Desfiz-me de todas as fotos antigas. E penso que demorei muito tempo para fazer isso. Arrastamos, sei lá por que, essas imagens durante boa parte da nossa vida. Insistimos em mantê-las como se pudéssemos recorrer a elas numa tentativa de resgate de nós mesmos. Fazemos isso como beatos em suas crenças, como monges em seus hábitos surrados, como kamikazes em seus voos rasantes. Acho que é porque temos a impressão de que se nos desfizermos delas poderemos nos desintegrar no tempo-espaço. Ora, o que fomos, fomos. E o que nos tornamos não é pior, é apenas, digamos, diferente. Sim, é certo que perdemos boa cota da nossa ingenuidade, e alguns sonhos pereceram. Sim, também a aposta no futuro já não é mais tão alta, e a esperança perdeu um pouco da sua elasticidade, cor, é certo - E quem duvida disso? - Mas o fato é que ganhamos outras tantas coisas. Coisas que nos ajudaram a refletir, tornaram-nos mais fortes, e quem sabe até melhores, não?
Desfiz-me de todas as minhas fotos antigas porque cansei de mirá-las na busca contínua de habitar o inabitável - e eu já deveria saber disso - e porque não queria mais me curvar ao peso das grandes ausências. E isso se repete como num feitiço do tempo. Apesar dos sorrisos lindos, das roupas e dos jeitos divertidos que sempre me põem a rir, - "que bigode é esse, meu deus. E essa bermuda. Valei-me! E esse cabelo?" - apesar dos olhares cheios de ternura e proteção, chega. Chega dessas odisseias em papel carcomido. Chega. Quero, neste momento, e daqui por diante, sentir a rigidez crua do chão que piso agora. Este tempo que é meu e do qual não escaparei. Quero arrastar o peso da flor do meu corpo, e apenas isso.
Fácil? Não - e nunca é - e obviamente,
não fiz isso de forma aleatória. - E como poderia? - Fiz como os indianos – ou
como assim também o faz uma tribo indígena do interior dos Estados Unidos -
quando querem que algo permaneça vivo, devolvem-no a um dos elementos essenciais à vida: o fogo. Sim, armei uma grande pira. A cada estalo, a cada
fagulha, a cada chama, confesso, adquiria a certeza de que as pessoas caras a
nós não podem ficar presas no espaço claustrofóbico das molduras. Não podem permanecer
congeladas no tempo. Mesmo que sejam em sorrisos lindos e roupas divertidas.
Não. São grandiosas demais. Devem voltar para lugar ao qual pertencem:
a imensidão.
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