Pular para o conteúdo principal

Além das molduras

Desfiz-me de todas as fotos antigas. E penso que demorei muito tempo para fazer isso. Arrastamos, sei lá por que, essas imagens durante boa parte da nossa vida. Insistimos em mantê-las como se pudéssemos recorrer a elas numa tentativa de resgate de nós mesmos. Fazemos isso como beatos em suas crenças, como monges em seus hábitos surrados, como kamikazes em seus voos rasantes. Acho que é porque temos a impressão de que se nos desfizermos delas poderemos nos desintegrar no tempo-espaço. Ora, o que fomos, fomos. E o que nos tornamos não é pior, é apenas, digamos, diferente. Sim, é certo que perdemos boa cota da nossa ingenuidade, e alguns sonhos pereceram. Sim, também a aposta no futuro já não é mais tão alta, e a esperança perdeu um pouco da sua elasticidade, cor, é certo - E quem duvida disso? - Mas o fato é que ganhamos outras tantas coisas. Coisas que nos ajudaram a refletir, tornaram-nos mais fortes, e quem sabe até melhores, não?

         Desfiz-me de todas as minhas fotos antigas porque cansei de mirá-las na busca contínua de habitar o inabitável - e eu já deveria saber disso - e porque não queria mais me curvar ao peso das grandes ausências. E isso se repete como num feitiço do tempo. Apesar dos sorrisos lindos, das roupas e dos jeitos divertidos que sempre me põem a rir, - "que bigode é esse, meu deus. E essa bermuda. Valei-me! E esse cabelo?" - apesar dos olhares cheios de ternura e proteção, chega. Chega dessas odisseias em papel carcomido. Chega. Quero, neste momento, e daqui por diante, sentir a rigidez crua do chão que piso agora. Este tempo que é meu e do qual não escaparei. Quero arrastar o peso da flor do meu corpo, e apenas isso.

        Fácil? Não - e nunca é - e obviamente, não fiz isso de forma aleatória. - E como poderia? - Fiz como os indianos – ou como assim também o faz uma tribo indígena do interior dos Estados Unidos - quando querem que algo permaneça vivo, devolvem-no a um dos elementos essenciais à vida: o fogo. Sim, armei uma grande pira. A cada estalo, a cada fagulha, a cada chama, confesso, adquiria a certeza de que as pessoas caras a nós não podem ficar presas no espaço claustrofóbico das molduras. Não podem permanecer congeladas no tempo. Mesmo que sejam em sorrisos lindos e roupas divertidas. Não. São grandiosas demais. Devem voltar para lugar ao qual pertencem: a imensidão.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...