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O velho e o ovo

 Vez em quando, sinto uma vontade danada de comer ovo cozido. Não necessariamente pela fome, e ainda menos pelo sabor do ovo - sempre achei que não possui sabor algum – mas por me lembrar da minha admiração diante do ritual utilizado pelo meu pai quando queria comer um, ou dois - quando muito animado – três, ou até quatro.

Havia o tempo certo de os cozer. Se por um acaso a gema ficasse muito mole, ele cozeria outro. Aquela coisa amarelinha tinha de ficar durinha igual a parte branca, macia e firme que a envolvia. Sendo assim, perfeito.
Sentava-se à mesa como se definitivamente, tivesse encontrado o seu lugar no mundo – lugar que, na verdade, nunca o encontrou – então, cortava ao meio o primeiro ovo. Um ato violento, porém, sem ruído algum - como a luz do primeiro sol abrindo a manhã – Com as metades feito dois olhos pálidos sobre a mesa e mirando o teto, logo os dedos - polegar e indicador – estavam dentro do saleiro como um passarinho bicando a terra. Depois o espalhar do sal sobre a primeira metade num manejo de alquimista.
Agora vinha a melhor parte: quando ele erguia a metade daquela coisa branca e amarela com pitadinhas de sal e a levava em direção a boca, eu olhava para os lados, como a pensar que o mundo inteiro havia parado para olhar aquilo - pena que, na verdade, não havia, ninguém, além de mim, olhando o ritual. Mas deveria – A mão indo em direção a boca, num gesto teatral remetia-me ao padre Juraci, quando aos domingos, na missa, de olhos fechados, erguia a hóstia e o cálice, e falava baixinho. Com exceção de falar baixinho, era uma coisa assim, quando meu pai estava prestes a devorar a primeira metade. Faria a mesmíssima coisa com as outras. E eu ali, em completa epifania.
Essa vontade danada de comer ovo cozido, que sinto vez ou outra – como exatamente, agora - Não é por fome, ou ainda menos para sentir o sabor do ovo - ainda penso que não possui sabor algum - É apenas mais uma forma de sentir e externar a saudade. Como um índio que dança e canta em volta da fogueira para evocar os seus ancestrais.

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