De tempos em tempos, gosto de visitar velhas e abarrotadas gavetas. Não é uma viagem doída apenas. É um tipo de dor revestida por algum tipo de prazer. Como uma arma afiada, pontiaguda, envolta em um tecido aveludado. Como uma carta infame dentro de um envelope, onde crianças costumam guardar seus desenhos, garatujas, entre outras coisas.
Olho as pessoas e tento pronunciar seus nomes, aperto os olhos e procuro adivinhar os lugares onde estão. Sobre os que estão ainda vivos – quase nenhum – tento comparar suas atuais figuras distorcidas pelo tempo e percebo o quão difícil é encaixá-las naquelas que, de tão vivas e ativas, parecem querer saltar das fotos. E pensar que enquanto elas e eles estavam ali, com seus corpos úmidos sob seus maiôs e biquínis estranhos, com seus anseios tão antigos e tão atuais, eu nem imaginava que um dia eu seguraria estas fotos, enquanto o meu coração agita-se feito um pássaro engaiolado, que enfim, encontra-se diante da porta aberta.
Minha mãe e meu pai ainda são jovens, e o futuro é apenas um guarda-chuva num dia de sol e céu azul. Tias se abraçam fortemente aos seus maridos como se já tentassem evitar que eles fossem embora. Esses abraços, com o tempo, foram perdendo a força e, hoje sei que alguns maridos acabaram se indo de vez. Olhar a foto é como se eu os trouxesse de volta para elas.
Avós em suas cadeiras de balanço como se um pequeno descanso fosse um pecado. Quando fecho a gaveta e decido fazer outras coisas – por exemplo, olhar para a verdadeira vida que me cerca – sinto-me cansado e vazio. Há um choro seco e o coração é como um corcel que repousa após uma desabalada carreira. Mas me sinto também aliviado, como um homem que, ao retornar de uma longa viagem, decidiu abandonar suas pesadas malas pesadas numa estação qualquer.
Comentários
Postar um comentário