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Acima da superfície

Vez em quando, sinto a necessidade de uma experiência maior, uma relação mais significativa com a vida. Algo que esteja acima da superfície onde boio.
É como em meio a um turbilhão lembrar-se de um grande amigo e sentir a vontade de escrever-lhe uma carta longa sem o anseio de uma resposta. Porque tudo se resume ao ato da escrita.
Não gosto de palavras às quais não consigo sentir o sabor, como quem chupa uma bala ainda no papel. Quando também não consigo tocá-las, como quem apalpa um objeto embrulhado. Palavras como o amor, a liberdade, a fé etc. me soam assim. Mas sei que elas estão ali, e até posso vê-las, de esguelha, feito pessoas passando do lado de fora de uma vitrine embaçada. E isso me basta. E o que posso mais fazer?
Por exemplo, quando pronuncio fé, logo me vem a palavra resistir e logo vejo um pássaro caminhando para o precipício em busca do seu voo inaugural. Ele precisa disso. Se ele vai se esborrachar? talvez não sinta isso. Talvez apenas pense no voo. No vento brincando em suas penas, o cheiro das coisas em seu bico e a experiência única de liberdade, resiliência, resistência. Ou seja, resistir.
Gosto desse chamamento de mim por mim. Como quem se busca e se eleva por si mesmo. Salvar-se já é outra história. Talvez, essa relação maior seja perder-se. Afinal de contas, quem possui o real ignificado das coisas? E o que seria esse "real"?

Falo apenas de Viver além do que nos habituamos a chamar de viver.

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