É tudo tão turvo. Consigo me lembrar um pouco agora depois que tudo passou. Quer dizer, esse passado que não passa, e que tentamos repassá-lo como uma forma de tentar repará-lo. Encontrava-me ainda mais tímido. Tudo diante dela era frágil. A realidade parecia sempre suspensa, movediça. Eu media o que dizia como se a qualquer momento uma palavra enviesada pudesse desmontar aquilo que mais parecia um sonho. Eu olhava-a e pensava naquela mulher que passava as mãos sobre os meus cabelos e me dizia que nenhum mal dura. Aquela que pressentia os meus vislumbres e tragédias, aquela que me tirava para dançar quando percebia que o par que eu havia escolhido iria pisar não só no meu pé, mas em toda a minha vida. Aquela que via em meus olhos aquilo que eu ainda não via. Onde ela estava?
Tudo havia passado tão rápido. É, nenhum mal dura para sempre, mas também nenhum bem, né? Agora ela ali, diante de mim, de um homem ainda mais tímido, medindo gestos e palavras. Ela ali falando de geografias e tempos impossíveis. Trazendo mortos para vida e enterrando os que ainda viviam. Falava de uma criança que não mais existia e que morava num lugar que há muito desaparecera. E quando ela soltava algo vindo lá de dentro de seus labirintos e que nada tinha a ver com a realidade, eu e todos a volta ríamos. Não um riso de ironia, sarcasmo, mas de incredulidade, de dor, de sensações impossíveis. Aquelas mãos tão frágeis e trêmulas tinham mesmo me carregado nos braços? Aqueles seios murchos que desapareciam em seu vestido de criança tinham mesmo me alimentado? Aqueles cabelos desgrenhados, ralos foram um dia o que eu pensava ser um imenso sorvete sobre sua cabeça? Tudo era tão impossível.
Então, ela passou as mãos nos meus cabelos e disse: quem é esse menino bonito? E por um momento eu pensei que tudo era uma invenção minha. Que a vida com todas as suas regras rígidas pode, vez ou outra, fugir da sua tirânica realidade. Mas logo ela estava longe. Parecia contemplar um lugar no qual já habitava com tanta familiaridade, que procurei não interferir. Como alguém deslocado numa festa onde todos os outros se divertem, menos você. Era doído saber que eu não poderia mais trazê-la. Ela pertencia a outro tempo e lugar. Era a vida. Senti-me como que velando alguém ainda vivo.
Não havia mais condição de um adeus. Não houve tempo. Se eu lhe desse adeus, ela pensaria outra coisa, veria outra coisa, entenderia outra coisa. Então, apenas a olhei ali tão desgastada e tão menina. Uma mescla de ontem e hoje - não mais amanhã - que me deixava perplexo. Seu corpo, antes robusto, minguava como uma despedida. Qual o sentido de tudo isso? Perguntei. Mas há muito me faço essa pergunta sem resposta. Sorri cansado.
Eu olhei-a e busquei algo, ainda busquei, mas só havia aquela mulher que já nem sabia que um dia fora minha mãe. Tentei passar as mãos em seus cabelos, mas desisti. Apenas continuei olhando-a e ainda buscando algo. Queria resgatar algo para continuar acreditando no impossível, como um homem que tenta trazer algo do sonho, para que os outros acreditem em seu sonho. Mas não havia mesmo mais nada. Apenas a minha mãe ali, partindo sem saber que partia. Quando ela se foi, eu senti, senti, muito, mas foi como colocar um vazio dentro do outro. Até hoje não entendo isso.
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