Pular para o conteúdo principal

De onde vim

DE ONDE VIM (Reynaldo Bessa)

Posso rodar o planeta
Ficar de galho em galho
Posso seguir linha reta
Ou pegar algum atalho
Posso viajar o mundo
Ficar de salto em salto
Posso mergulhar bem fundo
Ou viver bem lá no alto
Posso cruzar a terra
Posso até ir à guerra
Posso descer a serra
Posso ter tudo ou até mesmo nenhum vintém
Mas uma coisa não posso
meu bem
É esquecer de onde vim
Posso conquistar o espaço
Fazer o que der de veneta
Posso traçar o meu traço
Ou rodar que nem carrapeta
Posso viajar mil milhas
Ficar num vai-e-não-vai
Posso morar nas Antilhas
Ou até mesmo em Xangai
Posso visitar a lua
Posso morar na rua
Posso cair na tua
Posso ser um rei ou até mesmo um zé ninguém
Mas uma coisa não posso
meu bem
É esquecer de onde vim
Posso ir a Antares
Andar de Gaia em Gaia
Posso invadir os mares
Ou mesmo morrer na praia
Posso, sim, eu sei que posso
Viver o que me cabe
Seja no fundo do poço
Ou que nem um sheik árabe
Posso pensar em voltar
Posso até não pensar
Posso ficar-não-ficar
Posso morrer jovem ou viver mais que Matusalém
Mas uma coisa não posso
meu bem
É esquecer de onde vim

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...