Não é com a força que se vence uma luta, mas sim com astúcia. Com força pode-se eliminar o adversário, mas eliminar não é vencer. No mito de Hércules, quando este teve de lutar com Anteu, precisou saber o que, durante a luta, fortalecia o adversário. Descobrindo isso, obteve a vitória. Todas às vezes que Hércules derrubava Anteu, este, em contato com a terra, adquiria ainda mais força. A terra era a sua fonte. Quando soube disso, ergueu Anteu no ar e o inimigo definhou até morrer. Foi com inteligência que os Olimpianos destruíram os Titãs (só possuíam força). Foi com astúcia que Odisseu venceu Polifemo.
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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