Um enfermeiro veio buscá-lo. Vi quando meu companheiro parou na porta - antes de pegar o corredor e ir-se de vez – e olhou para trás. Por que fazemos isso? É uma forma de nos certificar de que fomos mesmo capazes? É para tentar saber se o animal, com o qual lutamos esse tempo todo, está realmente morto? Por que olhamos para trás? Por que ainda contemplar o rosto daquilo que nos assombrou meses a fio? Para que ainda mirar esta Medusa de olhos vitrificados? Olhe para frente, meu amigo, é lá, no horizonte, que está a sua nova vida. Olhe para frente e esqueça a noite longa e escura. Você está livre agora. Está vivo. Talvez não consiga recuperar alguns outros tantos cacos daquilo que se quebrou, mas pode ainda construir algo novo com o que tem nas mãos. Mesmo num pedaço de um espelho conseguimos ainda nos contemplar por inteiro. Erga o queixo e siga o sol como assim, fazem os girassóis. O passado agora é apenas uma lembrança difícil que se esvai. Em breve, estará muito distante. É provável que por vezes, ainda sinta a presença das amarras, a pressão delas em suas pernas, braços, e até no pescoço, mas elas, na verdade, não estarão mais em você. Porém, é certo, terá de fazer forças para acreditar nisso. Atravesse este corredor, ele é o teu renascimento, o teu sol, a tua cura. A cada passo para frente, todas as pontes atrás de ti, transformar-se-ão em poeira. Vá, siga, avante. Aqui, guardaremos o calor e a beleza do seu sorriso leve de pétalas. Para sempre. Vá. Atravesse logo este corredor. Vamos, avante!
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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