conhecer o que nos cerca, a vontade de saber, a leitura do mundo e da palavra, e principalmente, o prazer, permaneçam. Só assim, independentemente, do recurso utilizado, continuaremos evoluindo. E que seja para o melhor.

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