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Quando eu roubava cavalos

Chegou à casa do meu amiguinho, bateu palmas e aguardou. Logo apareceu um senhor que eu não conhecia. Era o pai do meu novo amiguinho. Fiquei sabendo. Sorria e parecia bacana. Meu pai se apresentou, falou sobre o ocorrido e pediu que chamasse o menino. O senhor, olhando pra mim e para o meu pai, tentou atenuar as coisas. Seu Toni, coisas de crianças, né? Deixe pra lá, tá certo? Isso acontece. Mas meu pai era assim, e pronto. Disse que não gostava dessas coisas, o que era, era e blá, blá, blá. Até que o senhor chamou meu amiguinho.
    Ele veio lá da cozinha ainda com um pouco de sorvete nos lábios vermelhos. Pude até sentir o seu hálito de baunilha. Olhou para nós e ficou aguardando. Não parecia muito envolvido com a coisa. A impressão que me dava era que queria sair dali o mais rápido possível para talvez, abrir uma nova caixa de brinquedos ou terminar o seu sorvete. Então, meu pai disse que eu tinha algo a lhe dizer. E eu fui desfiando o meu terço maligno: "eu roubei seu cavalinho e, arrependido, vim lhe devolver e lhe pedir desculpas". Eu tinha decorado essas palavras ditas pelo meu pai, e quando eu queria titubear em alguma, ele apertava a minha mão com mais força como se com isso pudesse fazer as palavras saírem de dentro de mim. O menino, impassível, do pedestal da sua bela vida, ouvia minhas palavras e olhava o brinquedo em minhas mãos trêmulas como se aquilo não fosse com ele. Com certeza não tinha dado falta do brinquedo. E como poderia? Havia tantos, e ainda chegavam sempre mais e mais. Ele manuseou o cavalinho exatamente como o meu pai o havia feito: rodando nas mãos. Depois disse que era um cavalo velho e que não o queria mais, podia ficar com ele. Até disse que pensou em me dar o brinquedo, mas acabou esquecendo. Podia levá-lo. Depois saiu da sala sem dizer mais nada.
    Meu pai agradeceu ao homem, pediu desculpas por tomar o seu tempo, pegou minha mão e tomamos o caminho de casa. O pequeno corcel espetava a palma da minha mão, o meu estômago embrulhava, e a mão do meu pai era como um grilhão. Eu ainda não sabia o peso do mundo, mas devia pesar feito aquela mão. Eu queria soltá-la e sair correndo, mas não conseguia. Ele segurava-me firme. Naquele momento, naquela mão cheia de calos e de unhas carcomidas pelo trabalho e preocupações diários, eu não sabia o quanto havia de amor e o quanto havia de vergonha.

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