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A dor do crescer tem dessas coisas.

Não estou bem certo, mas penso que lembro de coisas ainda do tempo em que me jogavam para cima e logo depois me aparavam. O mundo, tão grande que era, girava num instante. Não sei se essas coisas existiram ou se eu as inventei como um tipo de elixir para a dor do crescer. E isso é algo que me pergunto até hoje: como pode um corpo, na surdina, esticar-se e logo se tornar grande, velho e triste? Não sei. O que posso afirmar é que o vazio entre o ir para cima até o momento em que me pegavam nos braços não era tão assustador quanto as minhas incertezas de adulto.

      O fato é que me lembro mesmo de algumas coisas: um relógio no pulso do meu pai que todas as vezes em que os ponteiros se encontravam - ora, como pode a Física afirmar que dois corpos não ocupam o mesmo espaço no tempo? - tocava uma música que me lembrava o tema de abertura dos filmes da Disneylândia. Ele disse que nunca teve esse relógio, e que se tivesse um relógio com uma música assim, nunca o compraria. Também me lembro, podem acreditar, de um camafeu de ouro, da minha mãe, que podíamos ver, em terceira dimensão, o coração de Maria. Minha mãe ria, pois dizia que a mãe dela teve um camafeu, mas que havia desaparecido muito antes de eu nascer, e ele não era de ouro, muito menos em terceira dimensão. 

    Recordo-me ainda do cheiro do meu avô. Era de um perfume muito bom, que eu só iria conhecer quando caminhei por algumas ruas da Europa em minha ânsia de turista de última hora. - Aquilo foi uma viagem ou uma fuga? Até hoje não sei. - Antes do meu avô entrar num mundo muito particular, daqueles que não tem volta, ele, numa voz fina e cheirando a tabaco - e ele não estava cheirando muito bem - disse-me que nunca usou perfume. Que gostava mesmo era do sabão de coco. E por aí vai. Têm muitas outras coisas. 

     Vez em quando ligo para alguém para perguntar isso ou aquilo. E insisto, retomo a conversa, pergunto novamente, mas ninguém confirma nada. Quando não desligam na minha cara, já cansados de tanto argumentar. A cada tempo que passa, a lista dos envolvidos na história vai ficando cada vez mais minguada. Mas talvez, o grande sentido dessas perguntas seja mesmo permanecerem sem respostas feito um homem devorado pelas esfinges do tempo.

 

 

 

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