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Escrevo

Estou só
Escrevo
Posso perceber o olhar do bicho
Ele tem os olhos do meu pai quando queria nos bater
Não eram os olhos do meu pai
como também não eram os seus cabelos
Uma pequena parte despenteava-se como penugens de pássaros,
enquanto a maior parte permanecia penteada
como os cabelos de uma estátua
Era outro homem diferente daquele barbeando-se logo pela manhã.
Bom, o bicho não me dá descanso
Dorme quando eu durmo
Come o que eu como
Levanta-se comigo
É como uma sombra,
Um reflexo no espelho
Sobreviverá a mim
Porque se alimenta de todos os ruídos
Do mundo
Dos meus gestos e pensamentos
Há dias em que penso entregar-me a ele
mansamente, como um beato cedendo a língua à hóstia
Mas resisto às mordidas
às promessas & suas garatujas
a inércia dos calendários

É que quando vejo já estou de pé

e ouvindo o matraquear dos relógios,
o farfalhar das úmidas folhas de náuseas
Não há como matá-lo

Um tiro no espelho

Talvez, domesticá-lo,
lamber suas botas
Ele tem a faca e o queijo
Estamos fartos um do outro
assim, como o dia de amanhecer.

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