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Que o Natal chegue logo!

     Neste Natal não vou comprar roupa. Vou me comprar um brinquedo. Minha mãe costumava nos perguntar “roupa ou brinquedo?” E desde cedo, eu dizia: "binquedo". E depois "brincredo", e depois "brinquedo", e depois – quando ingressei no mundo adulto e chato – disse: “roupa”. 
        Vou entrar numa loja qualquer e me divertir à beça. Ainda vou insistir na ideia de achar um brinquedo específico que minha mãe me deu em um dos Natais. Das últimas vezes que tentei, não consegui. Era um jogo de perguntas e respostas sobre diversos temas. Em qual goleiro Pelé fez seu milésimo gol, até a formação dos anéis em Saturno, passando por livros, filmes, músicas, artes etc. 
       Fiquei com ele um bom tempo, até o momento em que abri o mecanismo para saber como funcionava. E aqueles que me conhecem sabem que quando desmonto algo, sempre sobram peças para montar um outro aparelho inteirinho. Se desmonto um liquidificador, logo fico com dois. Pena que nenhum funciona. É assim. 
     Bom, neste Natal - que parece longe, mas que logo chega: “nossa, já é Natal” - vou me comprar um binquedo, perdão, um brinquedo. Não, não quero roupa. Vou entrar numa loja bem grande, dessas de se perder - porque se você não se perde não tem graça nenhuma: “cadê o menino que tava aqui agora, gente?” – e vou escolher um brinquedo. Mas não é fácil. Aviso. Quando você acha um, já outro lhe encanta. Os pais não entendem isso, logo cansam, ficam exaustos. Lembro-me de meu pai e de minha mãe, derrotados, após saírem de uma loja, enquanto eu, cheio de energia, abraçava-me ao brinquedo escolhido. 
      Que o Natal chegue logo, pois, estou decidido. Vou entrar numa loja - até já sei qual - vou procurar um brinquedo, e vou levá-lo para mim. Vou me fazer uma surpresa. Posso até imaginar os meus olhos grandes quando abrir a caixa grande num papel de presente embalado especialmente, para mim. E sei que vou dizer: uaaau! Já me conheço. Mas não vai ficar só nisso, não. Vou esquecer as minhas juntas judiadas pelo tempo, as recomendações do médico sobre evitar emoções fortes ao velho coração de sempre, e vou me sentar bem no meio da sala. Então, vou espalhar o brinquedo e me esbaldar, brincar pra valer. Quem sabe dessa vez eu encontre o meu antigo jogo de perguntas e respostas. Perfeito. Aí não seria apenas mais um Natal, mas sim, o Natal, né? 

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