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Borboletas no estômago

Nos finais de semana, ela costumava vir ao meu apartamento. Estava naquela fase entre ser e não ser; quando a adolescência se desvanece e um novo jeito de viver se apresenta. Havia medo e vislumbre. Para ela o mundo ainda não era cheio de labirintos - o meu já estava por demais - Chegava com um sorriso desconfiado, em passos leves, porém decididos. Como um animalzinho que já anseia a armadilha. Eram dois dias como um ano no paraíso. No seu jeito de menina, entre uma garfada alegre e outra, dizia que tinha borboletas no estômago. Como uma morte boa. Mãos frias nas costas. Eu a escutava. Não dizia, mas ela enchia meu coração de pássaros. Era como uma vida possível. Mãos quentes nos cabelos.

No sábado, depois do almoço, quando ela dormia atravessada na cama como se num bote à deriva, como uma rainha cansada, eu zanzava pelo quarto. O coração povoado e órfão. Sentimentos que se misturavam aos pássaros. Sempre um som rasgado de uma moto potente disparava na avenida, e depois o silêncio de novo. Fizemos promessas, muitas. Eram como tentativas de descrever pessoas que ainda não existiam. Mas esses sentimentos não pedem sempre promessas impossíveis? E todo o presente já não basta?

Nossa história virou um obelisco no deserto. Ao seu redor, o vento arrasta arbustos secos. Assobia. A cama, sozinha, vazia, segue à deriva. Absorto em minhas fugas, em objetivos que talvez não mais os almeje – indo pelo simples fato de ir – vez em quando a moto com seu som rasgado e potente rasga o sábado ao meio, e logo depois, o silêncio. O mesmo silêncio que é outro. Isso logo me leva para aquele tempo. Então, meu coração povoado e órfão - sem pássaros - sussurra como se de forma sutil, dissesse-me: estou aqui. Ainda existo. Rio. É aquele riso que só vem com o tempo. Sem pulos. Degrau a degrau. É a contínua – e nem sempre bem-vinda - subida na mística e longa escada do tempo. O fim que nunca acaba.

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