Nunca mais a vi tão forte, tão sábia, tão resoluta. Eu que tinha o verbo, que viajara tanto, que tinha os nomes das cidades na ponta da língua, eu que, muito seguro, olhava para caras atônitas em grandes salas. Eu que seguia à risca o idioma há muito estudado com anseios de telescópios, fiquei mudo feito um dia morto no calendário de um ano qualquer, enquanto ela, ali, como eu nunca havia visto mais decidida, mais firme, mais mãe, com todas aquelas palavras certeiras, vindas como se proferidas por um anjo resoluto em seu ombro franzino e soprando aquelas palavras como um acerto de contas tardio. Ela com suas mãos de árvores sobre o caixão daquele que amou, nunca foi de alardes, mas sim tudo em silêncio, entre as quatro paredes da discrição, da geração na qual os dois haviam embarcados. E sem uma lágrima, não que ela achasse que ele não merecesse, mas pelo simples fato de que já haviam chorado demais, os dois, e sem tremer a voz – ou talvez estivesse tremendo e eu já não soubesse, de tanto vê-la tremer. O fato é que eu a ouvi ali, como se falasse para alunos na Sorbonne, Yale, Harvard, ensinando-lhes que na vida não serve de nada o ensino teórico se não a vivemos com suas verdades e mentiras, que seja.
E não teve beijo
Quando fecharam o caixão, logo após ela terminar aquele discurso inesperado – ora, ela nunca foi de falar muito – ela só recuou, como quem vai se sentar após um dia duro, mas ficou em pé, com a mão na cintura, e mordiscando os lábios, que era o que costumava fazer, quando a vida lhe chamava pra jogar duro, na maioria das vezes, sabendo de antemão que não teria vez. – Como nunca teve - Que aquela fruta era verde e logo seria outra coisa. E quando a vi ali sozinha, a olhei como se eu fosse um estranho, como se ela fosse uma estranha, como se tudo fosse estranho. E por isso, como costumava fazer, afaguei-a em meus braços, mais buscando abrigo do que abrigando-a. E quando sentia aquele cheiro que já conhecia desde quando estava em sua barriga, sentia também aquela vontade de me afogar mais e mais como um caminho de volta. – Aquele que nunca mais tive - Então, um mundo feito um cancro inchava em minha garganta. E eu já o conhecia. Ele explodiria e iria para algum lugar do mais fundo de mim mesmo. Mas não foi, então, a olhei de longe, e vi quando pôs novamente, a mão na cintura, quando roeu a unha do polegar, e olhou pelos cantos com aqueles olhos quebrados e acompanhou tudo de muito perto, quando os homens começaram a levar aquele que rolou com ela, muitas vezes, pelos lençóis desgrenhados daquela vidinha besta e tão boa a dois.
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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