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O Nada

No dia seguinte, bem cedo, acordei e ouvi um barulho. Era Nina. Estava no banheiro. A cabeça dentro do sanitário. Vomitava. Não como alguém que comeu algo ruim e quer colocá-lo para fora, mas sim, como se quisesse trazê-lo de volta. Estava ainda muito pálida. Por um momento achei que ela havia cortado a boca, a garganta, quebrado um dente. Mas era apenas parte do processo macabro. E havia também toda aquela tristeza como se fôssemos anjos caídos, recém-expulsos do paraíso, como se tivessem nos retirado à força de uma festa. Não conseguíamos habitar a casa. Zanzávamos por ela, que parecia maior e mais escura. Nina dizia que não era apenas a dor no corpo. O pior era a dor na alma. Aquele vazio pulsando. Intangível, porém concreto como uma peça de chumbo. Ela ainda sentia dedos feito garras arrancando as raízes de carne, a vida resistindo em silêncio. Ainda via o médico, de cenho franzido, olhando dentro dela como quem confere algo no forno ou na geladeira. Ela querendo parar, mas já sem forças como se invadida por uma morte boa, como quem peca e logo é perdoado, como quem é esquecido de vez e deixado de vez em paz. Até que veio o escuro, o silêncio, e nada mais era nada.

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